MIDI@LERTA
Os jornais
29/01/2003
O Sul omisso
O jornal O Sul omitiu participação do governo anterior na implantação da energia eólica. Os quatro grandes diários da capital noticiam, hoje, que o Rio Grande do Sul terá um parque de energia eólica em Osório e uma indústria de aerogeradores, a serem implantados por investidores espanhóis. A confirmação veio numa audiência do governador Germano Rigotto, em Porto Alegre, com representantes do grupo espanhol Elecnor/Enerfin. O Sul, no entanto, foi o único que omitiu a informação de que os primeiros contatos da Elecnor com o Estado ocorreram no governo anterior, em 1999, através da então secretária das Minas e Energia Dilma Roussef, que por sua competência foi designada ministra da mesma área no governo Lula.
Se o PT correr o bicho pega, se ficar...
Muito bom o artigo de Juremir Machado da Silva, hoje, no Correio do Povo (p. 4), no qual exprime como ninguém fez ainda a extensão do paradoxo vivido pelo PT, agora que governa o país. Veja um trecho: “Durante duas décadas, o Partido dos Trabalhadores foi acusado de não mudar. Agora, está sendo acusado de ter mudado. Quando era fiel aos seus princípios, ditos ortodoxos de esquerda, o PT levava pau por ser radical, ultrapassado, teimoso e incapaz de negociar e fazer alianças. Na fase atual, de paz, amor e aceitação dos opostos, o PT está sendo massacrado por ser inconstante, negociar demais, fazer alianças estapafúrdias e fugir da sua linha ideológica. Se correr o bicho pega, se ficar...”.
Acredite: para O Sul, FSM deu "prejuízo"
O título seria inacreditável em qualquer outro jornal, mas como se trata de O Sul, os critérios perdem o norte. O fato é que a pág. 9 da edição de hoje (29) de O Sul abre com o título: "Fórum Social Mundial deu prejuízo de R$ 900 mil".
Prejuízo??? Ora, até as pedras da Rua da Praia - sem falar em todo o mundo comercial de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul - sabem que o III Fórum Social Mundial foi um tremendo sucesso em termos de negócios (além do enorme papel político do evento que projeta a capital gaúcha no mundo todo).
O tal "prejuízo" não passa de custo da mega iniciativa para os organizadores, e gastos com pessoal e hospedagem assumidos pelo poder público. Se quisermos pensar apenas em termos comerciais, o correto é dizer que foi um investimento, com lucros exorbitantes. Afinal, todo o comércio e o turismo, as redes hoteleiras, taxistas, bares, restaurantes, etc, etc, receberam uma injeção de milhões de dólares deixados no Estado, em menos de dez dias, pelos participantes do Fórum.
O que pretendeu O Sul com esse título desnorteado? Aplicar uma "pegadinha" no leitor desavisado? Ou dar sua contribuição para solapar um evento mundial que enriquece a busca de novas alternativas na degradada ordem econômica e social do planeta?
Já com saudades dos dólares deixados aqui pelos participantes do FSM, nem a direita riograndense concordará com a visão de O Sul. O próprio jornal foi obrigado a dar no pé da página um boxe com o título, "Comércio da Capital fatura R$ 30 milhões com o Fórum."
Em tempo: foi essa mesma visão apequenadora do processo que levou o novo governo estadual a cortar R$ 1 milhão na ajuda à organização do evento, contribuindo para que no ano que vem o IV Fórum Social Mundial não aconteça em Porto Alegre. Depois, consciente do equívoco, o governo Rigotto tentou consertar, mas já era tarde. E Porto Alegre só terá de novo as idéias generosas e - o que importa para o comércio - os dólares dos participantes do FSM em 2005.
Silêncio na BM e na mídia
O novo comandante da Brigada Militar proibiu a capitã Maria Jaqueline Machado de participar ontem (28) de um programa da rádio Gaúcha, que abordou a impossibilidade regimental das mulheres PMs chegarem ao posto máximo de coronel, dentro da corporação.
O assunto virou nota na pág. 3 de Zero Hora de hoje, que ouviu o comandante-geral da Brigada, Nelson Pafiadache. Em suma, o coronel disse que a capitã foi proibida de falar pois "não solicitou autorização; quem me representa são as pessoas que eu escolho; não divido minha autoridade". E mais: "Ela já havia dado entrevista sem estar autorizada, fazendo avaliações que não lhe competiam". Ou seja, por essa lógica, um segmento que luta por mudanças (a justa reivindicação das mulheres de também chegarem ao posto máximo da BM) jamais pode manifestar à sociedade a sua posição. Só os que possuem posição contrária - e o poder de mando - podem defender sua opinião junto à opinião pública.
