quinta-feira, dezembro 26, 2002

MIDI@LERTA

26.12.2002
Jornais e Revistas



Gauchério: profetas do fato consumado erraram

Como se não estivessem tendo que engolir às pressas as análises equivocadas (ou a franca torcida contra) que fizeram, alguns colunistas da imprensa gaúcha são agora obrigados a reconhecer que na verdade o PT gaúcho não sofreu desgaste em nível federal, apesar de perder a eleição estadual. Barrionuevo, em Zero Hora de hoje (26/12): "A perda do governo do Estado não chegou a comprometer a imagem de Olívio Dutra (...)". Albrecht, em sua página do Jornal do Comércio: "Mas que outro estado tem, dentro do PT, a experiência de administração que os gaúchos podem exibir? São quatro mandatos consecutivos na prefeitura de Porto Alegre e um mandato, questionado em muitos pontos, é verdade, na administração estadual. (...). O RS tem a experiência administrativa mais significativa do PT".


Tudo verdade, só que há uma semana atrás, quando os nomes gaúchos dos ministérios de Lula ainda não haviam sido anunciados, estes e outros colunistas não conseguiam fazer esta avaliação. Ao contrário: só falavam do "desgaste" do PT e do governo gaúcho e/ou do "radicalismo do PT gaúcho", que estaria em desgraça frente ao "estilo light de Lula" etc...


A realidade é que a mídia gaúcha – com uma parte dela até torcendo para que não houvesse mesmo nenhum ministeriável do PT do RS – continuava vendendo a versão única e negativa da última campanha eleitoral. Agora, mudam de posição bem rapidinho, correndo atrás do trem da história.



Quem é mesmo?

Dos colunistas, passamos para os interinos. E quem é Rodimar? Pois Rodimar Oliveira é o jornalista substituto de José Barrionuevo na Página 10 de ZH. E foi o autor de nota deselegante, relativa ao chefe-adjunto da Casa Civil do governo estadual, Itiberê Borba, na edição do dia 24. A respeito da manifestação barulhenta contra o governo Olívio, de algumas pessoas lideradas pelo prefeito de Novo Hamburgo, dia 23, o interino da página tascou como título "E quem é Itiberê?".

Após noticiar o fato, saiu-se o interino com esta pérola: "Fica uma pergunta no ar: quem é Itiberê Borba?". E conclui dizendo que a partir do anúncio do ministério de Lula, "os nomes de ponta voaram (...) e deixaram o Palácio Piratini nas mãos de desconhecidos substitutos".

Em primeiro lugar, se ele não sabe o nome de um ocupante de cargo oficial, o problema é do jornalista mal informado, não do ocupante do posto. E depois, substituto por substituto, cabe a pergunta: afinal, quem é Rodimar?



Carta Capital ironiza o "mercado"

A revista CartaCapital desta semana (edição no. 221) usa da ironia para criticar o vício da imprensa brasileira de entrevistar quase somente representantes do sistema financeiro – banqueiros e especuladores - quando precisa saber a reação do chamado "mercado" a alguma mudança na economia – como a nomeação de novos ministros. Os setores produtivos e os trabalhadores são pouco ou nada ouvidos. Um cacoete que foi adquirido nos muitos anos de hegemonia do neoliberalismo, em que o setor especulativo-financeiro fez o que bem entendeu neste país. A revista, no entanto, resolveu ouvir a opinião do verdadeiro mercado...o Mercado Municipal de São Paulo. Lá entrevistou dois feirantes sobre questões atuais da nossa economia – ambos de sobrenome Silva. Veja um pequeno trecho:


Carta Capital: O que é preciso fazer para acalmar o mercado?


José Mário da Silva: Tudo o que o novo presidente está prometendo. Não pode ser igual ao Fernando Henrique, que só foi bom pra quem tem muito dinheiro, não aqui para o mercado.


CartaCapital: O mercado acha que é real o risco da volta da inflação?


