sexta-feira, novembro 08, 2002



Boletim informativo do deputado Flavio Koutzii

"Ando tão à flor da pele,
que qualquer beijo de novela me faz chorar"
(Zeca Baleiro)

Chegamos na hora no encontro marcado com a História

FLAVIO KOUTZII
Pode parecer óbvio, mas é importante perceber que a
vitória extraordinária que nos leva a governar o país
com Lula presidente é fruto de circunstâncias
históricas que apontamos várias vezes: de um lado, o
longo período de hegemonia neoliberal à beira do
esgotamento e, de outro, a alternativa representada
reiteradamente por Lula e pelo PT ganhando mais atualidade e
vigor do que nunca. Portanto, estávamos diante da enorme
possibilidade de resposta popular por meio elegendo o nosso
projeto de governo.

Nós ajudamos as circunstâncias históricas, aliás,
geralmente é assim que se vence.

Nós nos mobilizamos para eleger Lula criando um novo
cenário de alianças e ampliando a eficiência da
comunicação com a população. Também mudamos alguns
eixos políticos, como a questão do pagamento da dívida
externa. É importante ressaltar essas três novidades
decisivas para a vitória porque por vezes nossos
movimentos táticos vão contra as circunstâncias
históricas favoráveis, e é assim que se perde uma ou
várias eleições. Lula perdeu três disputas
presidenciais sem que o seu carisma, sua essencialidade
política, tenham sido sequer arranhados, como prova a
alegria de sonho realizado com que centenas de eleitores
vêm se aproximando do presidente eleito nos últimos
dias.

Entre os aspectos que procuro destacar nesse primeiro
momento, e falo do quadro nacional, está a fortíssima
modificação nos nossos padrões de intervenção. A
maioria partidária, o presidente José Dirceu, Lula e
companheiros nossos operaram um giro muito importante na
forma de abordar o desafio eleitoral. Em recente entrevista
à TVE, o cientista político e ex-reitor Hélgio
Trindade referiu-se à aliança com o PL, que
simbolicamente subordinava o capital ao trabalho,
representado pelo vice José Alencar, como o momento de
maior criatividade da recente eleição. O PT defendeu um
novo cenário de alianças e colocou em segundo plano
alguns eixos que dominaram a proposta programática em
outros períodos. O partido não abdicou de seu programa
de governo previamente, mas concentrou esforços para
primeiro ganhar uma eleição difícil. E para dar uma
dimensão de massa, fundamental numa disputa majoritária
no Brasil, ao acerto inicial de ampliar o leque político,
o PT escolheu para fazer a campanha na TV profissionais que
entendiam da linguagem específica da disputa e saberiam
trabalhar melhor do que em campanhas anteriores os seus
signos mais eficientes.

A emoção característica de conteúdos como a força
dos comícios e a liderança popular de Lula foram
reembalados sem retirar a cor vermelha da estrela petista. O
publicitário Duda Mendonça sabia ter nas mãos um
diamante a ser lapidado, um político amadurecido em duras
negociações, cuja coerência e capacidade de
administrar seriam colocadas à prova por publicitários
igualmente talentosos do outro lado. Hoje, passado o segundo
turno, fica ainda mais fácil criticar o clima excessivo de
"paz e amor" da campanha na TV e podemos duvidar seriamente
de sua eficácia lírica e bonita num quadro adverso, com
Lula precisando recuperar a dianteira perdida. Mas é
importante lembrar que o PT pode nunca ter perdido o
primeiro lugar nas pesquisas suportado, sim, pela eficácia
de sua comunicação junto a milhões de eleitores, do
jingle brilhante à associação das cores verde,
amarelho e azul nos materiais gráficos.

Na verdade, se quiséssemos deixar as coisas mais claras,
até porque concordamos que essas mudanças foram
apropriadas, afirmaríamos que o conjunto de "aberturas" a
novos formatos da política permitiu ao PT, finalmente,
chegar na hora no encontro marcado com a História. Em
nossos boletins e discursos utilizamos muitas vezes a
definição de que esta era a eleição de nossas vidas,
uma encruzilhada no destino do país e do seu povo. Pois
nós fomos capazes de chegar à encruzilhada primeiro.

Tivemos uma primeira grande vitória em eleger Lula e,
junto com ela, a grande vitória que significa construir a
possibilidade de dar um novo caminho para o nosso país. Se
conseguiremos ou não, essa é outra etapa de discussão.
Mas já conseguimos ver a nossa visão de mundo consagrada
nas urnas. Podemos fazer uma comparação com Brizola e
com a trajetória do trabalhismo: Brizola e o PDT nunca
chegaram na hora no seu encontro com a História, passo
importante que nós acabamos de dar. É disso que estamos
falando. A campanha do PT para chegar à vitória foi
ótima, comovente e eficiente. O que não é ruim, para
começo de conversa.

Ao mesmo tempo em que convivemos com essa enorme dimensão
de vitória nacional, temos em âmbito estadual uma
derrota a analisar. O partido perdeu no Rio Grande do Sul e
em outros Estados importantes. É claro que aqui a derrota
é mais significativa, pelo peso do Estado, pelo peso do
governo qualificado e transformador que tínhamos, pelo
peso do PT no Estado. Em nível nacional já se esboça o
fato, absolutamente previsível, de que a tática que
facilitou a vitória de Lula foi impregnada de escolhas de
dimensão estratégica. E a pergunta que assalta o
espírito de todos é : nós dominaremos a nossa
vitória ou a nossa vitória nos dominará? No Rio Grande
do Sul, a derrota recente sinalizou para uma preocupante
incompreensão da força e importância de nossa
conquista com Olívio Dutra em 1998. Essa quase
ignorância acerca das diferenças de um governo
nitidamente de esquerda no comando de uma das economias mais
importantes do país alastrou-se rapidamente por setores da
mídia. Nossos sistemas de comunicação com a
população, ao longo de quatro anos, fracassaram em
esclarecer o que e para quem estávamos fazendo mudanças
e foram incapazes de inibir o antipetismo já manifesto com
antecedência nas eleições municipais de 2000.

E agora, com Lula, teremos o domínio das circunstâncias
ou as circunstâncias rapidamente dominarão a cena e
estreitarão o caminho das nossas escolhas políticas?
Estamos preparados para a batalha, nas rádios, TVs e
jornais, diante de empresas gigantes da comunicação?
Isso é que interroga o coração petista e a alma de
todos aqueles que querem um Brasil muito melhor do que este.

O que talvez seja imprescindível, portanto, nessa etapa,
é que o partido ajude o conjunto de seus apoiadores a
entender que encruzilhada é essa em que nós estamos.
Quais são os desafios do caminho que, vencido o primeiro
obstáculo, está diante de nós? Em palestra do
economista José Luís Fiori em Porto Alegre, um ano e
meio atrás, ele prevenia, para perturbação de vários
de nós, que as possibilidades de alterar as grandes
variáveis macroeconômicas eram muito difíceis a curto
e médio prazo. Exatamente porque a articulação do
Brasil no quadro internacional, a mesma articulação que
ao longo de oito anos foi triturando os direitos humanos e
trabalhistas elementares de saúde, moradia, emprego e
salário decente, essa engrenagem funciona bastante bem, de
forma a dificultar ao máximo futuras mudanças. Já nos
primeiros dias após a vitória de Lula, expressamos com
maturidade que não podemos alterar as variáveis
macroeconômicas de pronto. Ao mesmo tempo, fizemos a
necessária inflexão da urgência de políticas sociais
como o Fome Zero. Ler nos principais jornais do país o
problema da fome e da miséria sendo rapidamente discutido
em amplos espaços, a dois meses das tradicionais campanhas
de solidariedade do Natal, já lava nossa alma, já mostra
nitidamente a que vem um governo presidencial de esquerda.

Se as políticas sociais avançarem, nós teremos força
para mais adiante começar a mexer nas grandes variáveis
macroeconômicas. Isso é lento, e muito difícil. Falo
aqui como alguém que traz em sua memória a experiência
no governo do Rio Grande do Sul, onde os desejos, as
necessidades reais e apreensões com as insuficiências
salariais do funcionalismo público construíram
rapidamente um julgamento negativo da administração de
Olívio Dutra. Multiplicamos os empregos e os índices de
desenvolvimento econômico, criamos uma universidade
estadual, estabelecemos a rotina de discutir o orçamento
em assembléias públicas num Estado de 10 milhões de
habitantes, fortalecemos a agricultura e os sistemas locais
de produção, abrimos 90 mil novas vagas no Ensino
Médio, contratamos milhares de professores e
funcionários de escola, combatemos a exclusão social com
programas de renda mínima com o maior salário mínimo
regional, mesmo com as finanças combalidas, e mesmo assim
aparecemos aos olhos da população como um governo que
estava não cumprindo as suas promessas. Uma parte da
esquerda dizia que o governo não estava cumprindo o que
prometera em campanha e a direita também dizia isso, que o
governo nunca pensou em cumprir as promessas. Uma bela
combinação.

Com Lula, estaremos frente a circunstâncias complicadas
como esta, amplificadas na abrangência dos problemas de 27
Estados. Ao registrar isso, não estão passando um recibo
ou cheque em branco adiantado. Estamos sendo
contemporâneos de uma vitória estratégica crucial e de
modificações em curso que podem rapidamente se revelar
corretas ou incorretas. Mas é precipitado julgá-las
apenas com óculos de modelos pré-estabelecidos há
tempos. Essa é uma aposta que ainda está valendo a pena,
uma esperança que ainda faz sentido, uma meta ambiciosa
que pode ser cumprida. Que o nosso governo parta dessa
vitória expressiva para trazer, depois de alguns anos,
progressos importantes, complexos e ainda insuficientes, mas
grávidos de possibilidades futuras que nós tentaremos
construir e preservar.


RBS demite 36 jornalistas


O bicho começou a pegar...
Bia Moraes, de Curitiba


O mercado de jornalismo do Sul do país vive fase de turbulências. O Grupo RBS, que detém 85% do mercado no Rio Grande do Sul (o maior índice de domínio do setor no Brasil, segundo o sindicato local) e boa parte de Santa Catarina, passa por uma leva de demissões e já anunciou novos cortes para o final deste mês. Nesta quinta, a RBS - que pertence à família Sirotsky, do RS -anunciou a contratação do ministro Pedro Parente, atualmente na Casa Civil, para o cargo de vice-presidente da empresa (veja matéria neste Comunique-se).

