III FSM: Observações e comentários
Laerte Braga
La Insignia. Brasil, janeiro de 2003.
A torta
O jornalista Márcio Moreira Alves escreveu um artigo no jornal "O Globo"
lamentando e condenando o gesto de uma ativista que atirou a torta no rosto
do presidente nacional do PT, deputado José Genoíno. Até aí tudo bem. Mas a
torta nem foi o fato principal do III FSM, apenas um gesto isolado. Ganhou
destaque por ser algo inusitado em termos de um dirigente petista, no caso o
mais importante na estrutura partidária.
Só que o jornalista, de tradicional família da cidade do Rio de Janeiro,
enveredou por um caminho complicado ao generalizar suas críticas à esquerda
do PT e ao colocar num mesmo cesto, o conjunto do movimento popular,
sobretudo o MST. E a forma como o fez.
Sério e um excelente articulista, derrapou. Falou em esquerdismo como doença
infantil do comunismo, citando esse muitas vezes lembrado comentário de
Lenine. Descambou para a invasão da fazenda dos filhos de FHC, reportou um
fórum que, definitivamente, não existiu, senão nos círculos da
intelectualidade burguesa reunida em mesas aqui e acolá e, pior, nenhum fato
na história recente do Brasil cabe tão bem dentro da frase de Lenine,
julgando pela mesma ótica dele, como o que protagonizou em 1968, quando era
deputado e acabou servindo de pretexto para o to Institucional nº 5, o mais
draconiano dos documentos da ditadura militar.
O jornalista Márcio Moreira Alves era deputado federal e foi à tribuna onde
pronunciou um discurso candente contra o regime. Pediu às esposas de
militares que não dormissem com seus maridos, entre outras coisas, como
forma de manifestar repúdio à tortura, a barbárie daqueles tempos. O AI 5
teria vindo de qualquer forma. Com ou sem o discurso do então deputado
Márcio Moreira Alves. A atitude, no entanto, valeu-lhe críticas de vários
setores da esquerda, à época, muitos dos quais achando, inclusive, que o
comportamento do mesmo foi infantil. Deu a cabeça de bandeja, facilitou a
ação dos gorilas.
Deu importância demais ao fato e a impressão que estava apenas procurando
uma boutade para agradar o deputado José Genoíno. O próprio Genoíno não
permitiu nem que a moça fosse identificada. Encerrou o assunto por ali
mesmo.
O Fórum para dentro, o Fórum para fora
Quem tem a preocupação de acompanhar e avaliar os vários eventos do Fórum
Social Mundial, muito difícil tamanha a quantidade de oficinas, seminários,
testemunhos, conferências, sem falar nos acontecimentos paralelos, mas quem
se vale de informações, corre aqui e ali, acaba ficando com a nítida
sensação que são dois, pelo menos, os fóruns. Um para dentro, outro para
fora. E ambos muito importantes.
O para dentro, com preocupações e postura mais voltada para a ação das
chamadas ONGS, muitas vezes e em muitos aspectos despolitiza algumas
discussões, sobretudo as voltadas para a questão ambiental. Boa parte dos
ambientalistas não se preocupa com a questão política e não reconhece no
capitalismo o seu caráter predador. Fica na análise e na recomendação
técnicas. A parte que pensa ambiente e política em conjunto, uma
indissociável da outra, é minoria. Há exageros inclusive, como o de tachar
de nazistas os que não jogam papel nas cestas, poluem com cigarro, etc.
Esses são episódicos e acabam ficando restritos a grupos um tanto exóticos.
Essa gente fala para dentro de grupos, guetos ou veste suas falas de um
caráter apolítico que acaba não realçando a importância e o caráter
indispensável do tema, ou problema.
