sexta-feira, janeiro 24, 2003



FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
Abertura do FSM: quando todas as tribos marcham juntas


Concentração para a marcha, em frente ao Mercado Municipal
A terceira edição do Fórum Social Mundial foi aberta oficialmente ontem. A abertura formal ocorreu no início da tarde no auditório da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul e contou com a presença dos membros dos Comitês Brasileiro e Internacional do FSM, além de vários jornalistas e autoridades.

Algumas horas depois, às 17h30, no largo Glênio Peres, ocorreu a esperada "Marcha pela Paz contra a Militarização e a Guerra", que serviu como uma “abertura festiva” do evento, levando para as ruas do centro de Porto Alegre uma multidão formada por praticamente todos os participantes (brasileiros e estrangeiros) do Fórum. A eles, somaram-se milhares de porto-alegrenses formando uma eufórica multidão que protagonizou o que um dos manifestantes ouvidos pelo Vermelho classificou como ”a passeata mais legal que eu já participei”.

A Polícia Militar e a Companhia de Engenharia e Tráfego de Porto Alegre divergiram sobre o número de participantes. A PM calculou em 50 mil. A CET disse que havia 100 mil e o Comitê Organizador aposta que o número é bem maior: entre 120 e 150 mil pessoas.

A grande quantidade de pessoas podia ser medida pelo tempo que durou a manifestação. Quem ficou parado num único ponto do trajeto, acompanhando a passagem de toda a marcha, teve que esperar quase quatro horas até que o último participante passasse.

Mas, número era o que menos preocupava quem estava ali. No rosto de cada um podia se observar a satisfação de estar participando de um evento daqueles que se coloca na lista de acontecimentos históricos. E foi para isso, para fazer história, que aquelas milhares de pessoas, vindas de todos os lugares do planeta, se juntaram numa marcha colorida, alegre, barulhenta e repleta de mensagens.

Espaço para todas as causas

Uma observação importante a ser feita sobre a marcha é que, de certa forma, ela refletiu uma das característica mais marcantes do Fórum: ser um espaço onde cabem todas as causas. Desde a mobilização pela paz mundial (mote principal do evento) até a luta por um referendo sobre a “independência do Saara Ocidental”, passando pela “defesa da Reforma Tributária com Justiça Fiscal”, “contra o trabalho do comércio aos domingos”, “pelo direito ao aborto”, "contra a discriminação racial", por “água pública para todos”, "pela inclusão digital", por “mais pão e menos canhão”, "pela taxação das transações financeiras", pela “urgente preservação do aqüífero guarani”, por "uma nova Constituição no Chile", "contra a Alça e o FMI", enfim... Havia pedidos e protestos para quase todos os problemas do mundo.

E todas essas reivindicações e centenas de outras estavam representadas na marcha através de bandeiras, faixas e estandartes, num mar de pano colorido que às vezes lembrava uma daquelas cerimônias de abertura de jogos olímpicos, quando atletas de todo o mundo entram em campo com as bandeiras de seus países.

E as já conhecidas bandeiras dos países e das entidades misturaram-se a muitas outras com símbolos indecifráveis, que somente quem as carregava sabia dizer o significado. Coisa que não acontecia com as faixas, sempre muito diretas. Entre as mais curiosas, estava uma da juventude do PT que dizia: “Davos, desista. O Lula é um dos nossos!”.

Também não faltaram as tradicionais palavras de ordem, devidamente dispersas diante de tanta diversidade. Uma que agradou muito foi puxada pela delegação do Chile, composta majoritariamente por comunistas que diziam em tom cadenciado: “Vamos Chile, caramba ! O Chile no se rinde, caramba!”, e que vez por outra dava lugar a um “Lula, Lula, Lula, o Chile te saluda”. Junto com estas, ouviam-se também os tradicionais “gritos de guerra” contra o imperialismo americano.

Mas como se bandeiras, faixas e palavras de ordem já não bastassem para configurar uma passeata, a marcha trouxe também dezenas de artistas performáticos, bandas de música, batucadas, capoeiristas, bonecas gigantes no estilo dos mamulengos de Olinda, dragões de pano com gente dentro, desfile de dragqueens, gente pintada dos pés à cabeça, gente pelada e até um carro alegórico com vários lábios estampados compareceu à marcha divulgando mensagens de condenação aos “fundamentalismos”.