Em Santa Catarina, foram demitidos 21 jornalistas: 19 de sucursais do interior da emissora de TV (retransmissora da Rede Globo), e outros dois, de cargos de chefia dos jornais. No Rio Grande do Sul, 15 repórteres, também de emissoras de cidades do interior, foram demitidos, além de cinegrafistas, auxiliares e motoristas. A RBS informou ao Sindicato dos Jornalistas do RS que até o final do mês fará novos cortes, mas afirmou que serão restritos à área executiva, atingindo cargos de chefia com salários entre R$ 10 mil e R$ 20 mil.

Com o forte controle de mercado exercido pelo grupo nos dois Estados, a intranqüilidade é grande, tanto entre os demitidos - que encontram dificuldades para encontrar emprego - quanto entre os jornalistas que ficaram. "Mesmo com o anúncio de que os novos cortes serão apenas na área executiva da empresa, todos que trabalham na RBS estão apreensivos", disse o presidente do sindicato da categoria no RS, José Carlos Torves.

Para o sindicato gaúcho, a RBS informou que as demissões e a retirada de alguns programas do ar integram uma "reestruturação na programação" e "política de contenção de custos".

Um jornalista demitido da RBS em Santa Catarina contou a Comunique-se que a justificativa apresentada aos funcionários para as demissões foi um comunicado dizendo haver necessidade de "contenção de gastos imediata", pelo fato de "a área comercial não ter atingido as metas". Houve preferência pelos jornalistas com menos tempo de casa.

No entanto, o Sindicato dos Jornalistas de SC está ainda aguardando uma posição oficial por parte da empresa. O comunicado deveria ter sido enviado ontem para o sindicato.

Com os cortes, o público do interior de SC e RS perdeu parte da informação regional. Saíram do ar as "janelas" locais dos noticiários matinais Bom Dia Rio Grande e Bom Dia Santa Catarina. As tevês passaram a retransmitir o noticiário gerado pelas "cabeças" de rede, as emissoras da RBS em Porto Alegre e Florianópolis. Ainda no RS, saíram do ar dois programas locais - um de esportes, que ia ao ar nos domingos à noite, e outro de comportamento, aos sábados.

As equipes das emissoras de tevê do interior foram drasticamente reduzidas - no caso de Santa Catarina, as sucursais estão com apenas uma equipe se desdobrando durante todo o dia para dar conta das pautas.

Os cortes afetaram também o perfil das tevês da RBS, que sempre se caracterizaram pela intensa cobertura regional. Por não ter participação societária da Globo, o Grupo RBS manteve, historicamente, independência em relação à grade da rede, com liberdade e estrutura para produzir e inserir programas locais, uma das marcas da empresa.

Especula-se que uma dívida contraída há seis anos pela empresa esteja no cerne da atual situação do grupo. Na fase de privatizações, a RBS fez dívida em dólar para comprar participação na empresa de telefonia Telefonica, no RS. Depois, a participação foi vendida.

Outro revés recente foi a multa de R$ 286 milhões imposta pela Receita Federal como penalidade por sonegação de impostos e envio de dinheiro ao exterior sem declaração.

Somente no Rio Grande do Sul, a RBS agrega 16 emissoras no interior, além da cabeça de rede na capital, quatro jornais, cinco emissoras de rádio em Porto Alegre - entre elas, a CBN - e mais 26 rádios no interior.
Da série: é engraçado mas é triste...



quinta-feira, novembro 07, 2002

MIDI@LERTA

Os Jornais

07-11-2002




RBS: Parente é aceito na família


Com a voz embargada de emoção, Lazier Martins anunciou na rádio Gaúcha, hoje (7) à tarde, que Pedro Parente, ministro da Casa Civil e coordenador da equipe de transição do governo FHC, ocupará o lugar de vice-presidente executivo do grupo RBS, a partir de janeiro que já vem aí.


O grupo – por um motivo ou por outro – vem promovendo "ajustes" (demissões) em seu quadro de funcionários nos últimos dias, tanto no RS quanto em SC. E agora contrata o Parente – homem intimamente ligado aos mais altos círculos do poder econômico do Brasil.


Versão não oficial dá conta que a vinda de Parente para a direção do grupo gaúcho significa a venda de substancial parte da RBS.


Veja o cacife do novo vice-presidente executivo da empresa: foi Secretário de Orçamento e Finanças-SOF (1989/90); Secretário-adjunto, Secretário de Programação Financeira e Secretário de Informática na Secretaria do Tesouro Nacional-STN (1987/8); Secretário-Geral Adjunto do Ministério da Fazenda (1985/6). Além disso, ocupou posições diversas no Departamento de Administração Financeira do Banco Central do Brasil (1973/84). Também participa ou participou de Conselhos de Administração de grandes empresas públicas, de economia mista ou binacional, entre as quais o Banco do Brasil S.A., a Caixa Econômica Federal, Itaipu Binacional e Petrobrás.


Forçado ou não pelas circunstâncias, o "polvo" RBS dá uma grande cartada para lançar ainda mais longe e com mais força seus tentáculos (que já invadem todos os setores da vida – política, esporte, cultura, lazer, economia, etc. - dos habitantes do Estado, de quem a um só tempo ganham dinheiro e procuram fazer as cabeças).


No caso deste Parente, vê-se que está realmente tudo em casa: ele consultou a Comissão de Ética Pública que, em reunião realizada no dia 18 de outubro passado, liberou-o da quarentena imposta aos servidores públicos do primeiro escalão "por tratar-se de empresa cujas áreas de atuação não têm qualquer relação com suas atuais funções". Então tá!




O Sul liga polícia italiana a prefeito de Porto Alegre

Será possível olhar criticamente uma publicação que transita entre o estapafúrdio e o inqualificável? Esta questão se coloca sempre que o desafio é ler O Sul, servindo-se de parâmetros jornalísticos. Hoje (7) vemos uma página (31) com o seguinte título: "Polícia italiana prepara-se para distúrbios durante o Fórum Social Europeu. O prefeito de Porto Alegre está lá." Aonde O Sul quer chegar? Estará sugerindo que a presença do prefeito da capital gaúcha em Florença, onde acontece o Fórum Social Europeu, causa distúrbios e mobiliza a polícia italiana? Estará sonhando em transformar o prefeito em correspondente de guerra? Estará querendo associá-lo a um caso de polícia? Quererá, por ventura, sugerir uma relação de causa e efeito entre o Fórum Social Europeu a violência na Itália? A um caso de polícia? Estará procurando associar o Fórum Social Mundial, que acontece em Porto Alegre, a reais ou hipotéticas perturbações da ordem em Florença? Há má fé nessas associações de idé ias, ou tudo não passa de um surto de parolagem irresponsável? De qualquer forma, malabarismos associativos desse naipe, mesmo quando não são levados a sério, só atrapalham.


Leitor sofre...

O Sul sem norte de hoje (7) brinda seus leitores – ou mais precisamente, observadores de fotos – com uma grande fotografia aberta no centro da pág. 12. Na imagem, o presidente eleito Lula recebe o beijo de um cidadão. A legenda da foto é a seguinte: "Presidente sofre...".


Pergunta-se: em que circunstância Lula recebeu o beijo? Era apenas um eleitor, era um correligionário, um funcionário público, um parente? Tinha algum motivo especial para o gesto? Quando aconteceu? Foi na rampa do Palácio da Alvorada? Não há nenhuma informação.

Dose para crocodilo australiano

O mesmo O Sul, na parte inferior da pág. 32, coloca no título "Crocodilo mata turista alemã". A matéria informa que o trágico fato ocorreu num parque nacional da Austrália e o corpo da alemã só foi resgatado horas depois. Tudo direitinho – a não ser por um, digamos, detalhe: o ataque aconteceu há cerca de 15 dias! E foi sobejamente informado, na ocasião, por todos os demais órgãos de imprensa diária.


Seria talvez uma nova sessão de O Sul? "Vale a pena ver de novo". Ou "Aconteceu há 15 dias". A foto dá um close no expressão malvada do crocodilo, sugerindo que O Sul ainda está digerindo a notícia.



Quanto vale o apoio do PDT

O colunista Armando Burd, do Correio do Povo, em sua coluna na página 2, dá o aviso repassado por seus correligionários: o PDT - "se vier a ser convidado para integrar o governo estadual" - vai decidir de acordo com "o peso das secretarias oferecidas pelo governo". Ele já alerta: "Se for o mesmo (peso) dado pelo PT em 1998, recusará. Quer valores bem acima". Está dado o recado e o preço.

Hierarquia da notícia revela desequilíbrio da mídia

Pode parecer discussão acadêmica, mas o fato é que, do alinhamento (acrítico) da mídia hegemonista com os valores neoliberais, nada escapa. Três acidentes são noticiados hoje (7), por exemplo, nas páginas 40 e 41 de Zero Hora -- dois na Europa e um no Egito. Eles envolvem três diferentes meios de transporte e mais de cinco dúzias de vidas humanas, como começamos a ver já nos títulos: "Avião cai em Luxemburgo (20 morrem) e só dois sobrevivem" ; "Trem em chamas mata 12 pessoas na França" ; "Acidente de ônibus mata 29 egípcios".


Pelo número de vidas humanas ceifadas, a maior tragédia aconteceu no Egito, depois em Luxemburgo e, em seguida, na França. No entanto, o espaço desses acontecimentos na mídia é inversamente proporcional ao número de mortos. Acidentes no Primeiro Mundo ganham página inteira. São três fotos e dois mapas, ocupando 175 centímetros de coluna do jornal. O acidente no Terceiro Mundo ganha algumas linhas, em sete centímetros de coluna. Num caso exemplar de desequilíbrio, a mídia neoliberal dá 35 vezes mais ênfase aos ricos do que aos pobres, até quando conta os seus cadáveres.
Como nem tudo se resume a politica...




FICHA CORRIDA



Zambiasi

Por pressão da RBS, Sérgio Zambiasi deve ser o candidato do consórcio que elegeu Rigotto para a prefeitura de Porto Alegre, nas próximas eleições. Se o homem foi capaz de alterar o horário de funcionamento da Assembléia Legislativa para adequar-se ao horário de seu programa na Rádio Farroupilha, com o apoio da RBS, de quantas outras coisas não será capaz. Por exemplo. Na primeira entrevista concedida depois das eleições, disse que ficará em Brasília apenas dois dias por semana. Isto é, o Rio Grande elegeu um senador meio-expediente, pior, um senador fantasma. E quem fará o controle de sua atuação, já que os veículos de comunicação estão monopolizados pela RBS? Zambiasi devolverá o a parte do salário dos dias que trocar Brasília pela Rádio Farroupilha?

E a prova de que Zambiase incorporou de vez os métodos da política coronelística foi sentida nestas eleições. As Vans que, em seu nome, levaram eleitores para votar com o incentivo de um santinho recheado com notas de R$10,00 é a impressão digital de que Padilha fez escola. Não por acaso, a afinação desta orquestra merece também o aval da RBS, pois em nenhum momento o coronelismo eletrônico condenou a compra de votos pelo PMDB. Não mereceu uma satanização partidária do PMDB os métodos daquele vereador de Encantado, tão pouco a direção partidária foi procurada par dar satisfações. O que teria acontecido se fosse um vereador do PT?