Houve fatos ridículos como o de um defensor da alimentação natural que,
entre outras coisas provocou o riso dos que assistiam à sua fala: "podemos
comer um pé de alface sem causar dor nenhuma ao vegetal, pois ele não foge
quando o colhemos.. Mas não devemos comer carne pois o boi sai correndo
quando percebe que vamos pegá-lo para matá-lo. A uma pergunta sobre a
hipótese de um boi manco, retrucou que ali estava um "nazista defensor do
consumo de carne, qualquer tipo de carne".
Esse fórum fala para dentro. Restringe-se a grupos, mas compõe o
extraordinário acervo, digamos assim, do maior evento dos dias de hoje em
termos de mobilização e luta popular.
Fala para fora o extraordinário trabalho de pesquisa divulgado na abertura
oficial do evento, na quinta-feira, 22. Mostrou a importância do FSM e
principalmente, como disse Chico Whitaker, um dos integrantes da
organização, "que o fórum deixou de ser um mero evento anual e ganhou a
dinâmica de um processo de mobilização e luta por um outro mundo possível".
Sinaliza para a necessidade de, compreendida essa constatação, adequar-se a
ela e ampliar a luta a partir disso: é um processo e como tal tem que ser
conduzido.
Fala para fora nos eventos promovidos sob a batuta do MST que lotaram o
ginásio do Internacional, o "Gigantinho". Houve momentos em que as rádios e
redes de tevê, sobretudo a educativa do Rio Grande do Sul, se viram na
contingência de dirigir apelos ao público para não se deslocar para o local,
pois não cabia mais ninguém.
Houve momentos, segundo uma delegada de Minas Gerais, que "você tem a
sensação que está em meio à revolução e aí pensa que a revolução é
possível". Foram tocantes e eletrizantes tais momentos. Como a palestra do
escritor Eduardo Galeano, a da irmã Sherine, do Iraque, a da filha de Che
Guevara, ou o lançamento do jornal "Brasil de Fato".
Ou as marchas, tanto a da abertura como a contra a ALCA. Ambas gritaram por
paz e a paz acabou sendo um consenso entre todos os participantes. Até
israelenses e palestinos juntos e de mãos dadas. "Uma outra Israel é
possível", foi o cartaz predominante na delegação daquele país.
Esse fórum que fala para fora sufocou o de DAVOS tornou menores questões com
algum peso, como por exemplo, o corte de verbas para o evento, promovido
pelo novo governador do Rio Grande, Germano Righoto, que, ao contrário de
seu antecessor, o ministro Olívio Dutra, mostrou-se em sua inteira figura:
menor e episódica.
Fórum socialista
O I FSM foi como quê uma descoberta. As insatisfações chegando de todos os
cantos e buscando mostrar o grito por um "outro mundo possível". Percebeu-se
que era e é possível. O segundo foi marcado por um acentuado crescimento e
novas descobertas: a criança começou a andar por suas próprias pernas, era
como é uma realidade maior que Davos (encolhido e envergonhado em sua
pequenez de olhos de banqueiros).
O III FSM foi um fórum socialista. O grito de ordem foi o socialismo. O
anseio estampado em cada manifestação foi o socialismo. O fórum que falou
para fora e algumas vezes o que falou para dentro, teve nítido caráter
socialista. O outro mundo possível e desejado é o do socialismo.
A transferência para Bombaim, no próximo ano, deve conferir maior
importância a temas asiáticos e talvez desloque um pouco esse desejo. O
reencontro, com toda a certeza, será em Porto Alegre, em 2005. Mas não vai
matá-lo e nem permitir que prospere a idéia de capitalismo humanizado de
alguns setores que falam para dentro.
Ao constatar que o FSM ganhou força de processo político, dinâmica de luta
com viés de mobilização permanente nos muitos fóruns nacionais,
continentais, regionais, que vão acontecer ao longo do ano todo, a força do
grito superou os limites de Porto Alegre. A capital gaúcha é a síntese desse
anseio e como tal consolidou-se.