Clima de festa

O conjunto dessas manifestações deixava no ar um autêntico clima de festa, que para nós, brasileiros, poderia muito bem ser comparado com o carnaval. E, com isso, a marcha de protesto contra a guerra foi ganhando cara e jeito de parada cívica, de desfile de escola de samba.

Algumas entidades e partidos chegaram a organizar verdadeiras “alas” na passeata. Foi o caso do PSTU (que tinha o maior grupo compacto), da Attac, da Conan, do PCdoB, PSB, PDT, PCB, UJS, Unegro, da delegação da Bélgica, de Cuba, dos amigos da Venezuela, dos chilenos, italianos, franceses, da CTA Argentina, da Juventude do PT, do MST, dos palestinos e até mesmo um grande bloco de judeus mobilizados pela Federação Israelita compareceu em peso portando bandeiras de Israel e faixas pedindo Paz. E como não poderia faltar, havia também o bloco das autoridades, composto por um grupo de parlamentares, prefeitos e ministros devidamente confinados numa rodinha formada por assessores e seguranças estressados. Também não faltaram as “alas” dos punks, do movimento gay, dos ativistas da luta contra a Aids, das feministas (uma das mais alegres), dos índios, dos ambientalistas, dos místicos, dos artistas, funcionários públicos de inúmeras categorias, dos catadores de sucata que compareceram com seus carrinhos e até uma inédita e muito numerosa delegação (devidamente uniformizada) de defensores do Esperanto. Isso tudo sem citar as entidades, grupos e delegações que compareceram em menor número e se apresentaram de forma mais dispersa pela grande marcha.

A última “ala” alcançou o Anfiteatro do Pôr-do-Sol às 21h30. Foram, no total, quatro horas de caminhada.. Quem chegou um pouco antes pôde conferir com olhos maravilhados por que o lugar tem esse nome. Quem chegou depois perdeu o belo pôr do sol do Guaíba, mas pôde acompanhar o show de Sivuca e Paulinho da Viola que encerrou o primeiro dia do Fórum e abriu a programação cultural do evento.

Segurança

O esquema de segurança montado para acompanhar a marcha foi relativamente pequeno para um evento deste porte. Pouco mais de 100 soldados foram destacados à tarefa. Na maior parte do trajeto não se via nenhum policial. E não fez muita falta. Segundo a PM, nenhum incidente foi registrado durante toda a passeata.


Cláudio Gonzalez
enviado especial do PC do B a Porto Alegre



INFORMES - 24/jan/2003 - N° 2.705 - Ano XVIII
Liderança do PT - Câmara dos Deputados ? Brasília
http://www.informes.org.br - Fechamento: 23/jan/2003 - 19h30

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VEJA DESTA EDIÇÃO

#Aberto III Fórum Social Mundial
#Para presidente Lula, Davos precisa ouvir Porto Alegre
#Petistas destacam importância de Lula participar dos dois fóruns
#Fórum parlamentar aprova visita ao Iraque em fevereiro
#PT é exemplo para Fórum Parlamentar
#PS francês quer PT na Internacional Socialista
#Governo participa pela primeira vez do Fórum Social
#Próximo Fórum Social Mundial será na Índia
#João Paulo prossegue campanha em Santa Catarina

# Fórum #

Aberto III Fórum Social Mundial
O III Fórum Social Mundial foi oficialmente aberto ontem, em Porto Alegre. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará presente no evento hoje e seu pronunciamento está previsto para às 18h, no Anfiteatro Pôr do Sol. O fórum prossegue até o dia 28 e pretende ser um espaço livre para a reflexão e exposição de idéias.
Os ministros Humberto Costa, da Saúde; Jaques Wagner, do Trabalho e Emprego; Agnelo Queiroz, do Esporte; Miguel Rosseto, do Desenvolvimento Agrário, e Tarso Genro, da Secretaria Especial de Desenvolvimento Econômico e Social, participaram da marcha de abertura do fórum.
Vários parlamentares da bancada do PT acompanham os debates. O líder do partido na Câmara, deputado Nelson Pellegrino (BA) e o deputado João Paulo Cunha (SP), candidato à Presidência da Casa, já se encontram em Porto Alegre.

