"Ando tão à flor da pele,
que qualquer beijo de novela me faz chorar"
(Zeca Baleiro)
Chegamos na hora no encontro marcado com a História
FLAVIO KOUTZII
Pode parecer óbvio, mas é importante perceber que a
vitória extraordinária que nos leva a governar o país
com Lula presidente é fruto de circunstâncias
históricas que apontamos várias vezes: de um lado, o
longo período de hegemonia neoliberal à beira do
esgotamento e, de outro, a alternativa representada
reiteradamente por Lula e pelo PT ganhando mais atualidade e
vigor do que nunca. Portanto, estávamos diante da enorme
possibilidade de resposta popular por meio elegendo o nosso
projeto de governo.
Nós ajudamos as circunstâncias históricas, aliás,
geralmente é assim que se vence.
Nós nos mobilizamos para eleger Lula criando um novo
cenário de alianças e ampliando a eficiência da
comunicação com a população. Também mudamos alguns
eixos políticos, como a questão do pagamento da dívida
externa. É importante ressaltar essas três novidades
decisivas para a vitória porque por vezes nossos
movimentos táticos vão contra as circunstâncias
históricas favoráveis, e é assim que se perde uma ou
várias eleições. Lula perdeu três disputas
presidenciais sem que o seu carisma, sua essencialidade
política, tenham sido sequer arranhados, como prova a
alegria de sonho realizado com que centenas de eleitores
vêm se aproximando do presidente eleito nos últimos
dias.
Entre os aspectos que procuro destacar nesse primeiro
momento, e falo do quadro nacional, está a fortíssima
modificação nos nossos padrões de intervenção. A
maioria partidária, o presidente José Dirceu, Lula e
companheiros nossos operaram um giro muito importante na
forma de abordar o desafio eleitoral. Em recente entrevista
à TVE, o cientista político e ex-reitor Hélgio
Trindade referiu-se à aliança com o PL, que
simbolicamente subordinava o capital ao trabalho,
representado pelo vice José Alencar, como o momento de
maior criatividade da recente eleição. O PT defendeu um
novo cenário de alianças e colocou em segundo plano
alguns eixos que dominaram a proposta programática em
outros períodos. O partido não abdicou de seu programa
de governo previamente, mas concentrou esforços para
primeiro ganhar uma eleição difícil. E para dar uma
dimensão de massa, fundamental numa disputa majoritária
no Brasil, ao acerto inicial de ampliar o leque político,
o PT escolheu para fazer a campanha na TV profissionais que
entendiam da linguagem específica da disputa e saberiam
trabalhar melhor do que em campanhas anteriores os seus
signos mais eficientes.
A emoção característica de conteúdos como a força
dos comícios e a liderança popular de Lula foram
reembalados sem retirar a cor vermelha da estrela petista. O
publicitário Duda Mendonça sabia ter nas mãos um
diamante a ser lapidado, um político amadurecido em duras
negociações, cuja coerência e capacidade de
administrar seriam colocadas à prova por publicitários
igualmente talentosos do outro lado. Hoje, passado o segundo
turno, fica ainda mais fácil criticar o clima excessivo de
"paz e amor" da campanha na TV e podemos duvidar seriamente
de sua eficácia lírica e bonita num quadro adverso, com
Lula precisando recuperar a dianteira perdida. Mas é
importante lembrar que o PT pode nunca ter perdido o
primeiro lugar nas pesquisas suportado, sim, pela eficácia
de sua comunicação junto a milhões de eleitores, do
jingle brilhante à associação das cores verde,
amarelho e azul nos materiais gráficos.
Na verdade, se quiséssemos deixar as coisas mais claras,
até porque concordamos que essas mudanças foram
apropriadas, afirmaríamos que o conjunto de "aberturas" a
novos formatos da política permitiu ao PT, finalmente,
chegar na hora no encontro marcado com a História. Em
nossos boletins e discursos utilizamos muitas vezes a
definição de que esta era a eleição de nossas vidas,
uma encruzilhada no destino do país e do seu povo. Pois
nós fomos capazes de chegar à encruzilhada primeiro.
Tivemos uma primeira grande vitória em eleger Lula e,
junto com ela, a grande vitória que significa construir a
possibilidade de dar um novo caminho para o nosso país. Se
conseguiremos ou não, essa é outra etapa de discussão.
Mas já conseguimos ver a nossa visão de mundo consagrada
nas urnas. Podemos fazer uma comparação com Brizola e
com a trajetória do trabalhismo: Brizola e o PDT nunca
chegaram na hora no seu encontro com a História, passo
importante que nós acabamos de dar. É disso que estamos
falando. A campanha do PT para chegar à vitória foi
ótima, comovente e eficiente. O que não é ruim, para
começo de conversa.