Os meios de comunicação
Um comentarista da "RBS" (Rede Brasil Sul), afiliada da "Globo", no último
dia, na terça-feira, não teve como disfarçar esse fato. Aí, na costumeira
ignorância da direita pau mandado, pediu que o fórum não fosse para o
"socialismo anacrônico". Estava de terno, gravata e falou sério. Os robôs
que estavam ao seu lado, duas belas mulheres/apresentadoras, menearam as
cabeças em sinal de concordância. Estão abertas as inscrições para que
alguém explique o que é "socialismo anacrônico". Deve ser falta do que falar
diante da grandeza do FSM.
Os meios de comunicação do Rio Grande do Sul, conservadores (refiro-me aos
grandes) e comprometidos com o que há de mais atrasado em matéria de
latifúndio, direita, etc, não tiveram como evitar o FSM. Estava ali nas
barbas deles e a presença de 150 mil pessoas de fora criou uma situação
complicada: num dado momento setores do comércio, hoteleiro e restaurantes,
principalmente, mostraram-se preocupados com a transferência do fórum para
Bombaim. O balanço mostrou que 50 milhões de dólares foram gastos na cidade
em 6 dias. Tiveram que sentar em cima e abrir suas manchetes.
Os nacionais foram mais parcimoniosos para não discrepar dos compromissos
com os grandes grupos econômicos, banqueiros, etc. A exceção da "Folha de
São Paulo", que, sem juízo de mérito, cobriu o evento inteiro, os demais
limitaram-se a registrá-lo e alguns de forma deliberadamente desfavorável,
ou pretensamente neutra.
Foi o caso da edição do "Jornal Nacional", na terça-feira. Mostrou o
confronto entre meia dúzia de nudistas e três dúzias de boçais fardados e a
cavalo, distribuindo golpes de sabre a torto e a direito em nome da moral,
da ordem e dos bons costumes. O mesmo tempo dedicado aos trabalhos do fórum
foi dedicado a um episódio isolado e parte do caráter libertário que reveste
o FSM.
Ao contrário, foram pródigos na cobertura de Davos. É quando chamam os
comerciais, no caso das redes de tevê e das rádios, ou inserem anúncios, nos
casos dos jornais e revistas, é só prestar atenção que Davos está ali, na
grana de cada dia.
Não houve, no entanto, como esconder. Qualquer motorista de táxi de Porto
Alegre estava fulo da vida com a transferência para Bombaim e identificava
na "nova ordem gaúcha", a razão. O resto do País vai começar agora a viver
situações regionais, estaduais e o próprio fórum brasileiro, na dimensão de
processo de luta e mobilização populares. Vai ser difícil manter a posição
de avestruz, com a cara enterrada, até porque o governo é o de Lula.
Considerações finais
Tudo indica que a presença de Hugo Chaves, várias vezes, no Brasil, após a
posse de Lula e a nova política externa do novo governo brasileiro, começam
a significar alívio para o venezuelano. Sua ida a Porto Alegre não
obscureceu, como imaginavam alguns setores do capitalismo humanizado, a
presença de milhares de organizações. O chefe de Estado não centralizou o
fórum.
Foi um gesto político que representou ganhos para Chávez e acabou
mostrando-se fundamental na sua reação ao golpe das elites contra sua
revolução bolivariana. Milhares de pessoas acorreram ao local onde Chávez
estava na expectativa de manifestar apoio, unânime no III FSM, ao presidente
da Venezuela.
Integrantes do comitê organizador confessaram em entrevistas que ficaram
surpresos com a magnitude do evento. Não esperavam tanto, embora esperassem
um êxito maior que o do II FSM.
Nos dias do Fórum Porto Alegre foi exatamente a comuna livre, pacífica, onde
conviveram as mais variadas tribos e onde aconteceram os mais importantes
eventos na direção do sonho de "um outro mundo é possível". Ficou claro, que
um mundo socialista. O tom disciplinador, em todos os sentidos e aspectos,
do III FSM, foi dado pela esquerda socialista, particularmente, MST e Via
Campesina.
Falaram para fora. Falaram para o mundo inteiro.