Para presidente Lula, Davos precisa ouvir Porto Alegre
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou mensagem através de seu porta-voz, André Singer, na qual discorre sobre sua participação nos Fórum Social Mundial, em Porto Alegre e Econômico Mundial, em Davos. O texto é o seguinte:
?Depois de participar pela terceira vez do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, vou a Davos para mostrar que um outro mundo é possível. Davos precisa ouvir Porto Alegre. Do mesmo modo que é necessário um novo contrato social no Brasil, é preciso um pacto mundial que diminua a distância entre os países ricos e os países pobres. É inadmissível que no início de um novo milênio ainda haja milhões de seres humanos que não tenham sequer o que comer. Por isso a prioridade do meu governo, no Brasil, é o combate à fome. Vou levar a Davos a mensagem de que os países ricos precisam também distribuir a renda no planeta?.

Petistas destacam importância de Lula participar dos dois fóruns
O presidente do PT, deputado José Genoino (SP), afirmou ontem, em Porto Alegre, que seria "um equívoco" se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não comparecesse ao Fórum Econômico Mundial, em Davos. "A grande novidade é que temos, pela primeira vez, um presidente que vai aos dois fóruns para defender as mesmas propostas", afirmou Genoino. "O que não pode é se negar a ir a qualquer fórum do mundo para defender seus interesses."
Já o líder do PT na Câmara, deputado Nelson Pellegrino (BA), sustentou que Lula irá ao Fórum Econômico Mundial para dizer aos ricos que milhões de pobres no Brasil e no mundo esperam a construção de uma ordem social mais justa.
Pellegrino disse que o presidente brasileiro irá colocar aos ricos sua posição sobre o cenário mundial, neste momento em que a guerra parece cada vez mais próxima. Sobre o Fórum Social Mundial, o líder petista salientou que o evento mudou a pauta do debate mundial, inclusive do Fórum de Davos. ?Sem dúvida, o Fórum Social foi uma iniciativa
vitoriosa ao discutir o desenvolvimento focado na questão social?, afirmou.

Fórum parlamentar aprova visita ao Iraque em fevereiro
Uma caravana internacional de parlamentares vai ao Iraque no início de fevereiro. A proposta, do deputado Tarcísio Zimmermann (PT-RS), foi aprovada por unanimidade pelo III Fórum Parlamentar Mundial, em Porto Alegre. Segundo Zimmerman, não se trata de uma campanha a favor de Saddam Hussein, (presidente do Iraque) ou contra George W. Bush (presidente dos Estados Unidos). ?Estamos lutando para que os iraquianos superem seus problemas num ambiente de paz?, justificou.
O senador Saturnino Braga (PT-RJ) explicou que a caravana vai levar solidariedade ao povo iraquiano e repudiar a ação da guerra. ?É preciso dar visibilidade às ações para impulsionar a opinião pública?, afirmou.
Pela proposta de Zimmermann, a viagem ao Iraque será financiada pelos próprios parlamentares.

PT é exemplo para Fórum Parlamentar
Deputados e senadores de 27 países que participam em Porto Alegre do III Fórum Parlamentar Mundial reconheceram que o PT é um exemplo de relação bem-sucedida entre um partido político e os movimentos sociais do seu país. O partido foi apontado como uma esperança contra a crise de representatividade por que passam os partidos políticos na América Latina e no mundo em geral.
Os elogios ao PT foram feitos durante o painel ?As relações entre os movimentos sociais e os partidos políticos". Os parlamentares expositores, cada um representando um país, destacaram a importância do crescimento dos interesses sociais em governos da América Latina, em especial no Brasil, representada pela eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O deputado estadual Raul Pont (PT-RS), representante brasileiro na mesa, afirmou que a forma como o PT está organizado facilita a relação de respeito com os movimentos. ?Para um partido ser democrático ele deve ter tendências diversas e incorporá-las nas instâncias partidárias, inclusive na direção", argumentou.
Alianças - Na avaliação do deputado francês Alain Lipietz, se o governo Lula conseguir manter as alianças construídas pelo PT com os movimentos sociais, ele será ?a grande experiência do século 21 para a América Latina?.

