Amnésia faz Britto prometer emprego e segurança
Texto de FLAVIO KOUTZII, deputado estadual pelo PT.
A falta de memória provoca estragos de praga bíblica e
se propaga sem pudor a cada período eleitoral. De dois
em dois anos, candidatos vestem máscaras de produto novo
para cobrar dos adversários tudo aquilo que deixaram de
fazer quando governaram. Com a volta de Antonio Britto
ao cenário político, o Rio Grande do Sul assiste a um
caso que chega a ser clínico (de tão grave) de lapso de
memória. Pior: de memória recente.
Britto deixou o Palácio Piratini pela porta dos fundos
não faz muito tempo, em dezembro de 1998, e agora
promete segurança e emprego. Ator mediano, ele inclusive
consegue prometer isso diante das câmeras e microfones
sem rir, até por que do outro lado está boa parte da
mídia gaúcha encarando o ex-peemedebista com ar de
enlevo e seriedade. Mas nós não conseguimos mais ouvir a
fala de Britto. Nós que sucedemos o seu governo medíocre
e tivemos que remontar aos poucos o Estado que ele
deixou em farrapos, nós sabemos que o ex-governador
sucateou a área da segurança pública e tratou o
desemprego com incompetência, com jogos de marketing em
prol de equivocadas privatizações e subsídios generosos
a grandes multinacionais.
Ainda há setembro e outubro para lembrar do passado
recente, depois pode ser tarde demais. Sugerimos a
seguir uma comparação das diferenças do governo de
Britto e do governo de Olívio Dutra nas áreas da
segurança e do emprego, áreas sempre tão críticas, tão
sensíveis à desestruturação total da vida humana
promovida pelo modelo neoliberal. Modelo, aliás, de que
Britto foi um dos principais porta-estandartes no Brasil
dos anos 90.
Na segurança pública, Britto demitiu 1.654 servidores
através do Plano de Demissões Voluntárias (PDV). Hoje
ele diz que foi um erro retirar policiais das ruas. E
será que vale, arrependimento retardado quando os custos
são vidas humanas? Sem pessoal suficiente, os presídios
enfrentaram motins violentos e a Febem passou por mais
de 30 rebeliões, com nove adolescentes mortos. Morreram
60 policiais em combate, ou 15 por ano. Sem reajustes
para os menores salários (o Risco de Vida diferenciado
de 222% foi mantido apenas para oficiais e delegados), a
Brigada Militar e a Polícia Civil entraram em greve.
Britto também manteve o Instituto Geral de Perícias
desaparelhado. E agora ele enche a boca para dizer que
segurança será a sua prioridade, porque é a prioridade
dos gaúchos. Quanto cinismo. Então Britto não lembra
sequer da insegurança que promoveu quando governador?
No governo da Frente Popular, os profissionais da
segurança somaram diversas conquistas. Ainda há muito a
ser feito, mas o efetivo já aumentou: foram contratados
3.287 novos servidores e a efetivação de mais 3.797 está
em andamento. Os salários já aumentaram: foi enfim
regularizado o pagamento de horas extras e a base dos
servidores também passou a receber os 222% de Risco de
Vida sobre o valor básico dos vencimentos. Para a
modernização do IGP, foram investidos R$ 7,8 milhões em
equipamentos. As promoções beneficiaram quase 10 mil
servidores, sendo que 25 mil tiveram cursos de formação
desde 1999. A Secretaria de Justiça e Segurança promoveu
cursos de direitos humanos, direito constitucional,
direito civi, ética e cidadania e sociologia da
violência, entre outros temas.
Mais eficientes e integradas, as ações policiais fizeram
a população carcerária crescer de 12.500 para mais de 16
mil apenados. Foram contratados dezenas de psicólogos,
advogados e assistentes sociais, e os presos são
incentivados a trabalhar e se alfabetizar por meio do
Mova. Para a oposição, que ainda utiliza o
termo "bandido" nos discursos de campanha, este respeito
aos direitos da população carcerária soa excessivo
No tema do combate ao desemprego, os contrastes entre os
governos Britto e Olívio são ainda mais gritantes.