Laerte Braga
La Insignia. Brasil, janeiro de 2003.
A torta
O jornalista Márcio Moreira Alves escreveu um artigo no jornal "O Globo"
lamentando e condenando o gesto de uma ativista que atirou a torta no rosto
do presidente nacional do PT, deputado José Genoíno. Até aí tudo bem. Mas a
torta nem foi o fato principal do III FSM, apenas um gesto isolado. Ganhou
destaque por ser algo inusitado em termos de um dirigente petista, no caso o
mais importante na estrutura partidária.
Só que o jornalista, de tradicional família da cidade do Rio de Janeiro,
enveredou por um caminho complicado ao generalizar suas críticas à esquerda
do PT e ao colocar num mesmo cesto, o conjunto do movimento popular,
sobretudo o MST. E a forma como o fez.
Sério e um excelente articulista, derrapou. Falou em esquerdismo como doença
infantil do comunismo, citando esse muitas vezes lembrado comentário de
Lenine. Descambou para a invasão da fazenda dos filhos de FHC, reportou um
fórum que, definitivamente, não existiu, senão nos círculos da
intelectualidade burguesa reunida em mesas aqui e acolá e, pior, nenhum fato
na história recente do Brasil cabe tão bem dentro da frase de Lenine,
julgando pela mesma ótica dele, como o que protagonizou em 1968, quando era
deputado e acabou servindo de pretexto para o to Institucional nº 5, o mais
draconiano dos documentos da ditadura militar.
O jornalista Márcio Moreira Alves era deputado federal e foi à tribuna onde
pronunciou um discurso candente contra o regime. Pediu às esposas de
militares que não dormissem com seus maridos, entre outras coisas, como
forma de manifestar repúdio à tortura, a barbárie daqueles tempos. O AI 5
teria vindo de qualquer forma. Com ou sem o discurso do então deputado
Márcio Moreira Alves. A atitude, no entanto, valeu-lhe críticas de vários
setores da esquerda, à época, muitos dos quais achando, inclusive, que o
comportamento do mesmo foi infantil. Deu a cabeça de bandeja, facilitou a
ação dos gorilas.
Deu importância demais ao fato e a impressão que estava apenas procurando
uma boutade para agradar o deputado José Genoíno. O próprio Genoíno não
permitiu nem que a moça fosse identificada. Encerrou o assunto por ali
mesmo.
O Fórum para dentro, o Fórum para fora
Quem tem a preocupação de acompanhar e avaliar os vários eventos do Fórum
Social Mundial, muito difícil tamanha a quantidade de oficinas, seminários,
testemunhos, conferências, sem falar nos acontecimentos paralelos, mas quem
se vale de informações, corre aqui e ali, acaba ficando com a nítida
sensação que são dois, pelo menos, os fóruns. Um para dentro, outro para
fora. E ambos muito importantes.
O para dentro, com preocupações e postura mais voltada para a ação das
chamadas ONGS, muitas vezes e em muitos aspectos despolitiza algumas
discussões, sobretudo as voltadas para a questão ambiental. Boa parte dos
ambientalistas não se preocupa com a questão política e não reconhece no
capitalismo o seu caráter predador. Fica na análise e na recomendação
técnicas. A parte que pensa ambiente e política em conjunto, uma
indissociável da outra, é minoria. Há exageros inclusive, como o de tachar
de nazistas os que não jogam papel nas cestas, poluem com cigarro, etc.
Esses são episódicos e acabam ficando restritos a grupos um tanto exóticos.
Essa gente fala para dentro de grupos, guetos ou veste suas falas de um
caráter apolítico que acaba não realçando a importância e o caráter
indispensável do tema, ou problema.