PS francês quer PT na Internacional Socialista
O secretário-geral do Partido Socialista Francês, François Hollande, convidou o presidente nacional do PT, deputado José Genoino (SP), a participar de uma agenda de discussões que culmine com o ingresso do Partido dos Trabalhadores na Internacional Socialista. Hollande fez o convite ontem, durante almoço com Genoino, em Porto Alegre, onde ambos participam de atividades do III Fórum Social Mundial.
O francês afirmou que deverão ser realizadas mudanças profundas na Internacional Socialista na América Latina, com o afastamento de alguns partidos que tenham mudado de rumo e com a inclusão de novos. "Com a reforma, o PT encontrará seu lugar na IS e será um de seus vetores neste processo de mudança", afirmou Hollande.
Ele sugeriu ainda propostas de cooperação entre os partidos e disse que o PS está disposto a discutir com o PT formas de criar entre a França e o Brasil uma união alfandegária nos moldes do Mercosul.
Genoino acenou positivamente às propostas de Hollande, dizendo que o PT quer aprofundar o processo de integração e diálogo com o PS francês. Quanto ao ingresso do PT à Internacional Socialista, disse que levará a proposta à Comissão Executiva Nacional e ao Diretório Nacional do PT, bem como ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Governo participa pela primeira vez do Fórum Social
A grande novidade da terceira edição do Fórum Social Mundial é a participação do governo federal. Além da presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vários ministros como José Dirceu (Casa Civil), Marina Silva (Meio Ambiente) e Antonio Palocci (Fazenda) participarão dos debates.
Segundo um dos organizadores do fórum, Sérgio Haddad, da Associação Brasileira das Organizações Não-governamentais (Abong), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nunca foi convidado para o evento porque diversas vezes se manifestou contra o fórum. Já o presidente Lula foi convidado porque, segundo Haddad, ele participou das edições anteriores do fórum e, completou, tem grandes afinidades com os temas em discussão.
Outra novidade este ano é a inclusão das Mesas de Diálogos e Controvérsias, das quais participarão os ministros. A ministra Marina Silva foi convidada para falar na modalidade Testemunho no FSM 2003. Haddad destacou, entretanto, que o regimento do fórum veta a participação de membros do governo nas conferências e nos painéis.
O compromisso do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, em Porto Alegre, foi com um grupo de empresários da Federação das Associações Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul) e com o governador do estado, Germano Rigotto (PMDB). Palocci foi o palestrante do almoço promovido ontem pelo PT estadual.

Próximo Fórum Social Mundial será na Índia
A Índia será a anfitriã da próxima edição do Fórum Social Mundial. A decisão é do Conselho Internacional do Fórum, que já anunciou que em 2004 o evento será realizado na cidade indiana de Hyderabad. Roberto Sávio, membro do conselho, explicou que a decisão de mudar a sede do FSM, que sempre foi realizado em Porto Alegre, para a Índia tem o objetivo de facilitar a participação do povo africanos e asiáticos. Sávio disse também que Porto Alegre ficou pequena para abrigar o grande número de participantes. A cidade poderá voltar a sediar o evento em 2005.

# Câmara #

João Paulo prossegue campanha em Santa Catarina
O deputado João Paulo (PT-SP) participa hoje em Santa Catarina de mais um encontro com parlamentares em busca de apoio para a candidatura à Presidência da Câmara. O petista será recebido em Joinville pelo governador Luiz Henrique Silveira (PMDB) e pela bancada federal. A reunião, organizada pelo deputado Carlito Merss (PT-SC), será às 18h, no escritório do governador.
João Paulo pretende conquistar o apoio dos 16 parlamentares do estado. Carlito Merss destacou que já existem decisões nacionais do PFL e do PPB a favor da candidatura petista. Ele contabilizou ainda o apoio do PDT e do PMDB. ?Acredito que a candidatura do PT será única, o que garantirá a eleição de João Paulo com um amplo apoio, que é muito importante para a condução dos trabalhos", avaliou Merss.
Depois de reunir-se com toda a bancada capixaba na manhã de ontem, em Vitória (ES), João Paulo embarcou para Porto Alegre, para participar do Fórum Social Mundial. Em Vitória, João Paulo conversou com a bancada capixaba e com o governador Paulo Hartung, que se comprometeu a conversar com parlamentares para buscar apoio ao candidato petista.
Base sólida - Com a candidatura de João Paulo à Presidência da Câmara praticamente consolidada, o líder do PT na Câmara, deputado Nelson Pellegrino (BA) disse que o PT deve iniciar, ?em clima de diálogo amigável?, a construção de uma base sólida de apoio ao governo para a aprovação das reformas necessárias ao país.

