Veja a que ridículo chega a militância da direita
Por FLAVIO KOUTZII
O Partido dos Trabalhadores volta esta semana à capa da
Veja, a principal revista semanal do país. Não por
coincidência, faltando semana e meia para o primeiro
turno, a manchete se constrói no tom apelativo da
campanha do candidato José Serra, repetindo o bordão
tucano de colocar em dúvida a capacidade de Lula de ser
presidente da República. "O PT está preparado para a
Presidência?", indaga a revista desde a capa. Entre a
população, esta desconfiança já começara a fazer água na
semana passada, quando o Ibope perguntou a 2 mil
pessoas, nos dias 17 e 19, sobre qual o candidato mais
preparado para governar o país e gerar emprego. A
maioria dos entrevistados respondeu que o mais preparado
é Lula com larga vantagem, 10 pontos percentuais à
frente de Serra nos dois quesitos. Por essa a CNI
(Confederação Nacional da Indústria), que pagou a
pesquisa, não esperava. A reportagem se espraia por seis
páginas e é sobre um único e antológico parágrafo acerca
do primeiro governo da Frente Popular no Rio Grande do
Sul que queremos nos concentrar neste boletim.
Depois de três anos e nove meses sob a artilharia pesada
da RBS e da oposição no Estado, o militante petista bem-
informado há de suspirar crente que já viu tudo. Já
lemos e ouvimos todas as formas possíveis de distorção
dos fatos, de manipulação da linguagem, exageros,
imprecisões, mentiras, exclusão sumária do nosso ponto
de vista, preconceitos por ignorância ou má vontade.
Quem já acordou com a voz de Rogério Mendelski dizendo
as asneiras de sempre sobre o Orçamento Participativo e
a fúria arrecadatória do PT quase acredita que nada vai
ser pior, nenhum discurso há de ser tão rancorosamente
equivocado. Mas pode ser pior. E com alcance mais amplo,
afinal a RBS é uma emissora gaúcha de notícias. As cinco
frases que resumem o governo de Olívio Dutra na Veja
desta semana superam as formas mais abjetas de análise
política que enfrentamos desde janeiro de 1999, análise
a que estamos sobrevivendo na dianteira das pesquisas.
O trechinho, na íntegra: "Dois exemplos são Olívio
Dutra, no Rio Grande do Sul, e Zeca do PT, em Mato
Grosso do Sul. O primeiro botou no secretariado a fina
flor do corporativismo e arrematou a assessoria com um
delegado do Movimento dos Sem-Terra instalado na
Secretaria da Agricultura. O resultado consistiu numa
catástrofe que foi da perda dos investimentos que a
montadora Ford pretendia fazer no Estado ao descontrole
na segurança pública, passando por um show de invasões
no campo e por um processo de ideologização na educação
pública que não se vê em outros Estados. Isso sem falar
na explosão de um escândalo envolvendo alta patente do
governo com controladores do jogo do bicho. Olívio foi
tão sectariamente petista que nem mesmo o PT agüentou.
Ele acabou perdendo nas prévias do partido, para Tarso
Genro, ex-prefeito de Porto Alegre, o direito de
disputar outra eleição."
"O resultado consistiu numa catástrofe..." Catástrofe, o
governo de Olívio Dutra? A economia gaúcha voltou a
crescer quase 15 vezes mais do que no governo Britto,
foram gerados com auxílio do poder público mais de 160
mil empregos em apenas três anos e meio, e no Brasil do
desemprego e da recessão esse avanço todo é
considerado "catástrofe" pela revista porta-voz do
modelo neoliberal? A frase mal chega na primeira vírgula
e lá se perfilam mais duas sandices: "... que foi da
perda dos investimentos que a montadora Ford pretendia
fazer no Estado ao descontrole da segurança pública..."
A Ford queria investir no Estado? Mas não era o Estado
que deveria primeiro investir na Ford, sofrendo a
hemorragia de centenas de milhões de dólares dos cofres
públicos? E que descontrole é esse da segurança pública,
se desde que Olívio assumiu caíram em 20% o número de
estupros e o número de brigadianos mortos em serviço, a
população carcerária aumentou de 12.500 para 16.500
detentos e o Estado se mantém entre os seis menos
violentos do país? Como se fosse possível uma única
frase bater recordes de incorreções na história recente
da imprensa mundial, o rol de desatinos prossegue com "
passando por um show de invasões no campo e por um
processo de ideologização na educação pública que não se
vê em outros Estados."
Então agora é um governo estadual do PT que promove
invasões de propriedades rurais? Não é mais o MST,
movimento que se orgulha de ser autônomo? Sério: o que
andaram botando no café desse redator da Veja? Dada a
proximidade física do reduzido número de palavras, é de
supor que os mesmos dedos que na frase anterior
demonizaram a presença de um delegado do MST na
Secretaria da Agricultura (como se representantes de
protestos sociais não fossem gente) atribuíram ao PT
o "show de invasões no campo". Show, é bom lembrar,
deram os homens e mulheres da Segurança Pública gaúcha,
que controlaram tensões com saldo zero de mortos e
feridos. No Brasil, o número de mortes por conflitos
agrários cresceu 40% no ano passado, em relação a 2000,
segundo a CPT (Comissão Pastoral da Terra). A Veja tem
mesmo conceitos bem esquisitos sobre o que vem a
ser "catástrofe".
Se eles cometem erros deste tamanho acerca das condições
de vida num Estado do mesmo país, geográfica e
culturalmente próximo, cuja capital está distante 1.200
km da sede da revista, em São Paulo, dá para imaginar o
que se inventa naquela redação quando o sujeito da
reportagem é a economia ou a política de um país da
Ásia. Já ouvimos falar em apuração rápida de dados na
correria do jornalismo diário e semanal, mas utilizar
panfletos do PPS como fonte de pesquisa nos parece meio
ridículo. Se a Veja chama de desastroso um governo que
conseguiu mobilizar 1,2 milhão de pessoas para discutir
o orçamento público em grandes assembléias e distorce as
conquistas na área nobre da educação (abertura de 90 mil
vagas no Ensino Médio, alfabetização de 140 mil adultos,
contratação de milhares de professores e funcionários de
escolas e criação da Universidade Pública) no
resumo "ideologização da escola pública", se a Veja se
equivoca nesse grau, você vai deixar de ir ao cinema se
a revista classificar de "horrorosa" a próxima
superprodução de Hollywood?
E se o filme for magnífico?
Flávio Koutzii é o candidato a deputado estadual deste amigo amigo aquí. E o número dele é 13113.