Confira o Blog da Marinilda de Carvalho, editora do Observatório da Imprensa!



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"Método Padilha de Qualidade"

Eliseu Padilha, apelidado de Rima Rica, por, dentre outras razões, ter sido o articulador do professor Cardoso no Congresso Nacional para a compra da reeleição, mas, principalmente, por ter interferido nas convenções do PMDB realizadas em Brasília para que o partido não lançasse candidato próprio e, assim, apoiasse FHC. Foi ele também que reuniu o curral de empresários gaúchos, na FIERGS, para conduzi-los como rebanho amestrado, sob pena de boicote do governo federal, a apoiarem a candidatura do bambi da RBS nas eleições de 1998.

Se isso já é tanto ainda não é tudo. Que fim deu aquela história dos Precatórios do DNER? A comissão de 30% cobrada para alterar a ordem dos pagamentos até agora só ceifou seu chefe de gabinete. Tampouco retornaram as remessas de dólares feitas para o exterior. A RBS nunca tratou o fato como de responsabilidade de Padilha Rima Rica, pois mesmo o principal assessor pode fazer coisas sem o conhecimento do padrinho... O direito tipifica com propriedade inconteste a "culpa in eligendo", que é a culpa pelas "faltas cometidas por seus serviçais, empregados ou prepostos", ensina De Plácido e Silva. Não bastasse isso, teria incorrido, no mínimo na "culpa in vigilando", já que os desvios foram perpetrados por pessoas que estavam sob sua vigilância ou atenção. O que é estarrecedor nesta história é a cortina de silêncio que se formou para protegê-lo.

Os jornais gaúchos simplesmente também pecaram por omissão.

A RBS merece uma MARCAÇÃO CERRADA, e o jornalista Willians Barros já se encarregou da tarefa.


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Paridade

Eu nunca havia entendido direito a tal de "estabilidade econômica", sem inflação, que os marqueteiros do professor Cardoso tanto falam. Ontem, ao abastecer o carro consegui compreender. Encontre a maltrapilha estabilidade perambulando pelos postos de gasolina, assustada com o preço da gasolina. Foi aí também que entendi a propalada paridade: um litro de gasolina já custa um par de reais. Como se vê, já não se fazem mais estabilidade econômica como antigamente.


Leia o famoso editorial da RBS, e, para ajudar na análise da patifaria perpetrada pelo coronelismo eletrônico, leia AQUI o artigo do Professor Pedrinho Guareschi, especialista na área.



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CEPA & UFRGS

O Centro de Estudos e Pesquisas em Administração, foi criado em julho de 1959, mas foi a partir da gestão de Carlos Alberto Martins Callegaro, Chefe de Gabinete da Deputada Yeda Crusius que se enveredou nas pesquisas eleitorais. exatamente quando Yeda trabalhava na RBS e se enveredou pela política. Aliás, é sintomático e de triste coincidência que a Escola de Administração associe seu nome ao da RBS para atender interesses da empresa que contratava a professora Cruz Credo como palpiteira de economia. Este consórcio, no que diz respeito às pesquisas eleitorais errou todas, provando que de científico só mesmo a química que liga professores daquele departamento à RBS. A dosagem é que está pedindo um pouco mais de cautela, pois até agora a CEPA só errou em benefícios de políticos ligados àquela Escola e à RBS.

Só não é admi! ssível que a magnífica reitora se preste a este papel... higiênico da RBS...


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Bonita Manchete...

... pena que atrasada quatro anos a manchete do Correio do Povo (Rigotto negocia recursos para o Estado). Precisamos esperar Germano Rigotto se eleger para ver seu nome ligado à renegociação da dívida estadual para com a União. Não é sintomático que esta seja a primeira vez que associa seu nome a algo de bom para o RS? Toda a luta travada pelo atual governo, inclusive judicialmente, só recebeu crítica do PMDB da gamela. Aliás, seu correligionário, dublê de cartola, Tarcísio Perondi, abusou da prerrogativa de estar no comando da base parlamentar gaúcha para cortar verbas federais destinadas ao Rio Grande. Exatamente o contrário do que agora Rigotto apregoa. A verdade é que, quando se trata da prática peemedebista, estamos a falar de caráter. Ou de sua falta!

Falando para milhões


Esquerda lançará jornal semanal de circulação nacional em 2003
Com previsão de lançamento para o final de janeiro de 2003, durante a terceira edição do "Fórum Social Mundial", o jornal "Brasil de Fato" baseará seu perfil editorial no "Projeto Popular para o Brasil", documento produzido pelos movimentos sociais e populares do país, entre eles o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

De acordo com o site "Comunique-se", a decisão partiu de um grupo de entidades e intelectuais que pretende trazer sua visão sobre a realidade do país em um veículo próprio. A publicação semanal terá 24 páginas e distribuição inicial de 100 mil exemplares por todo o país. As quatro editorias - Nacional, Internacional, Cultura e Esporte -, vão se reportar ao editor-chefe, José Arbex Jr., e a um Comitê Editorial integrado por 12 representantes dos movimentos que sustentarão o projeto.

O comitê, por sua vez, estará subordinado às decisões de aproximadamente 80 representantes dos mais diferentes segmentos do Conselho Político, que terá comitês apoiadores em todo o país que trabalhando na captação de recursos, na distribuição e no estímulo à participação de colaboradores. O novo jornal já fazendo assinaturas. Informações podem ser obtidas através do e-mail: brasildefato@cidadania.org.br

(Fonte: Kátia Marko e AcessoCom)

FESTA D'O APANHADOR #9!

com as bandas:

GIRLISH (PoA) ÿGiana (guitarra/vocal) + Evelise (baixo) + Marcelo (bateria) + influências de Bikini Kill, Hole e Sleater-Kinney
TACK UPS (Portão) ÿPinto (guitarra/vocal) + Jicky (baixo) + Glauco (bateria) + influências de Nirvana, Sex Pistols e Mutantes

e com as discotecagens dos colunistas
d'O APANHADOR ÿDiego Fernandes + Douglas Dickel + Charles Pilger + Leonardo Fleck + Marcos Ludwig

+ distribuição do fanzine #9!

dia 9 de Novembro : Sábado : 23 horas [ chegue cedo! ]
no BR-3 Studio Bar [ Rua Lindolfo Collor, 393 - São Leopoldo ]
ingressos a 5 Reais [ "don't bargain, pay the price" ]


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O projeto O Apanhador [ www.oapanhador.net ] existe para fomentar a cultura independente aos interessados e entusiastas em potencial. Sejam eles quantos forem, muitos ou poucos, mas que sejam todos os que podem ser. Em todo o Estado, mas principalmente no Vale dos Sinos, nossa sede. Um lugar que tem que aproveitar esse embalo a fim de solidificar o espaço raro para o tipo de rock que sai da alma (e não do bolso, nem da máquina de xerox). Todo mês uma festa para promover o rock independente na região do Vale dos Sinos/RS.


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*mais informações:

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CARTA ABERTA
a Nelson Pacheco Sirotsky, em razão de seu “A RBS, as eleições e as pesquisas”,
de 03 de novembro (em verdade, 02)
por Miguel da Costa Franco, 06/11/2002 - 01:22


Caro Nelson:

No primeiro e ensolarado sábado de novembro, li o teu humilde pedido de desculpas, que perpassa o editorial do jornal de domingo, 3 de novembro, ainda que tais coisas pareçam duplamente estranhas: ler o jornal de domingo, 3, ainda no sábado, 2, e assistir um puxão de orelhas público a profissionais da imprensa gaúcha tão caninamente devotados a ti.

Primeiro é preciso dizer que a intimidade a que me permiti ao te chamar de “Caro Nelson” é apenas casual. Lembra aquela piada do japonês que queria batizar o filho com um nome genuinamente brasileiro e pede sugestão a um amigo, que lhe responde solícito, sugiro Pedro, o que leva o oriental a batizar o rebento recém-chegado com o maravilhoso nome de Sugiro. Nesse caso, quero dizer, “caro” tem o mesmo significado de “sugiro”, ou seja, apenas me soa bem como forma de tratamento.

Em verdade, embora tenha sido colega de aula do teu irmão na turma F da noite do pré-vestibular Mauá, onde ele não era de fato muito assíduo, sempre fomos estranhos um ao outro. Depois a vida só nos afastou, como sucede aos que provêm de mundos tão diferentes como os nossos. Mas bem sabes que participas da minha vida cotidiana, através dos teus veículos, até bem mais do que eu desejaria. Quanto a mim, já que deste esta abertura no teu artigo, vou me permitir a cumplicidade que sugeres.

De imediato, vou retornar à questão do jornal de domingo, lido aos sábados, porque penso que o teu jornal de domingo, forjado com notícias velhas e gastas, é falso como publicação diária já na concepção. Assim, me pareceria mais sincero o teu pedido de desculpas se ele fosse feito no jornal de sábado mesmo. Ou noutro dia qualquer da semana. O fato – tua intenção humilde de desculpar-se – e sua pronta publicação no dia imediatamente seguinte, quando a mancada cometida ainda era o assunto que estava fervendo... Pode parecer preciosismo, mas acho que isso seria uma primeira demonstração de virada no rumo da honestidade da informação, que é o que todos querem de uma empresa como a tua.

Quanto ao puxão de orelhas aos integrantes da tua equipe, primeiro acho que deverias separar uns de outros. Para não cometer injustiças. Ainda que discorde dela às vezes, respeito o caráter, a capacidade e a honestidade da Rosane. Já o Barrionuevo e o Lasier não me parecem merecer reprimendas. Eles estavam verdadeiramente eufóricos com os resultados da pesquisa de boca de urna que anunciavam. Afinal, era o corolário de uma campanha longa, cansativa e ininterrupta, a que se entregaram de corpo e alma, certamente com sacrifícios pessoais e profissionais, em razão – é certo – da dedicação que a ti demonstram ou aos salários que de ti recebem. (A menos, que venham recebendo também de outros senhores, o que não é assim tão incomum em empresas como as tuas). Tua carreira bem-sucedida deve ter passado por vários momentos como o que vivemos. Até mesmo para calejados profissionais da imprensa, é difícil conter as emoções diante de uma vitória sobre a qual se haviam construído grandes expectativas.
Mas te cuida, isso pode te trazer prejuízos, porque isso transcende à questão das pesquisas. Ou desconheces que muita gente acha muito ruim a qualidade da informação que teus veículos trazem? Que muitos, como eu, tenderão a comprar dos teus concorrentes em razão da parcialidade sub-reptícia e suja, porque não assumida, que a tua turma vem demonstrando, editoria por editoria, a cada santo dia. Pior: já pensaste se os 47% que perderam a eleição deixarem de comprar teus produtos, como já se anda sugerindo por aí?