# Expediente #

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Os Jornais

22/01/2003



Manchetes dos jornais de hoje

Correio do Povo: Conselho internacional define hoje o futuro do Fórum Social Mundial

Zero Hora: BC fixa em 8,5% meta de inflação para 2003

Jornal do Comércio: BC eleva para 8,5% a meta de inflação 2003

O Sul: Inflação de 8,5% este ano para que não haja recessão



O Sul: militando contra o militante Bové


Revelando uma veia incendiária e provocativa, O Sul de hoje – ao contrário dos demais jornais da Capital do RS – abriu foto em sua capa com uma imagem de... 2001. A imagem, superampliada, mostra o ativista francês José Bové participando de uma ação contra uma lavoura transgênica no interior do Estado, há dois anos. O que o jornal da Rede Pampa quis dizer com isso? Pretende demonizar e suscitar hostilidades contra o líder camponês francês, em pleno Fórum Social Mundial, para o qual ele foi convidado?

Mas tão ruim e discutível quanto a foto da capa é o título da matéria no mesmo jornal, à pág. 13. Olha só: "Bové, o agitador francês, chegou e disse que só espera convite para fazer protestos". Todos os demais jornais trataram o ativista exatamente como ele é: ativista ou militante das causas agrícolas e ecológicas, ligado à Via Campesina.

Lendo-se a matéria de O Sul, percebe-se como o título foi "esquentado" para provocar a ira dos leitores mais desavisados. Um trecho do texto: "(...) chegou ontem (...) afirmando não ter nenhuma manifestação prevista durante sua estada na capital gaúcha, mas, se houver alguma, poderá participar".

O Sul só informa que Bové pretende encontrar-se com o presidente Lula. De resto, perdeu uma boa oportunidade de entrevistar o líder camponês e ouvir suas propostas. Ao invés disso, preferiu botar mais lenha na fogueira.



Zero Hora mostra um Bové ativo mas ponderado

Aliás, é útil comparar o tratamento escandaloso de O Sul com a equilibrada matéria oferecida pela Zero Hora de hoje (22) sobre o mesmo assunto, em sua pág. 26. O título: "José Bové chega à Capital com discrição e sem polêmica". A matéria de ZH conta que o francês não quis comentar o episódio dos transgênicos ("as coisas mudaram no Brasil") e fala de seu interesse pelo programa Fome Zero, do governo federal, e dos efeitos que esta iniciativa pode ter sobre o aumento da produção agrícola brasileira, especialmente na agricultura familiar.



Jornalismo de curiosidades prejudica cobertura do FSM

Às vésperas do início do terceiro Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, é de se esperar que a cobertura do evento pela imprensa, este ano, fuja da superficialidade e tenha mais conteúdo e menos folclore, principalmente nas TVs. Há um cacoete nas televisões, e por vezes também nos jornais e rádios, de exagerar nos espaços dedicados a aspectos secundários do evento, destacando as diferenças entre os visitantes estrangeiros e curiosidades de bastidores, em detrimento dos temas debatidos. À bem da verdade, boa parte da grande imprensa parece não ter mesmo qualquer interesse que o telespectador, ouvinte, leitor, conheça melhor discussões que põem em xeque o atual modelo de globalização calcado nos ditames neoliberais.



Rigotto tenta corrigir mancada com o Fórum

Zero Hora publicou, na última terça-feira, um longo artigo do governador Germano Rigotto, no qual ele destaca a importância do Fórum Social Mundial, reconhece os benefícios que o evento traz para Porto Alegre e o Rio Grande do Sul e faz um candente apelo aos organizadores para que o FSM permaneça na capital gaúcha no próximo ano. É impressionante a transformação que se deu na opinião do governador, que logo ao assumir promoveu um corte brutal na verba destinada pelo Estado à iniciativa, movido pela pressão da direita raivosa e seus locutores na mídia.

No entanto, na sua viagem pela Europa já pode perceber o quanto os gaúchos são valorizados lá fora por sediarem o Fórum. De volta, recebeu grandes pressões do comércio, hoteleiros, taxistas, donos de restaurantes, agências de turismo, etc., para manter o FSM. Até o presidente da Farsul (!!), pasmem, elogiou o Fórum. Agora Rigotto tenta, às pressas e com a ajuda da mídia, corrigir o erro prometendo todo o apoio ao evento no próximo ano.