Houve fatos ridículos como o de um defensor da alimentação natural que,
entre outras coisas provocou o riso dos que assistiam à sua fala: "podemos
comer um pé de alface sem causar dor nenhuma ao vegetal, pois ele não foge
quando o colhemos.. Mas não devemos comer carne pois o boi sai correndo
quando percebe que vamos pegá-lo para matá-lo. A uma pergunta sobre a
hipótese de um boi manco, retrucou que ali estava um "nazista defensor do
consumo de carne, qualquer tipo de carne".
Esse fórum fala para dentro. Restringe-se a grupos, mas compõe o
extraordinário acervo, digamos assim, do maior evento dos dias de hoje em
termos de mobilização e luta popular.
Fala para fora o extraordinário trabalho de pesquisa divulgado na abertura
oficial do evento, na quinta-feira, 22. Mostrou a importância do FSM e
principalmente, como disse Chico Whitaker, um dos integrantes da
organização, "que o fórum deixou de ser um mero evento anual e ganhou a
dinâmica de um processo de mobilização e luta por um outro mundo possível".
Sinaliza para a necessidade de, compreendida essa constatação, adequar-se a
ela e ampliar a luta a partir disso: é um processo e como tal tem que ser
conduzido.
Fala para fora nos eventos promovidos sob a batuta do MST que lotaram o
ginásio do Internacional, o "Gigantinho". Houve momentos em que as rádios e
redes de tevê, sobretudo a educativa do Rio Grande do Sul, se viram na
contingência de dirigir apelos ao público para não se deslocar para o local,
pois não cabia mais ninguém.
Houve momentos, segundo uma delegada de Minas Gerais, que "você tem a
sensação que está em meio à revolução e aí pensa que a revolução é
possível". Foram tocantes e eletrizantes tais momentos. Como a palestra do
escritor Eduardo Galeano, a da irmã Sherine, do Iraque, a da filha de Che
Guevara, ou o lançamento do jornal "Brasil de Fato".
Ou as marchas, tanto a da abertura como a contra a ALCA. Ambas gritaram por
paz e a paz acabou sendo um consenso entre todos os participantes. Até
israelenses e palestinos juntos e de mãos dadas. "Uma outra Israel é
possível", foi o cartaz predominante na delegação daquele país.
Esse fórum que fala para fora sufocou o de DAVOS tornou menores questões com
algum peso, como por exemplo, o corte de verbas para o evento, promovido
pelo novo governador do Rio Grande, Germano Righoto, que, ao contrário de
seu antecessor, o ministro Olívio Dutra, mostrou-se em sua inteira figura:
menor e episódica.
Fórum socialista
O I FSM foi como quê uma descoberta. As insatisfações chegando de todos os
cantos e buscando mostrar o grito por um "outro mundo possível". Percebeu-se
que era e é possível. O segundo foi marcado por um acentuado crescimento e
novas descobertas: a criança começou a andar por suas próprias pernas, era
como é uma realidade maior que Davos (encolhido e envergonhado em sua
pequenez de olhos de banqueiros).
O III FSM foi um fórum socialista. O grito de ordem foi o socialismo. O
anseio estampado em cada manifestação foi o socialismo. O fórum que falou
para fora e algumas vezes o que falou para dentro, teve nítido caráter
socialista. O outro mundo possível e desejado é o do socialismo.
A transferência para Bombaim, no próximo ano, deve conferir maior
importância a temas asiáticos e talvez desloque um pouco esse desejo. O
reencontro, com toda a certeza, será em Porto Alegre, em 2005. Mas não vai
matá-lo e nem permitir que prospere a idéia de capitalismo humanizado de
alguns setores que falam para dentro.
Ao constatar que o FSM ganhou força de processo político, dinâmica de luta
com viés de mobilização permanente nos muitos fóruns nacionais,
continentais, regionais, que vão acontecer ao longo do ano todo, a força do
grito superou os limites de Porto Alegre. A capital gaúcha é a síntese desse
anseio e como tal consolidou-se.
