MIDI@LERTA
Jornais de P. Alegre
18/11/2002
ZH retoma a pauta da violência e da criminalidade
A pauta da violência promete voltar – e já vem voltando - com força para as páginas do maior jornal impresso da RBS esta semana. Hoje (18) a manchete de contracapa de Zero Hora dá a impressão de rigor e contundência, ao usar todos os números para avançar a causa da empresa: "Um gaúcho foi assassinado a cada 3 horas e meia no feriadão".
A chamada para as páginas 4 e 5, integralmente dedicadas ao tema, joga com o contraponto fotográfico de aprazível praia no litoral norte. E, na mesma edição, os comentários políticos de José Barrionuevo (p.12) se ocupam, coincidente e prioritariamente, da mesma questão: "RS bate recordes na criminalidade".
Não se trata de contestar os dados da criminalidade e da violência, mas de criticar o uso desses dados, feito de forma a facilitar uma percepção distorcida para pior, do estado real da violência e da segurança pública no RS. A parte noticiosa do esquema é tecnicamente defensável, pois baseia-se em estatísticas:
"O feriado de tempo bom no RS terminou ontem à noite com uma trágica estatística: até as 24h de ontem, pelo menos 21 gaúchos tinham sido assassinados (...). Além de superar todos os assassinatos registrados no ano passado em municípios como Esteio ou Sapucaia do Sul, o número de mortes nos últimos três dias foi igual à soma das ocorridas em outros dois feriados prolongados (...)."
A coluna de Barrionuevo, por sua vez, são brasas puxadas para a própria sardinha (da RBS). Trata de "um estudo mais amplo do que a Secretaria Nacional de Segurança Pública apresentou na semana passada em relação ao RS", por dois economistas, e que "vai virar livro". O estudo "mostra os padrões de criminalidade sob a batuta de José Bisol ao longo de quatro anos (...)". Para quem esquece, José Bisol é o secretário de Segurança Pública do governo Olívio Dutra. Mas seria, também, candidato a vice-presidente na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1989, não fossem as denúncias caluniosas da RBS, que o retiraram do páreo e que culminariam numa ação judicial, na qual a RBS foi condenada a pagar indenização milionária ao caluniado.
Para início de conversa, ao falar em "padrões de criminalidade sob a batuta de José Bisol" o colunista dá a impressão de querer transferir a batuta da mídia hegemônica para a mão de algum bode expiatório. Não prova sua acusação nem desvencilha-se do embaraço estatístico, dentro do qual busca engambelar o leitor e a leitora. "O dado mais inquietante é que, mantida a atual tendência, o RS experimentará um aumento de 10% nas taxas de roubo a cada seis anos, ocorrendo o mesmo com a taxa de furto, que dobrará a cada sete anos". Aqui, já fala de tendências e projeções da criminalidade. E vai além:
"Diante dessa dramática possibilidade, o estudo considera ‘indiscutível’ a necessidade de se modificar o modelo de operação do sistema de segurança pública do RS, para evitar que o Estado "se aproxime das regiões mais violentas do Brasil, as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Recife".
A honestidade intelectual e factual exigiria informar que o RS possui um sistema de coleta de dados sobre a criminalidade superior ao da maioria dos estados brasileiros, o que pode distorcer as comparações selvagens. O apelo para "modificar o modelo de operação do sistema de segurança" do RS sem dizer qual é este modelo soa como prévia justificativa para a volta de estruturas podres e já saneadas da Segurança Pública do Estado, na atual gestão. E o argumento é insustentável. Pede tudo isso para "evitar que o Estado ‘se aproxime das regiões mais violentas do Brasil’...", onde o modelo de operação é, justamente, aquele que o colunista defende para diminuir a violência.
O resto é notícia de Zero Hora. Fatos diversos, que os jornais juntam em pequenas notas no fim das páginas policiais, tornam-se manchete nas primeiras páginas de ZH: "21 assassinatos em três dias de feriado"; "Brigas amorosas causam quatro mortes"; "Motivos fúteis geram violência"; (...); (p.4, 5). Com isso, o jornal da RBS usa fatos reais para inventar a "falsa realidade" de que há mais violência e insegurança no RS governado pelo PT do que no resto do país, se não do mundo. E prepara-se, ao mesmo tempo, para o novo período de "paz e amor", novamente sob a sua batuta.
A volátil opinião de um colunista
Após passar quase quatro anos batendo e ampliando qualquer problema do governo Olívio (e nunca elogiar qualquer acerto), em sua coluna de ZH, José Barrionuevo na edição de domingo (17) volta a mostrar sua recente mudança de opinião. Com o título "Navegar é preciso", ele ironiza à vontade o passeio que o governador do Estado deu à bordo do veleiro Cisne Branco, da Marinha brasileira, para concluir: "O governador encerra o mandato sem maior desgaste". Diz também, em tom de quem dá o furo, que Olívio "é nome certo para o ministério de Lula" e "já se apresenta como forte candidato à sucessão de Rigotto em 2006".
Para explicar a mudança radical de avaliação, agora que Olívio não representa mais perigo, Barrio diz que ele "acabou repassando ao ex-prefeito (Tarso) o desgaste da derrota". Enfim, mais uma vez o colunista joga à vontade, acirra ânimos e contribui para ampliar divergências internas no PT. E o que é pior: muitas vezes com a colaboração de petistas, que não resistem a uma citação elogiosa em sua coluna.