Ao longo do tempo, a RBS nos acostumou, na área dos esportes, com o escancarado viés de torcedor de alguns de teus articulistas. Sei que estimulas esse comportamento. Entra ano e sai ano, novos comentaristas sabidamente colorados ou escancaradamente gremistas assumem postos-chave na linha de frente da empresa, e isso tem dado bom resultado por anos. Isso tem dado certo! Dá uma dinâmica legal a muitos programas com anos acumulados de sucesso. Acho que devias fazer o mesmo nas outras áreas – política, economia, educação, cultura,... - já que nesse ramo em que trabalhas sabemos que não existe a tão afamada imparcialidade. Põe camiseta neles! Em cada editoria, uns para bater, outros para exaltar: vai dar mais credibilidade à papelada, às imagens, às fotografias, às falas. E teremos um bom debate permanente, educativo, esclarecedor, ao alcance da população por uns poucos tostões. Sem aquela maldade de dar a balinha só para um dos netos, depois que os outros já saíram, ou escolher sempre o filho mais velho para herói, sem ligar para a auto-estima dos mais novos. Puxa, isso poderia realmente ser instigante! Já pensaste nisso, em como poderia ser bom para todos os gaúchos e catarinenses sobre os quais tens influência direta?

Mas não seja injusto com o pessoal. Eles trabalharam arduamente esse tempo todo e tu bem sabes que tudo estava combinado para ser assim. Está certo, exageraram, deram bandeira. Mas quem não mostraria a cara com o clima que essa eleição tomou? Não viste como foi lindo, as ruas coloridas de vermelho e branco, as bandeiras judiadas e encardidas de tanto uso dos militantes da Frente Popular e as de plástico novinho do Rigotto, a bola da vez, colorindo as ruas, o pessoal abrindo o voto de forma cidadã.

Lembrando disso, queria te dizer mais uma coisa que eu acho muito importante. Pára de instigar a briga, o sangue, pára de provocar uns e outros! Essa gente é faca na bota, tu bem sabes! Não viste o perigo que é a provocação? Parece ridículo, mas a verdade é que tive muitas vezes de dizer para os meus adversários basta de ódio, porque tanta raiva?. Queriam brigar o tempo todo conosco e a gente ali só se divertindo, brincando de fazer coreografias na sinaleira, fazendo piadas com os casais divididos entre os dois candidatos: - larga essa mulher! – eu dizia para eles. Foi divertido. Fora aquela hora em que tentaram arrancar a minha bandeira de estimação, que comprei no comitê da primeira campanha do Olívio, porque já naquela época eu achava que não havia jeito para todos nós se o país tivesse cada vez mais miseráveis pelas ruas.

Mas foi só no dia mesmo da eleição que eu me dei conta de que não havia acontecido nada assim tão grave nesses quatro anos de governo petista para um ódio tão explosivo. Me pareceu coisa criada, se é que me entendes. Que nem a história das pesquisas. Ainda que peças desculpas, que foi erro do IBOPE, coisa e tal, confesso que fiquei indignado com o destaque nenhum que deste aos números apresentados pela pesquisa do teu concorrente. Já que os números estavam tão diferentes, essa era a grande notícia a dar, vasculhar os critérios, aprofundar a celeuma, discutir o caráter das pesquisas publicamente, franquear teu poder para buscar a verdade, custe o que custar. Seria muito bom para todo o mundo. Ou será que esta é uma idéia muito romântica e ingênua de jornalismo?

De outro jeito, isso acaba influenciando o pessoal. Está cheio de gente que se deixa influenciar pelas pesquisas, eu sei que tu sabes disso. Conheces tudo de mídia. Quem sou eu para meter meu bedelho? Mas eu acho que aquela turma de quem eu falei mais em cima e o mau hábito das tuas múltiplas editorias em publicar meias-verdades ou exagerar na foto, manipulando imagens ou reordenar os fatos ao sabor de suas conveniências tem a ver com esse ódio criado, por assim dizer. Verifica, dá essa contribuição para a sociedade. Evita semear mais ódio por aí, que os tempos já andam duros para todo o mundo, gente matando por centavos, por uma piadinha qualquer. Não viste como a vida anda valendo pouco ultimamente, não viste “Cidade de Deus”? Vai lá ver, é um filmaço. Pode te trazer algumas luzes. Já é tão difícil seguir o caminho do bem, como demonstra o filme... Se a gente ainda ficar instigando a briga o tempo todo, distorcendo as coisas, fazendo fofoca ao invés de jornalismo, aí vira um inferno.

Olha, Nelson, sei que deves ter os teus motivos, que uma eleição como essa tem impacto até mesmo na sobrevida de empresas como as tuas. Mas meu pai sempre me ensinou que a dignidade a gente deve carregar até a morte. Melhor passar fome do que ter que matar um outro para comer. Enfim, o que eu penso é que má informação é incompatível com o teu cargo, por assim dizer.

Era isso, Nelson. Um abraço.

Quando fiz o cursinho pré-vestibular, em 1975, muitos de nós ainda não tinham coragem de se expor em defesa da liberdade de expressão. Agora, a gente precisa brigar pela qualidade da informação.


Miguel da Costa Franco
mig@portoweb.com.br

MIDI@LERTA

Os Jornais

05-11-2002





Bastos faz análise a partir de falsos pressupostos

O colunista Carlos Bastos, do JC de hoje (05), em seu espaço à pág. 17, sob o título "PT gaúcho começa hoje sua autocrítica", utilizou a notícia para realizar seu próprio balanço dos motivos que levaram o partido a perder as eleições estaduais.

Afora algumas observações iniciais e genéricas (tipo "o incrível trabalho da militância petista"), para as quais praticamente não há contestação, observa-se que o discreto Bastos na verdade assumiu todos os lugares comuns repetidos pela oposição (inclusive a da mídia) para analisar o caso. Por exemplo, ao falar de "setores negativos da administração Olívio Dutra", o colunista cita a segurança pública e aponta "as promoções por merecimento, sem contar o tempo de serviço, numa atitude típica de partidarização".

Ora, ele repete o que dizem setores raivosos do conservadorismo e dos interesses contrariados, sem se dar ao trabalho de checar a veracidade dos fatos. Se o fizesse, como jornalista que é, saberia que no atual governo do Estado houve muito mais casos de promoções por tempo de serviço (de oficiais da Brigada Militar) do que por merecimento ? inclusive em relação ao governo anterior. Confira:

Nos três primeiros anos do atual governo, 73% dos oficiais e praças da BM foram promovidos por antigüidade (na administração anterior, 62%) e apenas 27% por merecimento (contra 38%).

Caiu portanto o percentual de promoções que obedecem a critérios subjetivos (merecimento). Isso demonstra de forma objetiva e cabal que não houve "partidarização" dos órgãos de segurança como alegremente afirma Bastos.


Bastos continua neste papel (de caixa de ressonância de um discurso ensaiado mas falso) ao dizer que "o governo Olívio saiu muito desgastado foi com o funcionalismo público, pelo não cumprimento de promessas de campanha". Que "promessas de campanha" seriam essas? Ele deveria estar careca de saber ? pois isso foi divulgado inúmeras vezes - que foi o RS, entre todos os estados brasileiros, que concedeu os maiores reajustes ao funcionalismo público de todo o Brasil, no atual mandato (apesar de todos os problemas de caixa). Foi também um governo que nunca atrasou os salários do funcionalismo, entre outras vantagens concedidas, planos de carreira, promoções atrasadas há vários governos, etc. etc.

Tudo isso não se trata de opinião ? são números que podem ser checados junto aos órgãos estaduais e instituições federais.

Quererá ele, talvez, referir-se aos 190% que teriam sido prometidos pelo governo atual aos professores? Mas então, igualmente, deveria saber que não há qualquer discursos ou gravação em que se veja o atual governador prometendo isso. Ao contrário, esta era uma reivindicação do Cpers/Sindicato ? e não promessa do governo. A oposição, com o auxílio precioso de alguns "comunicadores", manipulou até transformar os tais 190%, no imaginário da população, como mais uma "promessa de campanha"...

Bastos ainda põe na conta do governo nada menos que a invasão da Fazenda Ana Paula, pelo MST... O MST não é o governo do Estado, e até os bois que ruminam no campo da Ana Paula sabem disso.

Em tese, Bastos está apenas analisando o que a população teria entendido desses episódios todos e pelos quais teria culpado o PT e o governo estadual. Mas a análise não pode contribuir, paradoxalmente, para confirmar como verdade fatos que estão distorcidos na origem ? pela própria mídia. E Bastos se presta despreocupadamente a este papel.

Para coroar seu texto, dá a entender que o governo não foi tão atacado assim pela oposição, especialmente na Assembléia Legislativa. Reconhece que "de fato, a oposição não deu refresco ao governo do PT". Mas aí revela um rancor escondido, pelo jeito, há muitos anos: "a situação não é muito diferente da postura dos deputados petistas com relação aos governos de Antônio Britto e de Alceu Collares", diz.

Collares, como se recorda, foi o governador em uma administração da qual Carlos Bastos foi o secretário de Comunicação.





Navistar se despede: silêncio da imprensa gaúcha

Não saiu praticamente nada na imprensa gaúcha ? ao menos, nada com destaque. Mas a edição da Carta Capital da atual semana mostra matéria informando que a americana Navistar, montadora norte-americana de caminhões instalada em Caxias do Sul, está fechando as portas ? entre outros motivos, pelas sucessivas perdas com a desvalorização do real. É bom lembrar que ela instalou-se na Serra gaúcha em 1998, sendo apontada então como uma grande conquista do governo neoliberal de Britto ? na época no mesmo partido (PMDB) que agora chega novamente ao governo do Estado, através de Rigotto.

Pois a empresa está descendo a serra rapidamente, desfazendo a parceria com uma empresa gaúcha de tratores, e evidentemente deixando milhares de desempregados diretos e indiretos e prejuízos para fornecedores etc.

Para continuarmos no setor automotivo, a mesma publicação lembra que a fábrica da Ford na Bahia ? nova mas já com sucessivos "ajustes" ? é a "última chance" da gigantesca multinacional na América Latina, depois de inúmeras tentativas frustradas, nos últimos anos, de atingir a lucratividade que ambiciona. Leia trecho da matéria de Carta Capital, abaixo:

"Em 1999, o economista João Alberto de Negri estimou o custo do regime automotivo para o consumidor, nos quatro anos de vigência, em R$ 35 bilhões e o custo de cada emprego gerado ou poupado em R$ 356 mil. O ganho do produtor seria de R$ 24,5 bilhões, o ganho de renda do governo - que só se realizaria no longo prazo - de R$ 3,7 bilhões. Perda líquida total: R$ 7,4 bilhões.