Adão Oliveira e Ana Amélia divergem sobre Davos

É interessante observar o quanto dois colunistas, aparentemente do mesmo lado no espectro político, divergem na avaliação do Fórum Econômico de Davos. Enquanto Ana Amélia faz uma apaixonada defesa do fórum dos responsáveis pela miséria e a barbárie no mundo, em sua coluna de terça-feira, em Zero Hora (p. 15), Adão Oliveira, no Jornal do Comércio de hoje (p. 18), apresenta uma visão mais crítica e menos comprometida com estes. Diz Amélia, ao defender a ida do presidente Lula a Davos: "O encontro de Davos é uma discussão ampla e pluralista sobre temas da atualidade... São debates férteis, com gente qualificada, de todo o mundo, a propor soluções e, pelo menos na retórica, defender valores éticos".


Mas a ressalva que ela própria faz diz tudo. De fato, se há alguma preocupação relevante para os povos oprimidos do mundo em Davos, ela é só retórica, não há uma só decisão importante deste fórum para a promoção da justiça e da igualdade que se possa lembrar. Já Adão Oliveira aponta: "Com a consolidação do Fórum de Porto Alegre, Davos está perdendo a aura de ser a única conferência mundial que tem a capacidade de reunir líderes de vários setores da sociedade. Resta saber se os participantes (de Davos) estarão preparados para apontar novos caminhos para a economia internacional, ou se continuarão insistindo em usar velhas receitas para os problemas atuais".

Realmente, resta saber.



Uma história mal contada no Palacinho


"Vice-governador afasta policiais de seu gabinete" é o título de uma notícia publicada hoje (22) por Zero Hora, à página 11, tendo como linha de apoio "Servidores são suspeitos de estarem envolvidos com tráfico de drogas". Em nenhum momento são identificados os tais policiais. O vice-governador Antônio Hohlfeldt disse que os próprios policiais, que integravam a equipe de seguranças do seu gabinete, pediram o desligamento e voltaram para suas funções de origem, não se sabe aonde.

Tudo muito estranho, tudo muito esquisito: como dois policiais com acusações tão graves pesando sobre eles vão parar na segurança do Gabinete do vice-governador do Rio Grande do Sul? Quem "bancou" estes servidores para a função? Porque o processo de um deles, que corre desde 1995, há oito anos, portanto, ainda não foi concluído? Enfim, trata-se de uma matéria que deixa muitas dúvidas no ar e muitas perguntas sem resposta.

Cabe à imprensa cobrar toda a verdade das autoridades competentes.



Na Assembléia, o aumento da contradição

O reajuste autoconcedido pelos deputados estaduais, há pouco, provoca reações curiosas de parte da mídia. Os que criticaram a nomeação de novos concursados nos quadros da segurança e educação, nos últimos quatro anos, argumentando que isso iria onerar ainda mais a folha de pagamento do Estado, agora batem palmas para o aumento de 54% para os deputados - e ainda chamam de hipócritas os deputados de que se opõem à medida.

O colunista José Barrionuevo, em ZH, saiu-se com esta: "Para ser coerente, quem votou contra e vai exercer mandato na AL na próxima legislatura deveria destinar o reajuste ao fundo de combate à fome ou simplesmente devolver este dinheiro ao Tesouro...". Ora, isto só tem sentido para quem vê o mandato parlamentar apenas como um instrumento particular de obtenção de benesses; se o titular do mandato tem a finalidade de servir a população, todos os seus atos devem refletir a preocupação com o bem comum.

A lei estipula que os salários dos deputados estaduais devem ser de até – no máximo - 75% dos federais, e não significa um reajuste automático neste valor. Este "gatilho" deveria garantir também um aumento para o restante dos servidores estaduais...



O voto envergonhado de alguns deputados

A colunista de O Sul, Vera Spolidoro, foi a única titular de espaço de opinião nos veículos da Capital gaúcha a assinalar a atitude constrangedora de alguns parlamentares, no momento da votação em causa própria, no plenário da Assembléia Legislativa. Vera relata: "Vários deputados apenas acenavam para a Mesa, levantando o polegar, para dizer "sim" ao reajuste. Foi o caso de Cezar Busatto e de Berfran Rosado, ambos do PPS. Por isso a deputada Maria do Rosário pediu que, ao chamar cada deputado, a Mesa declarasse seu voto, no que foi atendida".

Por que não pronunciar alto e em bom som o voto favorável ao reajuste, se ele é tão natural?

É fácil imaginar que o povo, se fosse chamado para opinar sobre essa atitude discretamente esperta, viraria o polegar para baixo.