José Vieira Silva: Ela já voltou, só não divulgaram. Fiz uma compra de R$ 170 e, depois de 40 dias, gastei R$ 250 nas mesmas coisas. Aqui no mercado as frutas estrangeiras, por exemplo, estão muito caras. Uma caixa de uva red globe, ou thompson, aquela sem sementes, custava R$ 35 e hoje custa R$ 70, R$ 80.



Repórter da Folha de São Paulo denuncia tentativa de golpe na Venezuela

Enquanto a imprensa gaúcha segue noticiando os acontecimentos da Venezuela através dos informes das agências de notícias internacionais, com versões superficiais e distorcidas, a Folha de São Paulo decidiu tratar o assunto com a seriedade que ele merece e enviou para lá o seu melhor e mais experiente repórter, Clóvis Rossi. Com seus artigos e reportagens ele não tem deixado dúvidas quanto ao caráter golpista e anti-democrático da greve geral mantida pela oposição.


A tentativa de caracterizar o presidente Hugo Chávez como um tirano não tem fundamento, diz ele em um de seus artigos: a eleição de Chávez e sua posterior reeleição foram legítimas; o legislativo está aberto e funciona normalmente; o judiciário idem, tanto que inocentou os militares que participaram do golpe de 11 de abril contra o presidente; a liberdade de imprensa é absoluta e "Chávez aguenta o dia inteiro uma barragem de propaganda negativa"; a liberdade de manifestação é tanta que há marchas oposicionistas dia sim, outro também.


Ele aponta ainda que o verdadeiro motivo da greve é o controle da estatal de petróleo, cuja privatização o presidente Chávez suspendeu. E o jornalista encerra com um alerta: "O que está se fazendo na Venezuela parece muito com o que se fez no Chile contra Salvador Allende. Sabe-se o que veio depois: um tirano, aí sim, que hoje não pode sair do país sob pena de ser preso como genocida. Se funcionar com Chávez, pode funcionar com qualquer outro presidente legitimamente eleito", adverte. Será isto que quer a nossa imprensa quando esconde estes fatos dos seus leitores?



ZH entrevista MST

A nota veiculada na coluna de Rogério Mendelski com o título "Algo Mudou", precisa de um esclarecimento.


O texto diz o seguinte: "o MST nacional, através de seu coordenador João Paulo Rodrigues, deu uma longa entrevista no domingo passado ao jornal Zero Hora. Até bem pouco tempo havia uma ordem expressa para que ninguém do MST desse qualquer tipo de entrevista ou mesmo declarações para veículos da RBS."


Precisa ficar claro que os principais membros do MST sempre foram nomes vetados pelos veículos da RBS para qualquer entrevista, e não como está colocado na nota.




* Esse trabalho é realizado por um grupo de jornalistas apoiadores da Frente Popular.

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segunda-feira, dezembro 23, 2002

MIDI@LERTA

Os Jornais
Rádios, TVs e mídia eletrônica
23-12-2002



Mendelski e o Desacerto no jornal

Rogério Mendelski estreou hoje (23) com coluna escrita em O Sul, à pág. 26. Mas como nestes anos todos de rádio acostumou-se a falar muito (às vezes, até demais) e a escrever pouco, sua coluna tem apenas oito itens e vem em corpo bem maior do que o restante do jornal. Mais cuidadoso – porque a palavra escrita tem maior potencial de causar transtornos, em caso de ser usada irresponsavelmente – ele porém revela como pensa a política, ainda hoje. Sobre o preenchimento de cargos para secretários que não são do PMDB, na nota Desacerto 2, diz ele: "Os cargos são escassos e não preenchem as necessidades de um político. Um deputado, sabendo manejar os cargos, em seu gabinete, pode dispor de até 15 vagas".

"Manejar" os cargos? Disputas por vagas, gabinete a gabinete? Onde fica o papel da imprensa como defensora da transparência e da economia do dinheiro público?