Isso se todas as fábricas tivessem de fato ficado no País. Com aquelas que saem, a perda é praticamente total. Sobram investimentos estatais em infra-estrutura ociosos, prédios cheios de sucata, consumidores a pé e governos e desempregados pendurados na broxa".

No Rio Grande ainda hipnotizado pela já claudicante manipulação neo-liberal (que agora ganha sobrevida, maquiada e botoquizada, com o novo governo estadual), não se encontram estas informações na imprensa.





Que maravilha de transição


Por falar em Carta Capital, a edição de 6 de novembro da revista, no artigo "O Príncipe dos Marquetólogos", pinta um retrato fiel de FHC e seu governo, e olha com certa perplexidade a atitude me-engana-que-eu-gosto da mídia internacional. "Que extraordinário marquetólogo de si mesmo o presidente Fernando Henrique. Aos olhos do mundo, dispensa Dudas e Nizans. Salvo raras exceções, a mídia internacional despede-se de um dos piores presidentes da história brasileira, se não o pior, como se fosse um dos melhores. (...) Em compensação, FHC soube promover a sua pessoa. É diante dele que o mundo se curva."


A revista lembra que FHC pegou o País em condições "bem melhores, do que aquelas em que o entrega" e "com insignificantes exceções todos os índices pioraram, alguns vertiginosamente". Mais. "Em oito anos, o Brasil quebrou duas vezes. O Plano Real foi traído em nome da reeleição. As dívidas, interna e externa, fermentaram desmesuradamente. A balança comercial desequilibrou. O grau de dependência precipitou. A desigualdade social alastrou-se. O tráfico criou um Estado paralelo, que desafia o Estado oficial, e até se ri dele".

E a mídia só tece loas: "Que transição! que coisa fantástica! histórica! sem paralelos na história mundial moderna! Alvíssaras! Merecedora de todos os encômios de que tem sido objeto nos jornais, telejornais, rádios e revistas. Notem bem, caras leitoras, caros leitores. Que transição! ( ...) O governo que acabou de fato se acabará com um único fato: a gloriosa transição (Que transição! Magnífica! Que democrata é esse Fernando Henrique!), enquanto o governo, que só deveria começar em 1º de janeiro, já terá começado. Em suas mãos, sem que ainda tenha poder algum para descascá-los, monumentais pepinos e abacaxis."


Não pensem que vai aqui algum exagero. Carta Capital acerta na mosca. Quem quiser uma mostra, basta abrir o jornal O Sul de hoje (5) na página 16. A enorme manchete é "Clima amistoso entre FHC e Lula torna o momento peculiar na democracia nacional". Depois, o nhenhenhém anunciado, desde a primeira frase: "O presidente Fernando Henrique Cardoso vai deixar o cargo e entrar para a História como a estrela de uma transição peculiar no país". "Dividirá a cena nos livros como quem tem vivido momentos de cordialidade explícita", "Tanta civilidade não se viu no passado político recente...". E vai por aí: "grande lição de elegância", "transição ... de civilidade exemplar", "amadurecimento das instituições brasileiras", enquanto se empurram para o governo Lula as (ir)responsabilidades de seu antecessor.






RBS sente o golpe das assinaturas canceladas


Midialerta referiu-se ontem (4) à boa parcela de assinantes de Zero Hora que, sentindo-se ludibriada pela manobra da empresa e dos institutos de pesquisa por ela contratados, no episódio das últimas eleições para o Governo do Estado, estão cancelando suas assinaturas e até deixando de comprar o jornal nas bancas.


O presidente da RBS, Nelson Sirotsky, enviou aos assinantes do jornal, encartada na edição de 1º de novembro de 2002, a seguinte mensagem: "Caro assinante, tomei conhecimento da sua solicitação de cancelamento da assinatura de Zero Hora e dos motivos que o levaram a adotar tal medida. Respeito profundamente o seu ponto de vista, mas gostaria que você soubesse qual é a nossa posição neste episódio das pesquisas eleitorais. Para isso, tomo a liberdade de encaminhar-lhe esta edição dominical de ZH com um artigo de minha autoria na página 19, no qual procuro examinar com total transparência a questão. Espero que, com a leitura do artigo, o episódio fique esclarecido e coloco-me à sua disposição."


O episódio não ficou esclarecido, mas o artigo de Sirotsky (http://www.clicrbs.com.br/clicnoticias/jsp/default.jsp?tab=00002&newsID=a152414.htm&subTab=00326&uf=1&local=1&l=&template=) deixa claro que a RBS está preocupada. Há relatos de assinantes que, ao pedirem cancelamento, foram instados a reconsiderar a decisão, mediante a oferta "um telefonema pessoal de qualquer colunista de ZH" que escolhessem. Independentemente do valor desta oferta, a indignação continua.


O site http://www.zerofora.hpg.ig.com.br traz uma "carta em defesa da ética na mídia", por exemplo, onde se lê: "O Grupo RBS tem desempenhado um papel antidemocrático na história recente da política brasileira, culminando, nestas eleições, com mais uma manipulação das pesquisas. Ficou evidente que visava obter um resultado eleitoral favorável aos seus interesses econômicos e políticos. A RBS assumiu a articulação de interesses conservadores e reacionários, agrupados em torno da implantação do projeto neoliberal que levou o Brasil ao estado pré-falimentar atual, objetivando, entre outras coisas, construir no imaginário popular um sentimento anti-petista."


"Nossa resposta a isso é clara e objetiva. Lançamos um movimento cívico e apartidário, conclamando aos que comungam desse mesmo sentimento para que não comprem Zero Hora e cancelem as assinaturas de produtos da RBS. Além disso, outra forma eficaz de mostrar nossa indignação é boicotar os patrocinadores da RBS. É de fundamental importância que esse movimento seja difundido."


Novos desdobramentos do escândalo


Um leitor atento de Mídia Alerta escreve: "Pessoal, sobre o artigo do Nelson Sirotsky acho que ainda há algumas observações imprescindíveis para que não transitem em julgado novas mistificações - como não poderia deixar de ser em se tratando de algo vindo da RBS."


"Em primeiro lugar, no tal artigo o problema dos erros nas pesquisas é tratado como um fato isolado, restrito ao levantamento da boca-de-urna feito pelo Ibope no dia 27 de outubro, na votação do segundo turno. Ora, as manipulações, desmentidas via de regra pelos resultados nas urnas, ocorreram durante todo o transcurso da eleição, notadamente no segundo turno, e também em eleições passadas, como foi o caso de 1998, quando a RBS pelo Ibope dizia que Britto venceria no primeiro turno e o resultado foi o que se viu."

"Na medida em que até cumprimenta o Correio do Povo pelo seu acerto, Sirotsky indiretamente admite que o instituto da Caldas Júnior também estava correto quando divergia do Ibope e CEPA/UFRGS nas pesquisas anteriores à boca-de-urna, dando uma diferença muito menor entre os dois candidatos. Ou seja, que o "erro" ou manipulação não se resumiu à boca-de-urna, quando os votos já estão dados, mas também ocorreu durante todo o transcurso da campanha, quando os eleitores ainda eram disputados."


"Nem mesmo quando pede (duvidosas) desculpas a RBS se furta de encobrir os fatos, omitindo informações e distorcendo a realidade."


"Em segundo lugar: o artigo livra a cara da CEPA/UFRGS, diminuindo assim o tamanho da manipulação, quando o trabalho deste instituto foi tão ou até mais vergonhoso que o do Ibope, chegando a dar mais de 20 pontos (!!) de Rigotto à frente de Tarso nos levantamentos do segundo turno. Na verdade, os dois institutos se revezaram em aplicar "pauladas" estatísticas, com repercussão garantida pelos conhecidos "comunicadores", que têm efeitos devastadores numa campanha eleitoral (...)


"Por fim, uma informação: o envolvimento da CEPA/UFRGS no episódio gerou uma crise no Conselho Universitário da Ufrgs, a instância máxima da universidade, constituída por representantes da reitoria, professores, funcionários, estudantes e comunidade. Numa reunião, ocorrida há poucos dias, o assunto foi analisado, com fortes cobranças aos responsáveis pelo instituto pelos danos causados à imagem da Ufrgs. Segundo o relato de um dos conselheiros, a própria reitora, Wrana Panizzi, chegou a questionar, na reunião, se valia a pena a Universidade ter um instituto de pesquisas que lhe causa tantos problemas. Os conselheiros requereram maiores informações sobre as pesquisas e a cópia do contrato com a RBS, para exame. A prestação de serviços para fora da universidade foi criticada desde o início, segundo a mesma fonte, por expor a Ufrgs a pressões de grupos econômicos interessados nos resultados das pesquisas. Os fatos estão comprovando que as críticas eram procedentes."



quarta-feira, novembro 06, 2002

Receita do atraso

A moda de comprar voto com cesta básica se espalhou do Nordeste para o DF e foi parar no RS.

Nós, do Rio, nada podemos falar. Aqui foi o voto de 1 real...


Vejam a "receita" enviada pela gaúcha Joice Costa:

O PMDB do RS ensina como ganhar eleição...

O PMDB do Rio Grande do Sul, apoiado por PPB, PSBD, PTB, PFL, PPS, ensina como se ganha uma eleição.

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1. alia-se a poderosos: RBS, FIERGS, FEDERASUL, FARSUL.

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2. contrata-se um instituto de pesquisa sem nenhuma ética – Ibope.

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3. esse instituto frauda pesquisas, induzindo eleitores de que seu candidato está 20 pontos na frente, quando institutos sérios mostram empate técnico.

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4. mostra-se um candidato bonzinho, bonitinho, novinho (com 55 anos), sem manchas no passado. E com mentiras sobre sua atuação
devastadora no Congresso Nacional como líder do FHC e votando contra os aposentados.

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5. pegam-se milhares de cestas básicas e as distribui fartamente pela periferia das cidades, aliciando e chantagenado os eleitores para votar nesse candidato tão bonzinho e bonitinho...

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Viram só, que jogada? Pensaram que era só no Nordeste que se aliciavam eleitores com compra de votos? O nosso Rio Grande do
Sul, que já foi o estado mais politizado do Brasil, sofre essa regressão de cidadania em pleno século 21, quando deveria caminhar
para a frente, para o progresso, a democracia.

Um post eufemisticamente emprestado da Marinilda
É o Croquetes fazendo escola...