Pesquisas de ZH: comissão lava as mãos e sai de cena
Uma lavagem de mãos de quem não tem nada a ver com o assunto, ao estilo Pôncio Pilatos. Assim pode ser lida a "conclusão" publicada na ZH de domingo (dia 17) , na pág. 14, pela comissão de notáveis convocada às pressas pela RBS, para tentar deter a onda de indignação e cancelamento de assinaturas causada pela manipulação das pesquisas eleitorais pelos veículos da empresa.
Assinada pela reitora a Ufrgs, Wrana Panizzi, pelo professor de direito constitucional Eduardo Carrion, pelo presidente da ARI, Ercy Torma e pelo integrante do Conselho do Leitor de ZH, Nestor Streb, a tal comissão elaborou um texto que é um primor de generalidades. Uma das poucas recomendações um pouco mais específicas é "a identificação clara, quando for o caso, nos seus editoriais, da posição da empresa jornalística".
A comissão "recomenda a constituição de um fórum convocado por instituições e agremiações representativas de diferentes setores da sociedade civil, cuja formatação deverá ser definida pelos envolvidos, para um debate amplo, aberto, crítico e democrático sobre o tema". Quais instituições? A Farsul e o MST, por exemplo, vão sentar para discutir Zero Hora e as eleições?
Enfim, quando se recomenda a realização de um grande fórum – genérico, amplo e irrestrito – quase sempre trata-se de uma maneira de jogar qualquer discussão objetiva para as calendas. Ao que tudo indica, a tal comissão resolveu fazer uma pequena recolha de sugestões cheias de boas intenções (na prática, pouco viáveis) e se desligar o quanto antes do assunto (RBS/eleições/Ibope/Cepa-Ufrgs) – que na verdade cheira mal e já vem provocando conseqüências dentro da próprio Universidade Federal do RGS, que viu seu prestígio e renome chamuscados pelo escândalo das manipulações das pesquisas, que contribuíram para a vitória de Germano Rigotto.
Em tempo: na mesma página, a RBS "agradece a valiosa contribuição" da comissão e compromete-se a aceitar desde já as sugestões apresentadas. Mais adiante, depois de se auto-elogiar ao lembrar a realização de um recente Seminário de Ética e Comunicação (isso mesmo!) pelo grupo, a empresa diz, com ingenuidade: "Acreditamos que o processo de comunicação requer constante aperfeiçoamento".
Pois Midia Alerta não concorda. Para nós, a RBS não precisa de mais aperfeiçoamento: já é mestra na arte de manipular, omitir e degradar a informação, de acordo com seus interesses.
"Cascatinha" respinga veneno sobre imagem do PT
Inacreditável a nota "Direto ao ponto" publicada por Fernando Albrecht, em sua coluna da pág. 3 do Jornal do Comércio de hoje (18). Sem dar o nome de ninguém, sem citar o município, a identidade ou ao menos o cargo do "funcionário público" que teria participado da conversa que ele apresenta, o colunista publica uma autêntica fofoca, com o propósito – escancarado e único – de desgastar o PT.
Diz ele que o prefeito de uma cidade governada pelo partido da estrela recusou dar aumento ao funcionalismo público local, não quis explicar os motivos ao porta-voz dos funcionários e, pressionado, teria se saído com essa: "Qual é cara, tu ainda não entendeu que agora a gente é patrão?".
Ora, esse é um típico exemplo de não jornalismo – tudo que não se deve fazer, quando se preza a ética na comunicação. Do jeito que ele publicou, pode ser tudo apenas e puramente invenção. Por essas e outras é que o apelido do dono da coluna é, há décadas, "Cascatinha".
Feira do Livro com melancolia e informação errada
A matéria publicada na página 33 de Zero Hora, sobre o encerramento da 48ª Feira do Livro, tem pelo menos dois aspectos para análise e correção:
Primeiro é o título. "O melancólico adeus à festa do livro" passa uma conotação de tristeza ou de fracasso, o que não se verifica, tanto no texto como na foto. A linha de apoio, inclusive, diz que a feira foi um sucesso – "Batendo recordes de vendas e de público, a 48ª Feira do Livro foi encerrada ontem com uma série de atividades".
A matéria traz no boxe que tem o título "Encontros e desencontros" uma informação incorreta. Conforme o texto "o governador Olívio Dutra não compareceu à festa capitaneada pelo xerife Júlio Laporta, que contagiou a praça da Alfândega". Apenas para informar, o governador Olívio Dutra esteve presente sim à festa de encerramento da 48ª Feira do Livro. Ele cumprimentou muitas pessoas e, no final, esteve ao lado de Júlio Laporta em mesa do Bistrô do Margs.
Para O Sul, o PT é uma S/A
A matéria publicada em O Sul de Hoje (18) na página 11 - "PT S/A fatura mais com chegada ao poder" - tem uma conotação maldosa. O texto diz que com os 22.401 cargos à disposição, o PT vai arrecadar R$ 17 milhões, uma vez que, segundo a matéria, "a sobrevivência do PT está baseada na contribuição quase que religiosa de filiados, eleitos e comissionados". Na legenda da foto diz: "José Dirceu, se for ministro, receberá R$ 8.280,00 de salário e contribuirá com R$ 1.821,00".
Normalmente as pessoas contribuem para aquelas instituições que elas acham que valem a pena, que são honestas ou que ajudam a comunidade. Muitos destinam uma pequena parcela de seus rendimentos a clubes esportivos, instituições de caridade, de ensino, culturais e também entidades políticas. Portanto, qual é o problema de um filiado contribuir com o seu partido? Mais uma vez, na ânsia de criticar a esquerda, O Sul tropeçou no bom senso e ficou desnorteado.
*Esse trabalho é realizado por um grupo de jornalistas apoiadores da Frente Popular.
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