Chávez vence na Justiça, ZH diz que é "otimismo" dele


"Antichavistas sofrem nova derrota", anuncia o Correio do Povo em sua pág. 10, acima da linha de apoio: "Após vencer o PDVSA na Justiça, governo bombeia 44 milhões de litros de gasolina de navio-petroleiro". A mesma notícia, com o mesmo enfoque, é dada pelo Jornal do Comércio, pág. 15: "Venezuela – Chávez fura bloqueio e reinicia suprimento de combustíveis". Até o exótico O Sul dá a real: "Gasolina para a Venezuela". Em notinha à pág. 22, diz que "o governo venezuelano conseguiu desativar ontem a principal arma que a oposição usava para paralisar o país há 20 dias (...)".

Agora compare-se o título que Zero Hora conseguiu dar (pág. 36) ao lance vitorioso do presidente Chávez contra as forças oposicionistas que querem desestabilizar seu governo legitimamente eleito: "Chávez demonstra otimismo". Na linha de apoio: "Venezuela – Presidente diz que seu governo está vencendo a resistência dos grevistas". Ou seja: enquanto os demais jornais da Capital noticiaram objetivamente o fato de que Chávez teve uma importante vitória política, com o Tribunal Superior de Justiça mandando suspender a greve dos trabalhadores do petróleo e sendo retomadas as atividades de abastecimento de combustíveis, Zero Hora – sempre ela – partiu para uma linha "subjetiva".

Para ZH, o presidente "diz" que está vencendo (...). E "demonstra otimismo". Enfim, ZH vem sendo politicamente incorreta (ao defender, de certo modo, o golpismo que está sendo insistentemente tentado na Venezuela) e também jornalisticamente incorreta, ao preferir noticiar tudo como meras palavras de Chavez ou questão de sentimento ("otimismo") e não como fatos concretos.

Por essas e outras é que aquela credibilidade, ó.......... tá cada vez mais prejudicada.



O Sul: títulos trazem a notícia e o comentário

Durou menos de uma semana a fase de títulos bem comportados do jornal O Sul, na ordem direta e afirmativa, de no máximo duas linhas e sem aspas e vírgulas. Na edição de hoje (23) estão de volta os títulos de quatro a cinco linhas, quase competindo com o primeiro parágrafo e cheio de recursos ortográficos.

Um bom exemplo é o título publicado na página 20. "Nomeação de Dilma Rousseff para o Ministério de Minas e Energia e afastamento do PMDB representam o primeiro aceno de Lula aos radicais do PT". Um título inovador: além de dar tanta informação que nem se precisa ler a matéria, o título também faz a interpretação política. Ou seja – O Sul está acabando também com o boxe com a análise do fato, pois já está tudo no supertítulo.

É como diz o dito popular: não dá para elogiar.




Agora Zero Hora dá espaço a Bisol

A página 34 do jornal Zero Hora traz uma interessante entrevista com o secretário da Justiça e da Segurança, José Paulo Bisol, na qual ele fala de variados assuntos com liberdade e propriedade. A matéria, bem editada, deixa claro que Bisol sai satisfeito com a implantação do controle externo da Polícia e com a criação da força tarefa de combate ao crime (formada por policiais civis e militares e o Ministério Público), em sua gestão. Ele reforça também sua posição de crítico da corrupção policial.

É interessante ver uma entrevista, solta e sem cortes, sobre um tema polêmico, exatamente no jornal que foi o grande algoz do próprio entrevistado, durante os quatro últimos anos. Pena que sua gestão esteja nos dias finais.

O tempo é que deverá julgar a gestão Bisol à frente da Secretária da Justiça e da Segurança. Não os comunicadores e a parte da imprensa que fatura política e comercialmente, ao amplificar o medo e a insegurança da população.





* Esse trabalho é realizado por um grupo de jornalistas apoiadores da Frente Popular.

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