Falando bem ou mal... Todo mundo passa pra ler... E sugar...

:O)

Da série: gauchadas.


O gaúcho de Bagé...



Ônibus itinerante leva espetáculo para cidades do Rio Grande do Sul


Achei a idéia nota dez...


A Universidade de Passo Fundo/RS adaptou um ônibus para se transformar em palco itinerante que percorerrá o estado do Rio Grande do Sul. Após a encenação do espetáculo "Viratrânsito", professores, estudantes e diretores de escola recebem gratuitamente um material educacional sobre trânsito (livro, revista, cd-rom e cartões postais). O projeto, apoiado pelo Detran, percorrerá 42 cidades gaúchas até o final do ano, atingindo 150 mil adolescentes.
Onde: SANTIAGO - 4/11 às 10h, em frente à Prefeitura - Rua Tito Becon. ALEGRETE - 5/11 às 10h, em Frente ao Centro Cultural - Largo do Centro Cultural - Praça Osvaldo Aranha. URUGUAIANA - 6/11 às 10h e 15h, Largo da Viação Férrea - praça D. Pedro. SANTA ROSA - 11/11 às 9h30, 15h30 e 20h, praça 10 de agosto. SANTO ÂNGELO - 12/11 às 9h30 e 15h, praça Central Pinheiro Machado. IJUÍ - 13/11 às 9h30 e 15h, praça da República. PANAMBI - 14/11 às 9h30 e 15h30, Ginásio de Esportes Parque Municipal. CRUZ ALTA - 19/11 às 10h e 15h, ao lado do Ginásio Municipal.
Mais informações pelo telefone: (54) 316 8522.
Rio Grande do Sul - RS.

Reinventando o Brasil e o mundo sem pedir licença


por Luíz Fernando Novoa Garzon


o vento entra sem pedir licença

Paulo Leminski

Quais serão os desdobramentos da vitória de Lula e das forças de esquerda nas eleições gerais realizadas no Brasil? Reconstituição ou alternância de poder? Readequação ou quebra de paradigmas? A indefinição é boa notícia em um mundo antes condenado ao pensamento único. Todas as dúvidas são bem-vindas diante do destino em aberto. O aprofundamento do impasse do capitalismo global se configura como o saldo mais alvissareiro destas eleições.
O regime de dominação mal consegue se manter de pé. O velho mundo, em sua longa agonia, agarra-se a ditaduras, à segregação e à guerra permanente. O principal pólo capitalista sofre o maior terremoto abalo econômico-financeiro de sua história, desde 1929. Na periferia, a insurgência é generalizada em meio aos escombros deixados por uma década de políticas privatistas. Mesmo nos países centrais, multidões de jovens se põem em marcha contra o ataque aos direitos e à democracia. O equilíbrio das estruturas de comando do capitalismo nunca foi tão precário.
Cada fagulha carrega em si a promessa do incêndio. Risco de Knock down sistêmico, ao menor golpe. O desenho do futuro requer apenas um esboço que sirva como ponto de referência. Esta é a oportunidade histórica que tem o Governo Lula à testa de um país-chave na ordem internacional.

Admirável maré humana
A "maré vermelha", impulsionada por essa esperança, teve o poder de um maremoto sobre os arranjos de poder. A velha política clientelista sofreu um duro revés com a eleição da maior bancada de esquerda que o Congresso Nacional já viu. Alguns dos mais resguardados currais eleitorais do país foram estourados. Vida de gado não mais. Povo desmarcado é que é povo feliz.
Depois de uma década de refluxo da participação popular, a virada começou. A intensa mobilização contra a ALCA, cristalizada nos 10 milhões de votos no plebiscito, já dava provas da disposição da população de se contrapor ao processo de decomposição programada do Brasil.
Com o novo governo, a arena estatal pode alargar-se e ganhar mais autonomia. Um poder desgarrado do solo se oferece a quem apostar mais alto. De baixo para cima abrem-se canais para o exercício de influência. Do chão levantam-se os interesses mais generosos; tanto mais influentes quanto mais universalizáveis. Levitando sobre todos os particularismos, transitam da dimensão única do capital para as dimensões múltiplas do social.
O prometido "pacto social" não deve ter outro parâmetro que não a vontade majoritária da população brasileira de mudança do modelo socioeconômico.
Os setores hegemônicos da burguesia provavelmente verão neste "pacto" um momento para rearticular suas forças, estabilizar suas posições e preparar uma nova ofensiva. Por outro lado, os setores populares estarão de olho no lance e saberão resguardar as conquistas obtidas. Premissa: o jogo democrático não é compatível com acordos nebulosos feitos à revelia do público. Conseqüência: Máfias administrativas e lobbies privados devem dar lugar a contratos coletivos, câmaras setoriais e gestões multipartites.
Não há meio-termo. O vácuo de poder ou se preenche com auto-governo ou com autoritarismo. Um novo modelo econômico e social só emergirá sob impulso da população organizada. Uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva deve ser convocada para dar prosseguimento e conseqüência ao desejo das urnas.

Deter os moinhos do norte

Enfraquecidos os nós das redes de dominação interna, afrouxam-se os laços de submissão ao FMI, ao capital privado transnacional e ao império norte-americano. A derrota das elites apátridas é antes de mais nada uma derrota particular dos centros de poder transnacional que as comandam. A legitimidade dos seus acordos e conexões externos está em xeque.
Os resultados dessas eleições sacolejam de modo especial a América Latina. A derrota do modelo neoliberal no maior país da região abre uma enorme senda alternativa para os países latino-americanos. Esta é a deixa para o Brasil entrar em cena e desempenhar o papel de liderança que lhe cabe no continente. Que outro país poderia estancar os redemoinhos do norte?
A proposição de uma área de livre comércio para as Américas esconde o projeto de uma nova territorialização para a periferia com o esvaziamento de suas instituições representativas e uma radical remodelação de seus sistemas jurídicos. Uma área sob controle e disciplina dos oligopólios privados imunizada contra qualquer política redistributiva. Por isso, pressupõe a cristalização das relações de comércio desigual, do controle monopólico das matérias-primas estratégicas e dos mercados residuais. Democracia nas relações econômicas, nem pensar. O novo totalitarismo privado-bélico é que estipula sua própria falta de limites.
A ALCA é um projeto de reestruturação do grande capital norte-americano e de reposicionamento geopolítico de seu Estado, por isso, não há no seu processo negociador nenhuma margem para reciprocidade. Contar com alguma isonomia por parte dos EUA seria o mesmo que confiar no sentimento de tolerância de Le Pen para com os imigrantes africanos ou esperar que Berlusconi vá combater a Cosa Nostra.
As autoridades governamentais norte-americanas, em todos os escalões, não se cansam de repetir que a ALCA é um instrumento de otimização do poder econômico e militar dos EUA. E o que está dito está escrito no TPA (trade promotion authority), a autorização expressa que o governo Bush recebeu do Congresso. As proteções, exceções e condicionantes ali colocadas definem quem dá as cartas e quem define as regras deste jogo. Nos quatro cantos procura-se contrabalançar o peso do gigante e de sua casta financeiro-monopólico-militar. Desalinhando-se do esquadro imperial, o Brasil faz um imenso favor ao mundo e particularmente à América Latina.
O Brasil é o único país preparado para articular as combalidas economias da região em torno de um bloco econômico solidário. Mesmo depois das tentativas de desmonte, o país preservou uma estrutura industrial diversificada e com escala suficiente para costurar os diversos enclaves primário-exportadores que se destacam no continente. Seu parque produtivo-tecnológico é capaz de gerar a conglomeração e a inovação necessárias para completar e densificar cadeias de valor entre nosotros.
As políticas industriais e tecnológicas a serem implantadas devem focar cenários de longo prazo, para os quais devem convergir os interesses dos atores envolvidos. Quando a organização econômica passa a ter perspectivas públicas, a cooperação e o planejamento participativo deixam de ser princípios para se tornarem vetores estratégicos do sucesso de cada um. Depois de décadas e de séculos perdidos reproduzindo uma esquizofrênica mentalidade colonial, os países latino-americanos estão em busca de um futuro que mereça este nome.
Alternativas abrem-se apenas àqueles que têm condições de lhes dar vida. O estrangulamento de um regime de regulação se faz sentir especialmente nos países que o nucleiam. Neste contexto, o caráter periférico e híbrido da economia brasileira pode se tornar uma vantagem relativa. Com uma estrutura ágil e versátil, munido com instrumentos econômicos e tecnológicos essenciais, possuindo abundantes recursos naturais, além de uma infinita imaginação, o Brasil é o país mais apto para inventar um novo mundo inventando-se a si mesmo.

Luís Fernando Novoa Garzon é sociólogo, membro da ATTAC- Brasil
E-mail: l.novoa@uol.com.br

terça-feira, novembro 05, 2002

Queremos um país onde não se matem crianças que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro. Onde os filhos da margem tenham direito à terra, ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança, às histórias que povoam nossa imaginação, às raízes da nossa alegria. Aprendemos que a construção do Brasil não será obra apenas de nossas mãos. Nosso futuro resultará da desencontrada multiplicação dos sonhos que desatamos.

(fragmentos de Os Filhos da Paixão,
de Pedro Tierra)

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LEITURAS DE UMA DERROTA

PT enfrenta desafio de entender por que perdeu governo do RS

Por Marco Aurélio Weissheimer

Ainda vivendo o trauma da derrota, PT gaúcho tem dois desafios centrais pela frente: o fortalecimento da gestão na Prefeitura de Porto Alegre e a construção de um balanço politicamente eficaz sobre a perda do governo do Estado.

Na abertura do livro “A paixão segundo G. H.”, Clarice Lispector apresenta uma regra metodológica que pode ser de grande valia para uma correta avaliação da derrota do PT nas eleições estaduais do Rio Grande do Sul. “A aproximação do que quer que seja se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar”. Passado o período do luto imposto por qualquer perda, a busca da aproximação das causas da derrota eleitoral de Tarso Genro no RS impõe desafios tão qualificados como aqueles enfrentados na própria campanha. Desafios esses que requerem, como sugere Lispector, a paciência exigida pela gradualidade e a humildade imposta pela dor da perda.

A sedução da crucificação de alguns indivíduos ou grupos partidários paira sobre cada avaliação preliminar feita até aqui, todas elas contaminadas por uma inevitável carga de emocionalismo e rancor, próprios de um processo de disputas internas rico em contradições e imposição de vontades políticas particulares. Essa sedução pode até encontrar guarida na história recente do partido no Rio Grande do Sul, mas apresenta uma armadilha que pode tornar ainda mais funda a ferida aberta com a derrota de 27 de outubro. Se isso é verdade, não basta assim identificar corretamente as causas dessa derrota, mas, principalmente, a partir dessa identificação, construir uma síntese capaz de unificar e fortalecer o máximo possível um conjunto de forças políticas que fez do Estado uma referência para a esquerda mundial.