Aliás, o veto às mulheres de chegar ao comando da Brigada já não tem qualquer justificativa razoável nos dias de hoje, e a impossibilidade de que essa discussão seja levada às claras mostra que a linha dura chegou às corporações, com a vitória conservadora no RS, cheia de subprodutos e efeitos negativos que alguns setores da mídia nem imaginavam. Esperemos que a RBS e seus atentos comunicadores mostrem agora a mesma indignação que mostravam contra o governo estadual da Frente Popular, que por uma questão de consolidação de posições procurava centralizar informações de secretarias e todos os órgãos através da Imprensa do Palácio Piratini.
Parabéns, Vietnam
O encontro de ontem do governador Rigotto com uma comitiva vietnamita liderada pelo embaixador Nguyen van Huynh ficou relegado a duas pequenas notas, uma no Jornal do Comércio (Começo de Conversa, "Números vietnamitas", p.3) e outra no Correio do Povo (Panorama Econômico, "Surpresa", p.11), quando deveria despertar a curiosidade de toda a mídia, não apenas pela recuperação das vitoriosas vítimas do velho império norte-americano, mas também pelo fato de demonstrar os benefícios da paz e desmascarar os seus inimigos, hoje representados por Bush. Em todo caso, soubemos do crescimento da expectativa de vida para homens (65 anos) e mulheres (70), que apenas 6,3% da população não sabe ler e escrever, dos US$ 3 bi investidos no exterior e dos US$ 16 bi exportados. Graças aos colunistas. Esta vitória do Vietnam é mais um exemplo para toda gente de paz, que diz não à guerra e ao derrame do petróleo.
E a mídia não viu
O Fórum Social Mundial lançou domingo passado um filme obrigatório e a mídia não viu. Por que, ninguém sabe, pois o Teatro da Puc, com mais de 600 lugares, apesar de cheio, daria para o punhado de críticos que não viram nem gostaram do fórum exercitar os neurônios. Verdade que o vídeo de 70 minutos apresentava Noam Chomsky e Eduardo Galeano em contraponto ao depoimento de defensores e gestores da escola de assassinos que o exército dos Estados Unidos mantêm em Fort Benning, na Georgia.
'Hidden in Plain Sight,' dirigido por John Smihula e narrado pelo ator Martin Sheen, inclui narrativas, além da dos pensadores Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Michael Parenti e outros, ouve o general John LeMoyne e o coronel Glenn Weidner, os parlamentares Barbara Lee e Jim McGovern, os ativistas Padre Roy Bourgeois e Sandra Alvarez e muitas, muitas vítimas. Para conseguir o filme na internet, www.hiddeninplainsight.org, e e-mail info@hiddeninplainsight.org.
A US Army School of Americas (SOA), Escola das Américas, baseada em Fort Benning, na Georgia, treina soldados latino-americanos para combate. Ex-alunos da SOA são responsáveis por alguns dos piores abusos de direitos humanos na América Latina. Entre os 60,000 diplomados da escola estão os notórios ditadores Manuel Noriega e Omar Torrijos do Panama, Leopoldo Galtieri and Roberto Viola da Argentina, Juan Velasco Alvarado do Peru, Guillermo Rodriguez do Ecuador e Hugo Banzer Suarez da Bolivia. Diplomados de escalões inferiores participaram de abusos de direitos humanos que incluem o assassinato do arcebispo Oscar Romero e o massacre de 900 civis de El Mozote.
Notícia estranha
No Correio do Povo de sábado (25), ao pé da página dois, em duas colunas, foto de identidade 3X4 de Olívio Dutra no centro do quadro, e o título "Revista traz novas denúncias". A primeira relação que o leitor faz é foto e título. Novas denúncias... contra Olívio Dutra? Se assim deduzir, o que é bem possível, o leitor terá sido induzido ao erro pelo jornal.
A matéria trata de denúncias publicadas na revista Istoé contra o ministro de Transportes, Anderson Adauto. Nada a ver com o ex-governador gaúcho, que entra na história meio de contrabando, no último parágrafo, em duas frases curtas: "O ministro das Cidades Olívio Dutra descartou ontem que venha a assumir os Transportes, caso o atual titular saia do posto devido às suspeitas de envolvimento em irregularidades. Olívio, que se reuniu com o presidente Lula, em Porto Alegre, afirmou que Adauto é uma pessoa séria."
E o CP, foi sério, subliminarmente, sabendo-se que a revista IstoÉ foi instrumental na divulgação de denúncias improcedentes contra o governo Olívio durante a longa e pouco limpa campanha eleitoral em que a imprensa hegemonista venceu o PT gaúcho? Ou terá sido equívoco subliminar?
