MIDI@LERTA
Os Jornais
08-01-2003
Vera Spolidoro estréia coluna política em O Sul
O Sul, assim, investe num diferencial a mais, em tempos de Lula lá: Vera Spolidoro, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, já foi coordenadora de Imprensa da Prefeitura de Porto Alegre, por muitos anos assessorou Tarso Genro e representa, pela primeira vez na história gaúcha, a chegada de um profissional assumidamente de esquerda como titular de uma coluna de notas políticas.
Não há exagero: muitos dos que dão palpite sobre o assunto na imprensa riograndense são assumidamente liberais ou neoliberais; outros tantos não têm coloração ideológica, ao menos em teoria.
Mas conforme tese acadêmica do jornalista Marco Antonio Schuster, a imprensa no RS, desde os tempos de A Federação, jamais contou em seus quadros com um colunista político, voltado aos temas locais, claramente de esquerda. Já era hora.
Parabéns, O Sul!
Escuta clandestina pode ter bisbilhotado a gestão Olívio, diz CP
Armando Burd, em sua coluna "Panorama Político", na pág.4 do Correio do Povo de hoje (08), na nota "Pergunta", faz um importante questionamento, a respeito dos três aparelhos de escuta clandestina descobertos no Palácio Piratini: quando foi realizada a última varredura pela Casa Militar do governo anterior? Burd argumenta que é até possível que as escutas tenham sido colocadas para "bisbilhotar a gestão Olívio, e esquecidos na hora de sair".
Na verdade, sua hipótese é tão válida quanto qualquer outra. Cabe à imprensa ficar em cima do lance, para ver se afinal chega-se aos autores de artifício tão imoral.
Já a Zero Hora de hoje, sobre o mesmo tema – ampla matéria na pág. 6 ("Piratini sofre tentativa de espionagem"), traz entrevista com o coronel Lauri Schröeder (que comandou a Casa Militar entre setembro de 2001 e novembro de 2002). E dá ao, menos em parte, a resposta pedida por Armando Burd, do Correio: "No meu período, não fizemos nenhuma verificação".
Schröeder chega a surprender pela ingenuidade em alguns trechos da entrevista: "(...) a própria empresa telefônica dá informação sobre suspeita de algum tipo de escuta". E essa: "Alguém entrar no palácio para colocar uma escuta é impossível, em função da segurança interna".
Então tá.
Comportamento do retrocesso humano
A polêmica sobre a mudança de comportamento da Brigada Militar, cristalizada no episódio dos quatro assaltantes mortos em confronto com policiais, está causando uma certa divisão na sociedade gaúcha, nos últimos dias. Um bom exemplo é a comparação de opiniões de dois colunistas da imprensa gaúcha.
De um lado, famoso por posições do tipo "Bandido bom é bandido morto", temos Rogério Mendelski. Em sua coluna de hoje em O Sul, apesar de utilizar alguns paliativos e dizer que "o enfrentamento não significa que estamos vivendo um novo tempo, onde vai imperar o sistema de Tolerância Zero", deixa clara sua posição, que na prática é mesmo tolerância zero. Mendelski, em seus programas na Rádio Gaúcha, em estilo esquadrão da morte implícito, comemorava cada vez que um bandido morria em confronto com policiais.
A colunista e editora de Política de Zero Hora, Rosane de Oliveira, por sua vez, ao analisar a ação policial que culminou com a morte dos assaltantes, levanta duas possibilidades: pode ter sido um incidente de percurso, onde os policias responderam ao fogo bandido, ou também pode ser uma mudança de comportamento da Brigada, que "estaria liberada para matar". Neste caso, de acordo com a colunista, "os gaúchos estariam divididos em dois grupos: os que aplaudem este novo comportamento da BM e aqueles que ficam estarrecidos com a perspectiva de o extermínio se consagrar como método de combate à criminalidade". Rosane de Oliveira alerta para riscos que o atual governo pode correr, no caso de se consagrar o método do extermínio, como o "Caso do Homem Errado", ou também para a morte de cidadãos em áreas de grande movimento, que possam ser atingidos por balas perdidas, inclusive disparadas por policiais. Vale ressaltar um pequeno trecho do texto de Rosane: "Combater a criminalidade sem apelar para a barbárie é o desafio dos governadores que tomaram posse em 1º de janeiro e do presidente da República."
Apenas para informar: ainda sobre o episódio desta semana, no centro de Porto Alegre, quando um bandido morreu, há notícia de que duas outras pessoas, pedestres que se encontravam nas redondezas, ficaram feridas à bala, na troca de tiros. No entanto, nenhum veículo deu destaque à informação.
Radical e trotsquista?
O colunista do Jornal do Comércio, Fernando Albrecht, na nota "Curiosidade americana" comenta que um jornalista americano do New York Times está em Porto Alegre para saber como é que o PT gaúcho perdeu as eleições "em um estado que é – ou foi – mundialmente considerado como pólo da esquerda radical e trotsquista".
Radical e trotsquista? Jornalistas conservadores, e conservadores em geral, não cessam de querer colar ao PT este tipo de rótulo – mais de 20 anos depois do Partido dos Trabalhadores ter sido fundado e após ter governado dezenas de cidades, capitais e estados brasileiros, sempre dentro dos princípios da lei e da Constituição. Aliás – diga-se de passagem, caso alguém tenha esquecido – mais dentro da lei, na imensa maioria dos casos, do que grande parte dos partidos e organizações conservadoras...
Banco Central: um falso consenso
A imprensa toda destacou, com razão, a posse do novo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que substitui a Armínio Fraga. Dos jornais gaúchos, Zero Hora deu a notícia na capa e acertou em cheio na questão mais importante, ao destacar a proposta de autonomia do Banco Central, defendida pelo novo presidente e pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Faltou, no entanto, o contraponto questionando a idéia, já que não há consenso a este respeito nem mesmo dentro do PT. Desde quando se começou a falar nisso, logo após o anúncio do ministério de Lula, a proposta vem transitando na imprensa como se não houvesse divergências a respeito.