Os elementos da análise

O balanço da derrota permanece uma tarefa a ser construída coletivamente. Os elementos particulares que devem instruir essa análise são bem conhecidos por todos os protagonistas do processo político e eleitoral que envolve o PT gaúcho: o desempenho do governo Olívio Dutra com seus erros e acertos; a decisão de Tarso Genro disputar as prévias com o atual governador e sua posterior e precoce saída da Prefeitura de Porto Alegre; a linha política da campanha eleitoral; a dificuldade enfrentada pela partido em ampliar sua base de sustentação política no Estado a partir da vitória nas eleições estaduais de 1998; problemas na comunicação do governo e do partido com a sociedade e a própria militância; o cerco patrocinado pelo principal grupo de mídia local – a RBS – que fustigou o primeiro governo do PT no RS desde seu primeiro dia de vida e alimentou um fenômeno em uma parcela considerável da opinião pública, identificado como “anti-petismo”; apenas para citar alguns dos mais citados até aqui.

A ênfase colocada em um ou mais desses elementos é desde sempre situada na história recente de disputas internas no partido. Assim, os setores partidários mais próximos a Tarso Genro tendem a identificar, entre as causas determinantes da derrota, os erros do governo Olívio e o sentimento anti-petista que teria sido alimentado em função deles. Os setores que defenderam a candidatura de Olívio Dutra nas prévias, por sua vez, tendem a responsabilizar Tarso pela derrota, apontando sua decisão de disputar com o atual governador como um fator de desestabilização interna e externa do partido diante da sociedade. Ambos os lados terão bons argumentos para defender suas respectivas ênfases. Talvez até seja possível – embora extremamente difícil para agentes políticos inteiramente imersos em uma historicidade marcada por acirradas disputas internas - reconstituir a cadeia causal que levou à derrota. A grande questão metodológica que se coloca previamente ao balanço é se é desejável, do ponto de vista estratégico, optar por essa via e responsabilizar fundamentalmente indivíduos ou setores do partido, ou então, esforçar-se, sem deixar de apontar responsabilidades particulares, em construir uma responsabilização coletiva capaz de gerar uma síntese que supere positivamente os atuais conflitos internos e deficiências partidárias.

Os primeiros balanços

Ultrapassados os primeiros dias críticos após a derrota, algumas das principais lideranças do PT gaúcho tornaram públicas suas avaliações preliminares. O próprio candidato derrotado, Tarso Genro, e o prefeito de Porto Alegre, João Verle, foram os que mais avançaram em suas declarações públicas, apontando causas particulares que contribuíram para a derrota. Tarso falou sobre a força do anti-petismo, o papel do governo Olívio, a estratégia de campanha e a metodologia que deve ser buscada para a construção do balanço. Verle, por sua vez, abordou os problemas de comunicação do atual governo e as dificuldades estruturais enfrentadas pelo mesmo.

Tarso Genro afirmou que foi pego de surpresa pela intensidade do anti-petismo: “Formou-se no Rio Grande do Sul, em parte da sociedade com eco social, um certo anti-petismo, pelo pesado cerco que sofremos e até por erros porventura cometidos. Fui pego de surpresa pela existência do anti-petismo. Sabemos que esses dados da cultura política são passageiros. Substituem determinados elementos da cultura histórica da direita, uma cultura autoritária, intolerante e preconceituosa, que ora é anti-comunista, ora é anti-democrática, ora é anti-semita e agora se tornou anti-petista. Vamos demover esse núcleo rançoso, porque não tem racionalidade e é desrespeitoso em relação à democracia”. O candidato disse também que “não foi por causa do Governo Olívio que eu não ganhei a eleição”. Segundo ele, “o governo nos deu argumentos suficientes para defendê-lo; não estávamos defendendo um governo indefensável”. Um dado eleitoral parece sustentar essa leitura. Apesar de não ter conseguido ampliar sua base de sustentação política no Estado (pelo contrário, ela foi menor do que nas eleições de 1998, em razão do rompimento da aliança com o PDT, que apoiou a candidatura de Germano Rigotto), o PT obteve 45,07% da preferência do eleitorado gaúcho (2.829.527 votos). Ou seja, quase metade do eleitorado gaúcho votou pela continuidade do atual projeto.

Esse dado joga água no moinho daqueles que apontam os erros cometidos na campanha eleitoral como um dos fatores determinantes da derrota. Tarso Genro reconhece um desses erros: “Nos excedemos no contraditório com o ex-governador Antônio Britto. Caímos no conto do marketing, achamos que ele era forte, e ele não era. A sua presença na cena pública não tinha enraizamento na sociedade gaúcha, não tinha base partidária”. No primeiro turno das eleições, a propaganda eleitoral do PT centrou fogo contra a candidatura do ex-governador Antônio Britto (PPS), que começou a campanha liderando as pesquisas. O candidato vitorioso, Germano Rigotto (PMDB), passou parte do primeiro turno ostentando nas pesquisas algo em torno de 5% das intenções de votos. Na reta final do primeiro turno, sob ataque cerrado do PT, Britto despencou e seus votos migraram em massa para Rigotto, que atravessou todo esse período sem sofrer qualquer tipo de crítica, consolidando uma imagem de terceira via. A blindagem construída em torno de sua candidatura só foi sofrer alguns arranhões no final do segundo turno, especialmente pela revelação de algumas de suas votações como deputado federal (como no caso da aposentadoria por tempo de serviço). Mas o escasso tempo do segundo turno e a dificuldade de ampliar o leque de alianças não permitiram a reversão do quadro que propiciou a vitória de Rigotto.

Tarso Genro também admitiu os problemas provocados pelo insulamento político verificado no quadro de alianças: “Não nos julgamos prepotentes ou autoritários. Temos uma postura de defesa de convicções. Por exemplo, estamos dispostos a fazer uma autocrítica da nossa relação com o PDT”. E adiantou qual deve ser, na sua opinião, a inspiração metodológica do balanço: “Nossa avaliação não será para buscar culpados. Assumimos as nossas responsabilidades coletivamente. Dizer que a culpa possa ser colocada em mim ou no Miguel Rossetto é dizer que todas as pessoas que indicaram e acolheram as nossas candidaturas são pessoas culpadas. O que vamos fazer é uma avaliação política, não de natureza inquisitória”.

Problemas de comunicação

O prefeito João Verle, por sua vez, apontou problemas na comunicação do governo Olívio como uma das causas da derrota: “o governo do Estado perdeu a batalha da comunicação. Fomos incapazes de divulgar as nossas próprias realizações. A população não ficou conhecendo as realizações do governo Olívio, porque tivemos uma deficiência geral de comunicação”. Verle também identificou dificuldades estruturais enfrentadas pelo atual governo: “Olívio pegou o governo em uma situação complicada, são coisas que não se resolvem em quatro anos. A dívida estava imensa, o comprometimento da receita com pessoal também, parecida com a situação que tivemos ao assumir a prefeitura de Porto Alegre pela primeira vez”. O que parece reforçar a hipótese dos problemas de comunicação é que, apesar das dificuldades macroeconômicas nacionais, o governo Olívio chega ao fim apresentando indicadores econômicos e sociais muito acima da média nacional. Seria injusto, porém, atribuir os problemas apontados por Verle exclusivamente à equipe de comunicação do Palácio Piratini. Essa é uma deficiência que atravessa o governo e o partido como um todo.

O tema da comunicação merece um capítulo à parte nessa avaliação. Por um lado, é inegável que o governo Olívio enfrentou nos veículos do Grupo RBS uma oposição sistemática e articulada desde seu primeiro dia. Aparições de bandeiras de Cuba e do MST, por exemplo, foram transformadas em fatos políticos de primeira grandeza. Eventuais deslizes verbais de integrantes do governo ganharam tons épicos. O bombardeio foi diário, através dos jornais, rádios e emissoras de televisão do referido grupo. Há quem diga que a RBS foi o principal partido de oposição ao governo do PT no Estado. Além disso, há o episódio das pesquisas eleitorais contratadas pela empresa. A larga vantagem de Rigotto sobre Tarso, apontada pelas pesquisas do Ibope e do Cepa/UFRGS), foi desmentida pelas urnas. Há uma semana da eleição de 27 de outubro, essa diferença estava na casa dos 20%, segundo o Ibope. No dia da eleição, na pesquisa de boca de urna, o Ibope apontou uma vantagem de 12 pontos percentuais para o candidato do PMDB. Apurados os votos, a diferença ficou na casa dos 6 pontos, confirmando o levantamento feito dias antes pelo jornal Correio do Povo, único veículo que acertou em suas previsões.

Os erros grosseiros das pesquisas publicadas pelo jornal Zero Hora levaram o presidente do Grupo RBS, Nelson Sirotsky, a assinar uma inédita carta na edição deste domingo (03/11) pedindo desculpas aos eleitores e anunciando a criação de uma comissão de alto nível para analisar os erros. O reconhecimento do erro não corrige, porém, a possível influência das pesquisas sobre aquela parcela do eleitorado que não vota em um candidato que parece já ter perdido o pleito. Ou seja, há elementos de sobra, para apontar a atuação da RBS como um dos elementos causadores da derrota. Mas há aí também uma armadilha a ser evitada. Desde o primeiro dia do governo Olívio, os petistas sabiam que não poderiam contar com a “boa vontade” da RBS em relação às dificuldades que seriam enfrentadas. O desafio que estava claramente colocado, então, era o de construir eficientes canais de comunicação com a sociedade, capazes de enfrentar eventuais bloqueios midiáticos. O PT, como um todo, e não apenas o governo, não conseguiu dar conta desse desafio. Desafio, aliás, que se coloca agora também para o governo Lula, em escala nacional.

Os desafios do balanço

Identificados, assim, alguns dos principais elementos que causaram a derrota do PT nas eleições estaduais, coloca-se de pronto a tarefa de construir um balanço capaz de dar conta dos erros de um passado recente e dos desafios colocados por um futuro muito próximo. As eleições municipais de 2004 estão entre eles. O sinal de alerta é claro. O desempenho eleitoral na capital, na disputa estadual desse ano, ficou muito distante da vantagem obtida em eleições anteriores. Tarso Genro teve uma vantagem de apenas 3.327 votos sobre Rigotto na capital, um tradicional reduto petista. Em 1994, com Olívio Dutra como candidato ao governo e Tarso no comando da capital, essa vantagem chegou a 223.737 votos. O alerta já mobiliza o partido para as próximas eleições municipais. O prefeito João Verle promoverá uma reforma no secretariado em dezembro, com dois objetivos centrais: dar uma cara própria à sua gestão, cuja composição se mantém inalterada desde a renúncia de Tarso, e injetar novo ânimo na administração da quarta gestão petista na capital.