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29/01/2003
O Sul omisso
O jornal O Sul omitiu participação do governo anterior na implantação da energia eólica. Os quatro grandes diários da capital noticiam, hoje, que o Rio Grande do Sul terá um parque de energia eólica em Osório e uma indústria de aerogeradores, a serem implantados por investidores espanhóis. A confirmação veio numa audiência do governador Germano Rigotto, em Porto Alegre, com representantes do grupo espanhol Elecnor/Enerfin. O Sul, no entanto, foi o único que omitiu a informação de que os primeiros contatos da Elecnor com o Estado ocorreram no governo anterior, em 1999, através da então secretária das Minas e Energia Dilma Roussef, que por sua competência foi designada ministra da mesma área no governo Lula.
Se o PT correr o bicho pega, se ficar...
Muito bom o artigo de Juremir Machado da Silva, hoje, no Correio do Povo (p. 4), no qual exprime como ninguém fez ainda a extensão do paradoxo vivido pelo PT, agora que governa o país. Veja um trecho: “Durante duas décadas, o Partido dos Trabalhadores foi acusado de não mudar. Agora, está sendo acusado de ter mudado. Quando era fiel aos seus princípios, ditos ortodoxos de esquerda, o PT levava pau por ser radical, ultrapassado, teimoso e incapaz de negociar e fazer alianças. Na fase atual, de paz, amor e aceitação dos opostos, o PT está sendo massacrado por ser inconstante, negociar demais, fazer alianças estapafúrdias e fugir da sua linha ideológica. Se correr o bicho pega, se ficar...”.
Acredite: para O Sul, FSM deu "prejuízo"
O título seria inacreditável em qualquer outro jornal, mas como se trata de O Sul, os critérios perdem o norte. O fato é que a pág. 9 da edição de hoje (29) de O Sul abre com o título: "Fórum Social Mundial deu prejuízo de R$ 900 mil".
Prejuízo??? Ora, até as pedras da Rua da Praia - sem falar em todo o mundo comercial de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul - sabem que o III Fórum Social Mundial foi um tremendo sucesso em termos de negócios (além do enorme papel político do evento que projeta a capital gaúcha no mundo todo).
O tal "prejuízo" não passa de custo da mega iniciativa para os organizadores, e gastos com pessoal e hospedagem assumidos pelo poder público. Se quisermos pensar apenas em termos comerciais, o correto é dizer que foi um investimento, com lucros exorbitantes. Afinal, todo o comércio e o turismo, as redes hoteleiras, taxistas, bares, restaurantes, etc, etc, receberam uma injeção de milhões de dólares deixados no Estado, em menos de dez dias, pelos participantes do Fórum.
O que pretendeu O Sul com esse título desnorteado? Aplicar uma "pegadinha" no leitor desavisado? Ou dar sua contribuição para solapar um evento mundial que enriquece a busca de novas alternativas na degradada ordem econômica e social do planeta?
Já com saudades dos dólares deixados aqui pelos participantes do FSM, nem a direita riograndense concordará com a visão de O Sul. O próprio jornal foi obrigado a dar no pé da página um boxe com o título, "Comércio da Capital fatura R$ 30 milhões com o Fórum."
Em tempo: foi essa mesma visão apequenadora do processo que levou o novo governo estadual a cortar R$ 1 milhão na ajuda à organização do evento, contribuindo para que no ano que vem o IV Fórum Social Mundial não aconteça em Porto Alegre. Depois, consciente do equívoco, o governo Rigotto tentou consertar, mas já era tarde. E Porto Alegre só terá de novo as idéias generosas e - o que importa para o comércio - os dólares dos participantes do FSM em 2005.
Silêncio na BM e na mídia
O novo comandante da Brigada Militar proibiu a capitã Maria Jaqueline Machado de participar ontem (28) de um programa da rádio Gaúcha, que abordou a impossibilidade regimental das mulheres PMs chegarem ao posto máximo de coronel, dentro da corporação.
O assunto virou nota na pág. 3 de Zero Hora de hoje, que ouviu o comandante-geral da Brigada, Nelson Pafiadache. Em suma, o coronel disse que a capitã foi proibida de falar pois "não solicitou autorização; quem me representa são as pessoas que eu escolho; não divido minha autoridade". E mais: "Ela já havia dado entrevista sem estar autorizada, fazendo avaliações que não lhe competiam". Ou seja, por essa lógica, um segmento que luta por mudanças (a justa reivindicação das mulheres de também chegarem ao posto máximo da BM) jamais pode manifestar à sociedade a sua posição. Só os que possuem posição contrária - e o poder de mando - podem defender sua opinião junto à opinião pública.
