FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
Abertura do FSM: quando todas as tribos marcham juntas
Concentração para a marcha, em frente ao Mercado Municipal
A terceira edição do Fórum Social Mundial foi aberta oficialmente ontem. A abertura formal ocorreu no início da tarde no auditório da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul e contou com a presença dos membros dos Comitês Brasileiro e Internacional do FSM, além de vários jornalistas e autoridades.
Algumas horas depois, às 17h30, no largo Glênio Peres, ocorreu a esperada "Marcha pela Paz contra a Militarização e a Guerra", que serviu como uma “abertura festiva” do evento, levando para as ruas do centro de Porto Alegre uma multidão formada por praticamente todos os participantes (brasileiros e estrangeiros) do Fórum. A eles, somaram-se milhares de porto-alegrenses formando uma eufórica multidão que protagonizou o que um dos manifestantes ouvidos pelo Vermelho classificou como ”a passeata mais legal que eu já participei”.
A Polícia Militar e a Companhia de Engenharia e Tráfego de Porto Alegre divergiram sobre o número de participantes. A PM calculou em 50 mil. A CET disse que havia 100 mil e o Comitê Organizador aposta que o número é bem maior: entre 120 e 150 mil pessoas.
A grande quantidade de pessoas podia ser medida pelo tempo que durou a manifestação. Quem ficou parado num único ponto do trajeto, acompanhando a passagem de toda a marcha, teve que esperar quase quatro horas até que o último participante passasse.
Mas, número era o que menos preocupava quem estava ali. No rosto de cada um podia se observar a satisfação de estar participando de um evento daqueles que se coloca na lista de acontecimentos históricos. E foi para isso, para fazer história, que aquelas milhares de pessoas, vindas de todos os lugares do planeta, se juntaram numa marcha colorida, alegre, barulhenta e repleta de mensagens.
Espaço para todas as causas
Uma observação importante a ser feita sobre a marcha é que, de certa forma, ela refletiu uma das característica mais marcantes do Fórum: ser um espaço onde cabem todas as causas. Desde a mobilização pela paz mundial (mote principal do evento) até a luta por um referendo sobre a “independência do Saara Ocidental”, passando pela “defesa da Reforma Tributária com Justiça Fiscal”, “contra o trabalho do comércio aos domingos”, “pelo direito ao aborto”, "contra a discriminação racial", por “água pública para todos”, "pela inclusão digital", por “mais pão e menos canhão”, "pela taxação das transações financeiras", pela “urgente preservação do aqüífero guarani”, por "uma nova Constituição no Chile", "contra a Alça e o FMI", enfim... Havia pedidos e protestos para quase todos os problemas do mundo.
E todas essas reivindicações e centenas de outras estavam representadas na marcha através de bandeiras, faixas e estandartes, num mar de pano colorido que às vezes lembrava uma daquelas cerimônias de abertura de jogos olímpicos, quando atletas de todo o mundo entram em campo com as bandeiras de seus países.
E as já conhecidas bandeiras dos países e das entidades misturaram-se a muitas outras com símbolos indecifráveis, que somente quem as carregava sabia dizer o significado. Coisa que não acontecia com as faixas, sempre muito diretas. Entre as mais curiosas, estava uma da juventude do PT que dizia: “Davos, desista. O Lula é um dos nossos!”.
Também não faltaram as tradicionais palavras de ordem, devidamente dispersas diante de tanta diversidade. Uma que agradou muito foi puxada pela delegação do Chile, composta majoritariamente por comunistas que diziam em tom cadenciado: “Vamos Chile, caramba ! O Chile no se rinde, caramba!”, e que vez por outra dava lugar a um “Lula, Lula, Lula, o Chile te saluda”. Junto com estas, ouviam-se também os tradicionais “gritos de guerra” contra o imperialismo americano.
Mas como se bandeiras, faixas e palavras de ordem já não bastassem para configurar uma passeata, a marcha trouxe também dezenas de artistas performáticos, bandas de música, batucadas, capoeiristas, bonecas gigantes no estilo dos mamulengos de Olinda, dragões de pano com gente dentro, desfile de dragqueens, gente pintada dos pés à cabeça, gente pelada e até um carro alegórico com vários lábios estampados compareceu à marcha divulgando mensagens de condenação aos “fundamentalismos”.
Clima de festa
O conjunto dessas manifestações deixava no ar um autêntico clima de festa, que para nós, brasileiros, poderia muito bem ser comparado com o carnaval. E, com isso, a marcha de protesto contra a guerra foi ganhando cara e jeito de parada cívica, de desfile de escola de samba.
Algumas entidades e partidos chegaram a organizar verdadeiras “alas” na passeata. Foi o caso do PSTU (que tinha o maior grupo compacto), da Attac, da Conan, do PCdoB, PSB, PDT, PCB, UJS, Unegro, da delegação da Bélgica, de Cuba, dos amigos da Venezuela, dos chilenos, italianos, franceses, da CTA Argentina, da Juventude do PT, do MST, dos palestinos e até mesmo um grande bloco de judeus mobilizados pela Federação Israelita compareceu em peso portando bandeiras de Israel e faixas pedindo Paz. E como não poderia faltar, havia também o bloco das autoridades, composto por um grupo de parlamentares, prefeitos e ministros devidamente confinados numa rodinha formada por assessores e seguranças estressados. Também não faltaram as “alas” dos punks, do movimento gay, dos ativistas da luta contra a Aids, das feministas (uma das mais alegres), dos índios, dos ambientalistas, dos místicos, dos artistas, funcionários públicos de inúmeras categorias, dos catadores de sucata que compareceram com seus carrinhos e até uma inédita e muito numerosa delegação (devidamente uniformizada) de defensores do Esperanto. Isso tudo sem citar as entidades, grupos e delegações que compareceram em menor número e se apresentaram de forma mais dispersa pela grande marcha.
A última “ala” alcançou o Anfiteatro do Pôr-do-Sol às 21h30. Foram, no total, quatro horas de caminhada.. Quem chegou um pouco antes pôde conferir com olhos maravilhados por que o lugar tem esse nome. Quem chegou depois perdeu o belo pôr do sol do Guaíba, mas pôde acompanhar o show de Sivuca e Paulinho da Viola que encerrou o primeiro dia do Fórum e abriu a programação cultural do evento.
Segurança
O esquema de segurança montado para acompanhar a marcha foi relativamente pequeno para um evento deste porte. Pouco mais de 100 soldados foram destacados à tarefa. Na maior parte do trajeto não se via nenhum policial. E não fez muita falta. Segundo a PM, nenhum incidente foi registrado durante toda a passeata.
Cláudio Gonzalez
enviado especial do PC do B a Porto Alegre