O fortalecimento da gestão petista na Prefeitura de Porto Alegre e a construção de um balanço politicamente eficaz são as duas tarefas centrais que o PT gaúcho deve enfrentar nas próximas semanas. Dependerá da qualidade dessas iniciativas o futuro próximo do partido no Estado e no novo cenário nacional redesenhado a partir da vitória de Lula. Especialmente no caso do balanço, o sucesso da tarefa dependerá, em boa parte, de uma opção metodológica. Além da regra de aproximação apontada por Clarice Lispector, os protagonistas desse balanço podem se inspirar nas palavras de outro grande escritor brasileiro. Em 1982, após o naufrágio da seleção brasileira de futebol diante da esquadra italiana, na Espanha, Carlos Drummond de Andrade escreveu um pequeno tratado sobre a derrota, que poderia servir de inspiração metodológica para a avaliação a ser construída. Drummond escreveu:

“A derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal um instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe dos apodrecimentos das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo. Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos (ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobre-diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se”.

Ou seja, passadas as eleições, o desafio que está colocado para a direção do PT gaúcho é construir uma síntese não só capaz de dar conta das razões da derrota, mas, principalmente, capaz de unificar o partido em torno de uma nova matriz estratégica e programática, adequada ao novo cenário político nacional e fértil na possibilidade de remover os detritos das disputas internas, apontando com clareza o futuro terreno da disputa política no Estado e no País, e escolhendo os instrumentos corretos para se movimentar no mesmo. Ou, nas palavras de Drummond, a derrota – assim como a vitória - traz o desafio de saber interpretar as regras do jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo.



*Marco Aurélio Weissheimer é correspondente da Agência Carta Maior em Porto Alegre

Dica de site para hoje

São dois, o Marcação cerrada e o Ficha corrida.

É de lá que eu tirei esta singela imagem aí de baixo, o momento Regina Duarte da RBS...


MIDI@LERTA

Os Jornais

04-11-2002

* Este material é produzido por um grupo de jornalistas apoiadores da Frente Popular.





EXPLICAÇÕES

Pesquisas: manipulação, vitória e desculpas

Chega a ser tocante o editorial "A RBS, as eleições e as pesquisas" publicada na Zero Hora de domingo (03/11), à pág. 19, e assinada pelo presidente do grupo, Nelson Sirotsky. Após elogiar a correção e a lisura ("RBS cumpriu com a sua missão de informar e fazer a cobertura abrangente e equilibrada que se propôs"...) do próprio trabalho, Sirotsky chega ao ponto central, que o levou a, constrangidamente, escrever. A questão dos inacreditáveis erros nas pesquisas ? especialmente do Ibope ? publicadas em Zero Hora e que terminaram por influenciar o resultado final da eleição estadual. Afinal, boa parcela de seus assinantes, sentindo-se ludibriados pela manobra da empresa, vem cancelando suas assinaturas e até deixando de comprar o jornal nas bancas.


O presidente do maior grupo de comunicação do Sul do Brasil diz que "(o Ibope) errou gravemente na diferença percentual entre os votos dos dois candidatos" ? e coloca toda a responsabilidade no tal instituto de pesquisas, ao lembrar: "Como já foi admitido por seu presidente (do Ibope)".

Tais erros, continua Sirotsky, "levaram alguns comunicadores da RBS a se manifestar equivocadamente após o encerramento da eleição, quando da divulgação da pesquisa boca de urna, fazendo comentários precipitados sobre outras pesquisas e outras instituições (...)".


O mea-culpa inclui "cumprimentos pessoais" de Sirotsky ao CP, que acertou em cheio o resultado da eleição, e uma jogada para a torcida: a formação de uma "comissão de alto nível" da sociedade rio-grandense, que "analisará os procedimentos adotados pela RBS em relação às pesquisas".


Enfim, depois de obtido seu objetivo ? ajudar a derrubar o PT do governo do Estado de qualquer modo ? a RBS apresenta educadas mas esfarrapadas desculpas, elogia o instituto do grupo rival, que agiu com isenção (e acertou), e dá-se ao luxo de nomear uma comissão para "analisar procedimentos". Uma jogada para zerar tudo ? inclusive ações antiéticas e irregulares durante a campanha.


A verdade é que houve a manipulação das pesquisas, que de um lado esfriaram a militância da Frente Popular e, de outro, ao ampliar artificialmente uma vantagem que era pequena, jogaram no colo do candidato oposicionista os votos dos eleitores que ainda estavam indecisos.


Enquanto a RBS pede desculpas públicas, mas em caráter privado ergue brindes a uma vitória que também foi sua, só podemos sugerir o seguinte: nas próximas eleições, se não quiserem perder ainda mais credibilidade e leitores, Zero Hora deve contratar o Correio do Povo.



AUTO-ESTIMA

Encarando os fatos a posteriori

Mas ficando ainda na Zero Hora dominical, é interessante citar o comentário de Rosane de Oliveira (pág. 13), costumeiramente equilibrada. Um dos trechos finais (sobre a segurança pública) merece transcrição: "A oposição criou nos gaúchos a impressão de que bastaria tirar o PT do Palácio Piratini para ?recuperar a auto-estima dos policiais civis e militares" e devolver a tranqüilidade a quem anda nas ruas". É verdade.


Mais: "Trata-se de uma simplificação, já que a crise da segurança não é exclusividade do RS e suas raízes são mais profundas (...)". Tudo igualmente verdadeiro.


Porém, faltou dizer o seguinte: grande parte do clima de insegurança e terror gerado em parcelas da população gaúcha foi fabricado pela próprio RBS - em infindáveis séries sobre criminalidade, "falta de controle", "divisão das forças policiais", "falta de policiamento", "desmonte das polícias", etc etc - na Zero Hora, Diário Gaúcho, RBS TV, TV Com, rádio Gaúcha e todas as demais do imenso grupo de comunicação. (Vale recordar que muitas vezes a RBS chegou a "pautar" o discurso dos políticos oposicionistas, e jamais reconheceu o enfrentamento pioneiro e corajoso do atual governo com a banda podre da polícia gaúcha, dando sempre crédito ? em ataques ao governo - a policiais suspeitos e envolvidos em inúmeros processos criminais).






TRANSIÇÃO

Paz, amor e qualidade dos dados

Nota de hoje (4) na coluna de Armando Burd (Correio do Povo, p.4), "Lentes cor-de-rosa", na melhor das hipóteses, incentiva a cultura dos mal-entendidos. "No Palácio Piratini," diz ela, "é seguida rigorosamente a orientação de Lula: nenhum atrito com o futuro governador Germano Rigotto. A fase é de paz e amor em toda a sua plenitude."


Não há erro de fato na observação, mas há importantes informações sonegadas. A nota, para leitores desavisados, dá a entender que a atitude exemplar e civilizada do atual governo em relação à transição é fruto de orientações superiores. Burd certamente não desconhece que a primeira voz que se ouviu, inclusive na imprensa, expressando seu compromisso com o processo democrático e buscando facilitar o processo de transição no RS foi a do governador Olívio Dutra. Insinuações desse tipo são os tijolinhos que edificam o antipetismo.


A mesma edição do Correio do Povo (p.2) traz uma notícia igualmente problemática, do ponto de vista da formação de opinião. "Transição de 1998 for marcada por confronto", diz o título. A matéria dá uma versão do episódio, e apenas uma: a do então vice-governador e governador em exercício, Vicente Bogo. Duas citações atribuídas a Bogo: "Era quase um terceiro turno"; "Como se o grupo que chegava quisesse destruir quem estava no governo". O CP diz mais: "Bogo afirmou que o PT tinha mais interesse em detalhes do caixa e menos a respeito de informações da administração. ?Parecia ser pouco importante ou já sabiam de tudo?, projetou. Bogo atribuiu a conduta ao resquício da campanha, cujo pivô foram as contas e o destino do dinheiro das privatizações."


Como ninguém do PT ou do governo foi ouvido, depois de tanta água ter corrido sob a ponte, é fácil conduzir o leitor às cavernas mais profundas do esquecimento. Quem haverá de recordar o imbróglio das privatizações feitas pelo governo Britto? Segundo o CP, "depois de 15 dias de transição, houve rompimento das conversações pelo governo, descontente com as críticas da cúpula do PT sobre a qualidade dos dados prestados." Ora, sem dúvida, uma administração nova e responsável teria de exigir informações de qualidade e de lidar, especialmente naquela transição, com "o destino do dinheiro das privatizações."


O CP também não procurou saber a respeito das "informações da administração" Britto deixadas para o seu sucessor. Na época, houve denúncias sobre informações totalmente deletadas dos computadores e eliminadas de suas pastas. Uma atitude diametralmente oposta à do atual governo, publicamente comprometido com a qualidade da transição. Por que, então, a insistência em colar nele a imerecida pecha de mau?



O ministério de Lula

O jornal Zero Hora de domingo (3) publicou uma página inteira (p. 6) sobre "O futuro governo" com a manchete "Eles são fortes candidatos ao ministério de Lula". É bem verdade que a matéria veio da "Sucursal de Brasília". É notável, no entanto, que o jornal gaúcho não tenha se interessado em mostrar, em assunto palpitante como o do novo ministério, ministeriáveis do seu Estado. Especulação por especulação, não há motivos para repetir apenas o que se diz na capital federal e ignorar a força do PT gaúcho, com 47% da preferência do eleitorado. O único nome gaúcho em ZH, Dilma Rousseff, só aparece por ter sido recentemente incluído na lista da equipe de transição. Há ministério que nem mesmo é mencionado, como o da Reforma Agrária. Estará ZH apenas arriscando as suas fichas no jogo das previsões de conveniência?

LIMITES

O New York Times já decretou

O Correio do Povo de hoje (4), em sua pág. 3, traz pequena notícia repercutindo a visão do New York Times sobre os limites que deverão pautar o novo presidente brasileiro no exercício do poder. Entre outras projeções em tom de ordem, o jornalão americano anuncia: "O Congresso Nacional deverá aprovar lei que concederá plena autonomia ao Banco Central, podendo reduzir o controle de Lula sobre a política econômica".


Certo, trata-se da opinião do correspondente do NY Times no Brasil. Mas, para nossas elites colonizadas, soa mais como uma orientação da matriz para seus meninos de recados, sempre apressados em adivinhar os desejos do Grande Irmão do Norte.

segunda-feira, novembro 04, 2002

Em reformulação

Logo não teremos posts hoje.
De toda a forma, obrigado pela visita.