Nossos adversários batem incessantemente na tecla da
saída da Ford porque esta é a única queixa que eles
conseguem formular. Eles não conseguem dizer que a
indústria, a agropecuária e as exportações estagnaram.
Seria mentir demais. As estatísticas de crescimento da
economia gaúcha desde 1999, no campo, na Região
Metropolitana e na Capital, comprovam o acerto das ações
do governo. São números incontestáveis:
De 1999 a 2001, o PIB (soma das riquezas) cresceu 11% no
Rio Grande do Sul, superando a economia brasileira, cujo
crescimento total foi de 7,6% no período. Na
agropecuária, o desenvolvimento foi ainda maior: 23% em
três anos e meio. Tivemos a supersafra de grãos em 2001,
criamos o seguro agrícola e retomamos o posto de segundo
Estado exportador do Brasil. Na área do Trabalho e
Assistência Social, programas como o Primeiro Emprego,
Família Cidadã e Coletivos de Trabalho levaram renda
mensal para milhares de jovens estreantes no mercado e
famílias em situação de risco.
Na área do Desenvolvimento, o Programa de Extensão
Empresarial já atendeu a mais de 11 mil indústrias, em
parceria com 15 universidade, e foram firmados 111
convênios com prefeituras para a criação
de "incubadoras" de novas empresas. Também criamos
linhas de crédito especiais para pequenos
empreendimentos, a Economia Popular Solidária (13 mil
trabalhadores envolvidos em 300 projetos de cooperativa)
e as Redes de Cooperação, que já mobilizam 777 empresas.
Por conta desses incentivos diários e espraiados à
qualificação dos produtos, ao acesso a novas tecnologias
e à contratação de funcionários, o Rio Grande do Sul tem
hoje os menores índices de desemprego do país. E isso em
pleno governo de FHC.
Já no governo anterior, o de Britto, a incompetência
deixou marcas para a posteridade. De 1995 a 1998, a
economia cresceu apenas 0,8% no Estado. Britto insiste
em não explicar esse índice medíocre, e a mídia teima em
não querer saber mais detalhes. O desenvolvimento do PIB
agropecuário foi menor (a metade) que o do país na
época. O modelo de Britto, que agora posa de
trabalhista, foi altamente concentrador de renda. Ele
abriu os cofres públicos e quis destinar centenas de
milhões de dólares para duas montadoras multinacionais,
que resolveriam, via propaganda, todos os problemas de
desemprego no Estado. Britto destinou para a General
Motors 50 vezes mais dinheiro do que para a habitação
popular, em quatro anos. Fez um empréstimo milionário
para indenizar funcionários que se demitiam, sendo 6,8
mil deles professores que faziam falta nas escolas.
Escolas sem professores geram segurança na comunidade,
não é mesmo? Desprezando os sistemas locais de produção,
os micro e pequenos empresários, destinou 92% dos
recursos do Fundopem para 50 grandes empresas (a Gerdau
e a RBS entre elas), sendo que 25% dos beneficiados com
a renúncia monumental de impostos demitiram milhares de
trabalhadores. E agora Britto diz que o desenvolvimento
vem com ele. Desenvolvimento para as aplicações de quem?
Chega de tanta falta de memória. Estamos exaustos de
tanta manipulação dos fatos, tanto desprezo pela
capacidade dos gaúchos de fazerem contas e reconhecer
quem governa melhor. Se você também não suporta mais
ouvir a oposição e a mídia exagerando as promessas de
Britto e diminuindo, em igual medida, os vários acertos
do governo da Frente Popular, é hora de dar o troco.
Números podem ser uma coisa chata, mas são as armas
naturais que nos restam contra a praga do esquecimento
seletivo. Em outubro, na frente da urna, diga que
inviolável é a sua consciência, a sua certeza de que a
história da redemocratização no Brasil é jovem demais
para receber de volta os farsantes.