Ao mesmo tempo em que convivemos com essa enorme dimensão
de vitória nacional, temos em âmbito estadual uma
derrota a analisar. O partido perdeu no Rio Grande do Sul e
em outros Estados importantes. É claro que aqui a derrota
é mais significativa, pelo peso do Estado, pelo peso do
governo qualificado e transformador que tínhamos, pelo
peso do PT no Estado. Em nível nacional já se esboça o
fato, absolutamente previsível, de que a tática que
facilitou a vitória de Lula foi impregnada de escolhas de
dimensão estratégica. E a pergunta que assalta o
espírito de todos é : nós dominaremos a nossa
vitória ou a nossa vitória nos dominará? No Rio Grande
do Sul, a derrota recente sinalizou para uma preocupante
incompreensão da força e importância de nossa
conquista com Olívio Dutra em 1998. Essa quase
ignorância acerca das diferenças de um governo
nitidamente de esquerda no comando de uma das economias mais
importantes do país alastrou-se rapidamente por setores da
mídia. Nossos sistemas de comunicação com a
população, ao longo de quatro anos, fracassaram em
esclarecer o que e para quem estávamos fazendo mudanças
e foram incapazes de inibir o antipetismo já manifesto com
antecedência nas eleições municipais de 2000.
E agora, com Lula, teremos o domínio das circunstâncias
ou as circunstâncias rapidamente dominarão a cena e
estreitarão o caminho das nossas escolhas políticas?
Estamos preparados para a batalha, nas rádios, TVs e
jornais, diante de empresas gigantes da comunicação?
Isso é que interroga o coração petista e a alma de
todos aqueles que querem um Brasil muito melhor do que este.
O que talvez seja imprescindível, portanto, nessa etapa,
é que o partido ajude o conjunto de seus apoiadores a
entender que encruzilhada é essa em que nós estamos.
Quais são os desafios do caminho que, vencido o primeiro
obstáculo, está diante de nós? Em palestra do
economista José Luís Fiori em Porto Alegre, um ano e
meio atrás, ele prevenia, para perturbação de vários
de nós, que as possibilidades de alterar as grandes
variáveis macroeconômicas eram muito difíceis a curto
e médio prazo. Exatamente porque a articulação do
Brasil no quadro internacional, a mesma articulação que
ao longo de oito anos foi triturando os direitos humanos e
trabalhistas elementares de saúde, moradia, emprego e
salário decente, essa engrenagem funciona bastante bem, de
forma a dificultar ao máximo futuras mudanças. Já nos
primeiros dias após a vitória de Lula, expressamos com
maturidade que não podemos alterar as variáveis
macroeconômicas de pronto. Ao mesmo tempo, fizemos a
necessária inflexão da urgência de políticas sociais
como o Fome Zero. Ler nos principais jornais do país o
problema da fome e da miséria sendo rapidamente discutido
em amplos espaços, a dois meses das tradicionais campanhas
de solidariedade do Natal, já lava nossa alma, já mostra
nitidamente a que vem um governo presidencial de esquerda.
Se as políticas sociais avançarem, nós teremos força
para mais adiante começar a mexer nas grandes variáveis
macroeconômicas. Isso é lento, e muito difícil. Falo
aqui como alguém que traz em sua memória a experiência
no governo do Rio Grande do Sul, onde os desejos, as
necessidades reais e apreensões com as insuficiências
salariais do funcionalismo público construíram
rapidamente um julgamento negativo da administração de
Olívio Dutra. Multiplicamos os empregos e os índices de
desenvolvimento econômico, criamos uma universidade
estadual, estabelecemos a rotina de discutir o orçamento
em assembléias públicas num Estado de 10 milhões de
habitantes, fortalecemos a agricultura e os sistemas locais
de produção, abrimos 90 mil novas vagas no Ensino
Médio, contratamos milhares de professores e
funcionários de escola, combatemos a exclusão social com
programas de renda mínima com o maior salário mínimo
regional, mesmo com as finanças combalidas, e mesmo assim
aparecemos aos olhos da população como um governo que
estava não cumprindo as suas promessas. Uma parte da
esquerda dizia que o governo não estava cumprindo o que
prometera em campanha e a direita também dizia isso, que o
governo nunca pensou em cumprir as promessas. Uma bela
combinação.
Com Lula, estaremos frente a circunstâncias complicadas
como esta, amplificadas na abrangência dos problemas de 27
Estados. Ao registrar isso, não estão passando um recibo
ou cheque em branco adiantado. Estamos sendo
contemporâneos de uma vitória estratégica crucial e de
modificações em curso que podem rapidamente se revelar
corretas ou incorretas. Mas é precipitado julgá-las
apenas com óculos de modelos pré-estabelecidos há
tempos. Essa é uma aposta que ainda está valendo a pena,
uma esperança que ainda faz sentido, uma meta ambiciosa
que pode ser cumprida. Que o nosso governo parta dessa
vitória expressiva para trazer, depois de alguns anos,
progressos importantes, complexos e ainda insuficientes, mas
grávidos de possibilidades futuras que nós tentaremos
construir e preservar.

