Por que vou votar no Lula
Ricardo Bueno
Vou votar no Lula porque, daqui a uns 30 anos, quando meus netos perguntarem sobre os tempos de hoje, vou poder responder a eles que eu fui um entre tantos milhões de brasileiros que apostou na possibilidade de estabelecermos um marco na história do país, que naquele momento (o dia 6 de outubro de 2002) estava diante da oportunidade de se tornar a primeira grande nação do planeta a ser governada por um ex-torneiro mecânico e fundador de um partido de trabalhadores, sem que isso significasse revolução armada, sangue e lágrimas.
Vou votar no Lula porque não posso perder a oportunidade de eleger para presidente do Brasil um homem que saiu do interior do Nordeste para fazer a vida em São Paulo, cujo brilhantismo pessoal, a despeito da ausência de formação acadêmica, o levou a se transformar em um dos mais importantes líderes do planeta - e não me importa nem um pouco se ele é ou não enquadrável na categoria de estadista. Só o fato de estarem discutindo isso a respeito do cara que perdeu um dos dedos da mão numa máquina e ficou sem a mulher, morta quando estava grávida de um filho de oito meses por falta de atendimento médico - e mesmo com tudo isso está na iminência de se tornar presidente do Brasil - , já me basta para concluir que ele é simplesmente fenonemal.
Vou votar no Lula porque é uma das mais íntegras pessoas públicas que conheço, mesmo sendo alvo permanente da artilharia pesada daqueles que não suportam a convivência com a democracia e procuram desqualificar e destruir quem quer que tente construir uma sociedade mais justa e igualitária.
Vou votar no Lula porque ele é do PT, e não "apesar disso". Sendo ele do PT, um partido onde se abrigam alguns malucos radicais, vai ser o melhor interlocutor possível quando estes caras doidos da esquerda radical pensarem em vir pra cima, querendo tocar fogo em tudo. Uma coisa é o Serra, ou qualquer outro candidato de centro-direita, tentar estabelecer uma política de reforma agrária e redistribuição de renda, tendo que administrar invasões, passeatas, sei lá mais o quê. Outra coisa é o Lula gerenciar isso, com a credibilidade que têm junto a estes grupos e tendo assumido um compromisso inarredável com as causas sociais, afiançado pelo povo brasileiro, que espera e confia na manutenção da ordem. Ele vai chamar a turma e dizer: "Cachorrada, vamos baixar a bola, que eu preciso fazer umas coisas antes da gente ver este assunto de redistribuição de latifúndios improdutivos. Vamos por partes, pra não alertar os gansos e daqui a pouco inventarem de querer nos derrubar."
Vou votar no Lula porque ele representa a capacidade dos despossuídos, dos descamisados, dos sem-futuro - que aliás, são a maioria do povo brasileiro -, de superarem seus próprios destinos. No caso do Lula, estabelecendo um referencial de ética, justiça e de persistência mesmo diante de desafios aparentemente intransponíveis, transformando-se num exemplo de dignidade e honradez como poucos.
Vou votar no Lula porque ele se mostrou capaz de rasgar seus próprios preconceitos, e compreender que é preciso negociar para alcançar objetivos, e que não adianta querer desconsiderar 500 anos de história só porque a gente tem convicção de que nós estamos certos, e que é preciso cortar, mais cedo ou mais tarde, as asas da camarilha cafajeste que comanda e rouba este país há 5 séculos.
Vou votar no Lula porque, mesmo ele não sendo Deus ou infalível ou o Super-Homem, confio que ele fará tudo o que for possível para contemplar um futuro mais digno para a mais ampla fatia possível da população, cercando-se de pessoas com alta competência técnica e intelectual neste trabalho, e sabendo liderá-las como nenhum outro líder seria capaz hoje no Brasil. Ele não vai impedir que uns e outros metam a mão; não vai resolver todos os nossos problemas de uma só vez - mas que ele vai acordar e dormir 365 dias por ano, durante 4 anos ininterruptos, disposto a chegar lá, ah, isso vai. E eu não tenho por que duvidar da capacidade dele de alcançar este objetivo, tantas coisas ele já conseguiu mostrar que pode fazer.
Resumindo: Lula é um nordestino, ex-torneiro mecânico, não tem curso superior, tem a língua presa, perdeu um dedo, mas não conheço nenhuma pessoa, seja ela das minhas relações pessoais ou que conheça mais à distância, capaz de despertar em mim uma tamanha admiração. E ele não está mais só. Tem um monte de gente intelectualmente mais preparada do que ele que sabe diferenciar e avaliar a capacidade de um líder como referência para um grupo de pessoas e para uma nação e está disposta a entregar a ele o timão deste nosso barco quase à deriva. Acontece que ele, ao fim e ao cabo, é muito melhor do que eu e do que você que está lendo este e-mail, mas ele não vai fazer nada sozinho, porque tudo que fez até agora foi acreditando na capacidade de se reunir em torno de seus semelhantes. Nós somos coadjuvantes muito importantes neste processo. Vamos aproveitar esta oportunidade e dar a ele a chance de mostrar, à frente deste país, que esta nossa sociedade verde-amarela ainda tem por que ser festejada em prosa e verso, nas ruas e nas praças, nos lares, nos bares, nas escolas, nas empresas, onde quer que seja. Vamos tomar um porre de felicidade no domingo, deixando um pouquinho de garganta e de sede para festejar o segundo mandato da Frente Popular, com a eleição do Tarso governador dia 27 de outubro.
Ah: pra quem não sabe, o Lula faz aniversário domingo. Não pode ser uma simples casualidade que ele só tenha conseguido alcançar a chance de ser presidente justamente no dia em que festeja mais um ano de vida. Está escrito nas estrelas - ou melhor, na estrela vermelha do PT.
Ricardo Bueno é jornalista.