Aliás, o veto às mulheres de chegar ao comando da Brigada já não tem qualquer justificativa razoável nos dias de hoje, e a impossibilidade de que essa discussão seja levada às claras mostra que a linha dura chegou às corporações, com a vitória conservadora no RS, cheia de subprodutos e efeitos negativos que alguns setores da mídia nem imaginavam. Esperemos que a RBS e seus atentos comunicadores mostrem agora a mesma indignação que mostravam contra o governo estadual da Frente Popular, que por uma questão de consolidação de posições procurava centralizar informações de secretarias e todos os órgãos através da Imprensa do Palácio Piratini.
Parabéns, Vietnam
O encontro de ontem do governador Rigotto com uma comitiva vietnamita liderada pelo embaixador Nguyen van Huynh ficou relegado a duas pequenas notas, uma no Jornal do Comércio (Começo de Conversa, "Números vietnamitas", p.3) e outra no Correio do Povo (Panorama Econômico, "Surpresa", p.11), quando deveria despertar a curiosidade de toda a mídia, não apenas pela recuperação das vitoriosas vítimas do velho império norte-americano, mas também pelo fato de demonstrar os benefícios da paz e desmascarar os seus inimigos, hoje representados por Bush. Em todo caso, soubemos do crescimento da expectativa de vida para homens (65 anos) e mulheres (70), que apenas 6,3% da população não sabe ler e escrever, dos US$ 3 bi investidos no exterior e dos US$ 16 bi exportados. Graças aos colunistas. Esta vitória do Vietnam é mais um exemplo para toda gente de paz, que diz não à guerra e ao derrame do petróleo.
E a mídia não viu
O Fórum Social Mundial lançou domingo passado um filme obrigatório e a mídia não viu. Por que, ninguém sabe, pois o Teatro da Puc, com mais de 600 lugares, apesar de cheio, daria para o punhado de críticos que não viram nem gostaram do fórum exercitar os neurônios. Verdade que o vídeo de 70 minutos apresentava Noam Chomsky e Eduardo Galeano em contraponto ao depoimento de defensores e gestores da escola de assassinos que o exército dos Estados Unidos mantêm em Fort Benning, na Georgia.
'Hidden in Plain Sight,' dirigido por John Smihula e narrado pelo ator Martin Sheen, inclui narrativas, além da dos pensadores Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Michael Parenti e outros, ouve o general John LeMoyne e o coronel Glenn Weidner, os parlamentares Barbara Lee e Jim McGovern, os ativistas Padre Roy Bourgeois e Sandra Alvarez e muitas, muitas vítimas. Para conseguir o filme na internet, www.hiddeninplainsight.org, e e-mail info@hiddeninplainsight.org.
A US Army School of Americas (SOA), Escola das Américas, baseada em Fort Benning, na Georgia, treina soldados latino-americanos para combate. Ex-alunos da SOA são responsáveis por alguns dos piores abusos de direitos humanos na América Latina. Entre os 60,000 diplomados da escola estão os notórios ditadores Manuel Noriega e Omar Torrijos do Panama, Leopoldo Galtieri and Roberto Viola da Argentina, Juan Velasco Alvarado do Peru, Guillermo Rodriguez do Ecuador e Hugo Banzer Suarez da Bolivia. Diplomados de escalões inferiores participaram de abusos de direitos humanos que incluem o assassinato do arcebispo Oscar Romero e o massacre de 900 civis de El Mozote.
Notícia estranha
No Correio do Povo de sábado (25), ao pé da página dois, em duas colunas, foto de identidade 3X4 de Olívio Dutra no centro do quadro, e o título "Revista traz novas denúncias". A primeira relação que o leitor faz é foto e título. Novas denúncias... contra Olívio Dutra? Se assim deduzir, o que é bem possível, o leitor terá sido induzido ao erro pelo jornal.
A matéria trata de denúncias publicadas na revista Istoé contra o ministro de Transportes, Anderson Adauto. Nada a ver com o ex-governador gaúcho, que entra na história meio de contrabando, no último parágrafo, em duas frases curtas: "O ministro das Cidades Olívio Dutra descartou ontem que venha a assumir os Transportes, caso o atual titular saia do posto devido às suspeitas de envolvimento em irregularidades. Olívio, que se reuniu com o presidente Lula, em Porto Alegre, afirmou que Adauto é uma pessoa séria."
E o CP, foi sério, subliminarmente, sabendo-se que a revista IstoÉ foi instrumental na divulgação de denúncias improcedentes contra o governo Olívio durante a longa e pouco limpa campanha eleitoral em que a imprensa hegemonista venceu o PT gaúcho? Ou terá sido equívoco subliminar?
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