Uma nova revista de cultura e política

Já está circulando a revista Porém, lançada terça-feira (21) em Porto Alegre, num ato no Mercado Público. A publicação aborda temas de cultura e política, trazendo no número de lançamento textos de celebridades como Eduardo Galeano, Gabriel García Márquez e Fidel Castro, ao lado de artigos de vários autores gaúchos. O destaque fica por conta de uma longa entrevista com o ex-governador Olívio Dutra, na qual ele avalia o seu governo, a eleição e as perspectivas para o governo Lula. A revista tem como diretor geral Hugo Scotte e a editora é Dica Sitoni, ambos com uma larga experiência de jornalismo e militância política, assim como os demais colaboradores. Nossos votos de sucesso a esta iniciativa de fazer um jornalismo ético, de qualidade e comprometido com as lutas populares.


Mapa do Fórum: comunicação direta

Comunicação direta: muito boa a iniciativa da Prefeitura de Porto Alegre de distribuir nos pontos de embarque um pequeno folder com detalhado mapa da cidade, mostrando o trajeto PUC-Gigantinho e Gigantinho-PUC, percorrido pelos ônibus da linha Fórum, que começaram a circular dia 19 e vão até 29 deste mês.

Destinada aos participantes do Fórum Social Mundial, a linha é formada por novos e modernos ônibus da Carris, que depois serão incorporados à frota normal da empresa. O mapa, além de detalhar o trajeto da linha Fórum, mostra os locais dos principais eventos do FSM e de quebra serve de guia para os turistas e visitantes na zona central da cidade.



Midi@alerta



Os Jornais

20/01/2003

Manchetes de hoje

Correio do Povo – BC vai manter taxa de juros de 25%

Jornal do Comércio – Ministro discute hoje as obras com Rigotto

O Sul – Ministro dos Transportes, no RS, confirma a duplicação da BR-101

Zero Hora – Ministro dos Transportes garante que tem verba para duplicar a BR-101



Apenas ZH destaca nomeação de agrônomo

para comandar a alfabetização no Brasil

Incompreensível porque apenas Zero Hora deu destaque para o anúncio feito pelo ministro Cristovam Buarque, ontem, em Porto Alegre, da nomeação de João Luís Homem de Carvalho para chefiar a Secretaria Nacional de Alfabetização. Ele é agrônomo e foi secretário da agricultura (!!) de Cristovam quando este governou o Distrito Federal. A expectativa geral era de que fosse nomeada a educadora e ex-deputada federal Esther Grossi.

O Jornal do Comércio deu a notícia, mas de forma muito acanhada, no meio de uma matéria de meia coluna (p.20). Correio do Povo e O Sul cobriram a entrevista coletiva do ministro mas, estranhamente, não registraram o anúncio. Há pelo menos três bons motivos a destacar o assunto: a alfabetização em massa é um dos principais projetos do governo Lula; um agrônomo para o cargo é uma improvisação discutível, no mínimo, quando há tantos educadores e especialista no tema no país; por fim, será que Cristovam ficou com medo de que Esther Grossi brilhasse mais que ele? Um brilho multicolorido, diga-se...







O Sul esquece a mais básica das regras do jornalismo

Alguém precisa lembrar aos redatores d’O Sul que a regra básica do jornalismo segundo a qual uma notícia deve responder às questões "o que, quando, como, onde e porque" continua valendo. Por exemplo, nota na página 2 de hoje diz que um homem matou seu filho de 10 anos porque o menino só marcou 16 pontos numa prova que valia 20. "O pai, furioso, bateu com a cabeça do filho contra uma parede até que o matou". O jornal só não esclarece quem são o assassino e a vítima, onde e quando isto aconteceu.


Outra nota, na página 6, diz que István Mészaros, 72 anos, é considerado um dos maiores filósofos da esquerda contemporânea e acha que o presidente Lula deve ser o fundador de um novo modelo de globalização. A nota, que parece tirada de uma entrevista publicada na Folha de São Paulo, domingo, não informa que o filósofo está no Brasil e virá participar do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre – informações que constavam da entrevista que serviu de fonte para a citação.

PT publica Manual do Deputado

Interessante e útil o Manual do Deputado Petista 2003, lançado nesta segunda-feira (dia 20). A informação está na pág. 2 do Correio do Povo (único diário da capital gaúcha a dar a notícia), que no entanto não fornece detalhes do lançamento, fazendo com que só no meio do terceiro parágrafo descubra-se que o evento foi em Brasília e que o manual é voltado basicamente para os deputados federais.