Os meios de comunicação
Um comentarista da "RBS" (Rede Brasil Sul), afiliada da "Globo", no último
dia, na terça-feira, não teve como disfarçar esse fato. Aí, na costumeira
ignorância da direita pau mandado, pediu que o fórum não fosse para o
"socialismo anacrônico". Estava de terno, gravata e falou sério. Os robôs
que estavam ao seu lado, duas belas mulheres/apresentadoras, menearam as
cabeças em sinal de concordância. Estão abertas as inscrições para que
alguém explique o que é "socialismo anacrônico". Deve ser falta do que falar
diante da grandeza do FSM.
Os meios de comunicação do Rio Grande do Sul, conservadores (refiro-me aos
grandes) e comprometidos com o que há de mais atrasado em matéria de
latifúndio, direita, etc, não tiveram como evitar o FSM. Estava ali nas
barbas deles e a presença de 150 mil pessoas de fora criou uma situação
complicada: num dado momento setores do comércio, hoteleiro e restaurantes,
principalmente, mostraram-se preocupados com a transferência do fórum para
Bombaim. O balanço mostrou que 50 milhões de dólares foram gastos na cidade
em 6 dias. Tiveram que sentar em cima e abrir suas manchetes.
Os nacionais foram mais parcimoniosos para não discrepar dos compromissos
com os grandes grupos econômicos, banqueiros, etc. A exceção da "Folha de
São Paulo", que, sem juízo de mérito, cobriu o evento inteiro, os demais
limitaram-se a registrá-lo e alguns de forma deliberadamente desfavorável,
ou pretensamente neutra.
Foi o caso da edição do "Jornal Nacional", na terça-feira. Mostrou o
confronto entre meia dúzia de nudistas e três dúzias de boçais fardados e a
cavalo, distribuindo golpes de sabre a torto e a direito em nome da moral,
da ordem e dos bons costumes. O mesmo tempo dedicado aos trabalhos do fórum
foi dedicado a um episódio isolado e parte do caráter libertário que reveste
o FSM.
Ao contrário, foram pródigos na cobertura de Davos. É quando chamam os
comerciais, no caso das redes de tevê e das rádios, ou inserem anúncios, nos
casos dos jornais e revistas, é só prestar atenção que Davos está ali, na
grana de cada dia.
Não houve, no entanto, como esconder. Qualquer motorista de táxi de Porto
Alegre estava fulo da vida com a transferência para Bombaim e identificava
na "nova ordem gaúcha", a razão. O resto do País vai começar agora a viver
situações regionais, estaduais e o próprio fórum brasileiro, na dimensão de
processo de luta e mobilização populares. Vai ser difícil manter a posição
de avestruz, com a cara enterrada, até porque o governo é o de Lula.
Considerações finais
Tudo indica que a presença de Hugo Chaves, várias vezes, no Brasil, após a
posse de Lula e a nova política externa do novo governo brasileiro, começam
a significar alívio para o venezuelano. Sua ida a Porto Alegre não
obscureceu, como imaginavam alguns setores do capitalismo humanizado, a
presença de milhares de organizações. O chefe de Estado não centralizou o
fórum.
Foi um gesto político que representou ganhos para Chávez e acabou
mostrando-se fundamental na sua reação ao golpe das elites contra sua
revolução bolivariana. Milhares de pessoas acorreram ao local onde Chávez
estava na expectativa de manifestar apoio, unânime no III FSM, ao presidente
da Venezuela.
Integrantes do comitê organizador confessaram em entrevistas que ficaram
surpresos com a magnitude do evento. Não esperavam tanto, embora esperassem
um êxito maior que o do II FSM.
Nos dias do Fórum Porto Alegre foi exatamente a comuna livre, pacífica, onde
conviveram as mais variadas tribos e onde aconteceram os mais importantes
eventos na direção do sonho de "um outro mundo é possível". Ficou claro, que
um mundo socialista. O tom disciplinador, em todos os sentidos e aspectos,
do III FSM, foi dado pela esquerda socialista, particularmente, MST e Via
Campesina.
Falaram para fora. Falaram para o mundo inteiro.