Na verdade, os conselhos alinhados no Manual, em sua maioria, servem para deputados estaduais, vereadores e para políticos em geral. E funcionam como uma via de mão dupla: levam críticas e conselhos tanto aos políticos quanto à própria imprensa – sempre com bom humor.

Por exemplo, ao citar os "jornalistas-doutores: são os que já vêm com a tese pronta". Como contra-veneno, o PT recomenda paciência e persistência para derrubar seus argumentos. Outra nos dedos da grande mídia conservadora: "enfoque negativo: a imprensa que separa o trigo e publica o joio". (A propósito, não seria nenhum exagero lembrar o perfeito enquadramento, nestes dois exemplos típicos de distorção jornalística, da maior revista semanal de informação do País).

Mas claro que o Manual cuida mais de dar informações objetivas aos políticos petistas – como os melhores horários e condições para conceder uma entrevista coletiva ou a necessária agilidade ("cinco minutos") para um deputado retornar a ligação de um jornalista. "Se demorar", ensina o texto, "o repórter ligará para outro deputado".



Barrio light, mas com espaço

para bater no último governo

Chega a ser comovente o novo estilo light do colunista Barrionuevo, da RBS, agora sob governo estadual com o qual se identifica. Onde está aquela crítica ferina? Onde anda aquela informação muitas vezes não confirmada pelos fatos, mas que cumpria seu papel de desgastar, a cada dia, o último governo do Estado? Nada. Agora, a lupa do comentarista não se detém em qualquer coisa que possa constranger o establishment.

Mas sempre sobra vontade e espaço para fustigar ainda mais o lombo do governo Olívio Dutra. Ele exercita os músculos em longa matéria na qual relata que o Ministério Público ofereceu denúncia contra o ex-comandante da BM, coronel Gerson Nunes Pereira, que no exercício do cargo teria perseguido outro coronel, relativamente ao caso do Relógio da Globo, dito dos 500 anos.(Uma peça comemorativa que fazia propaganda institucional da Rede Globo).

Seja como for, no fim do texto Barrionuevo avisa, democraticamente: "A Página 10 está aberta para contestação". Quem te viu e quem te vê.

O Sul descobre agora o poder de José Dirceu

Por falar em política de desgaste, os primeiros sinais desta estratégia já vêm se revelando na grande mídia nacional (e na local) em relação ao governo Lula – embora todas as concessões do petista ao estilo "progressista no social, conservador no econômico". Basta lembrar a matéria da Veja da semana passada (em que a revista busca caracterizar o atual governo federal como um amontoado de incompetentes e/ou irresponsáveis). Ou então ler a matéria estampada por O Sul, na pág. 13 da edição de hoje. O título: "Políticos surpresos ainda mais com o poder de José Dirceu".

O texto, assinado por "MT com agências", é um cozido de várias fontes, pinçadas e misturadas com a intenção de demonstrar que José Dirceu não só é muito poderoso junto a Lula (o que O Sul parece ter descoberto só agora!) como faria uso de artifícios anti-éticos para conseguir o que quer. Lá pelas tantas, o texto chega a compará-lo com o estilo do ministro das Comunicações de FHC, Sérgio "Trator" Motta, que como se sabe chegava a negociar cash, caso a caso, com cada parlamentar suscetível de mudar de idéia – o que terminou garantindo um segundo mandato para Fernando Henrique.

Ora, José Dirceu, independentemente de seu poder e influência – sobejamente conhecidos e que ele levou do PT para o governo federal – jamais foi acusado de realizar essa espécie de negociata. E a imprensa, mesmo que parta para o fustigamento do governo petista, precisa não misturar alhos com bugalhos. A não ser que apresente provas do que insinua.

Jornais omitem agências de notícias nas matérias

Os jornais de Porto Alegre, assim como outros tantos do interior, precisam retomar o saudável e ético hábito de indicar as agências de notícias de onde extraem muitas das matérias que publicam todos os dias, principalmente nas editorias de política nacional, internacional (ou mundo) e economia. O conhecimento da fonte é uma boa referência para o leitor medir a credibilidade da notícia, bem como o esforço do veículo em buscar suas próprias fontes de informação e análise. A bem da verdade, O Sul é o jornal da capital que ainda indica as agências ao pé das matérias, embora às vezes isto seja "esquecido" ou informado de forma não muito clara.