Sem dúvida, o mercado financeiro, os que até ontem eram governo, a elite empresarial e adjacências do conservadorismo, aplaudem a idéia. Ainda que a autonomia não signifique independência total, como tenta mostrar Zero Hora, o fato é que já no governo FHC o Banco Central assumiu, de fato, o comando da economia brasileira. Tendo Meirelles, um ex-banqueiro, à frente do BC, e ainda autônomo, como é que fica a política econômica do novo governo? O jornal O Sul, por exemplo, chegou a colocar como título, na página 11: "Banco Central tem presidente novo, mas o discurso é o mesmo".
Por estas e outras, seria bom a imprensa abrir o debate, já que a proposta de autonomia precisa ser aprovada pelo Congresso, ouvindo outras opiniões além do governo, banqueiros e economistas ligados a eles. É um tema importante demais para os próximos anos do País, sobre o qual não se pode deixar passar um falso consenso, quando está em jogo nada menos que a proposta desenvolvimentista e de mudança que o povo elegeu.
Imprensa acorda para o Fórum Social Mundial
Finalmente, nesta semana, a imprensa gaúcha parece ter acordado definitivamente para o que promete ser o maior acontecimento do ano no RS, o Fórum Social Mundial, de 23 a 28 deste mês. Às vezes dá a impressão que as redações ainda não entenderam a dimensão deste evento. Mas, volta e meia sem o destaque merecido, o assunto vem sendo notícia nos últimos dias. Zero Hora de hoje chega a dedicar um editorial ao tema, no qual conclama a população a dedicar aos visitantes a mesma hospitalidade dos anos anteriores. Mesmo ressalvando uma suposta "carência de pluralismo" por ser um evento de esquerda, o jornal reconhece: "A visibilidade que esse evento deu a Porto Alegre retrata a importância das questões postas em debate, conferindo à capital gaúcha a condição de contraponto político e ideológico para a maneira como os países hegemônicos utilizaram e utilizam a liberdade de comércio, a supremacia tecnológica e as vantagens da globalização".
Assinar: assinar-midialerta@grupos.com.br
Cancelar assinatura: cancelar-midialerta@grupos.com.br
Indique seus amigos para: Administradores do Grupo: administradores-midialerta@grupos.com.br
Os Jornais
08-01-2003
Vera Spolidoro estréia coluna política em O Sul
O Sul, assim, investe num diferencial a mais, em tempos de Lula lá: Vera Spolidoro, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS, já foi coordenadora de Imprensa da Prefeitura de Porto Alegre, por muitos anos assessorou Tarso Genro e representa, pela primeira vez na história gaúcha, a chegada de um profissional assumidamente de esquerda como titular de uma coluna de notas políticas.
Não há exagero: muitos dos que dão palpite sobre o assunto na imprensa riograndense são assumidamente liberais ou neoliberais; outros tantos não têm coloração ideológica, ao menos em teoria.
Mas conforme tese acadêmica do jornalista Marco Antonio Schuster, a imprensa no RS, desde os tempos de A Federação, jamais contou em seus quadros com um colunista político, voltado aos temas locais, claramente de esquerda. Já era hora.
Parabéns, O Sul!
Escuta clandestina pode ter bisbilhotado a gestão Olívio, diz CP
Armando Burd, em sua coluna "Panorama Político", na pág.4 do Correio do Povo de hoje (08), na nota "Pergunta", faz um importante questionamento, a respeito dos três aparelhos de escuta clandestina descobertos no Palácio Piratini: quando foi realizada a última varredura pela Casa Militar do governo anterior? Burd argumenta que é até possível que as escutas tenham sido colocadas para "bisbilhotar a gestão Olívio, e esquecidos na hora de sair".
Na verdade, sua hipótese é tão válida quanto qualquer outra. Cabe à imprensa ficar em cima do lance, para ver se afinal chega-se aos autores de artifício tão imoral.
Já a Zero Hora de hoje, sobre o mesmo tema – ampla matéria na pág. 6 ("Piratini sofre tentativa de espionagem"), traz entrevista com o coronel Lauri Schröeder (que comandou a Casa Militar entre setembro de 2001 e novembro de 2002). E dá ao, menos em parte, a resposta pedida por Armando Burd, do Correio: "No meu período, não fizemos nenhuma verificação".
Schröeder chega a surprender pela ingenuidade em alguns trechos da entrevista: "(...) a própria empresa telefônica dá informação sobre suspeita de algum tipo de escuta". E essa: "Alguém entrar no palácio para colocar uma escuta é impossível, em função da segurança interna".
Então tá.
Comportamento do retrocesso humano
A polêmica sobre a mudança de comportamento da Brigada Militar, cristalizada no episódio dos quatro assaltantes mortos em confronto com policiais, está causando uma certa divisão na sociedade gaúcha, nos últimos dias. Um bom exemplo é a comparação de opiniões de dois colunistas da imprensa gaúcha.
De um lado, famoso por posições do tipo "Bandido bom é bandido morto", temos Rogério Mendelski. Em sua coluna de hoje em O Sul, apesar de utilizar alguns paliativos e dizer que "o enfrentamento não significa que estamos vivendo um novo tempo, onde vai imperar o sistema de Tolerância Zero", deixa clara sua posição, que na prática é mesmo tolerância zero. Mendelski, em seus programas na Rádio Gaúcha, em estilo esquadrão da morte implícito, comemorava cada vez que um bandido morria em confronto com policiais.
A colunista e editora de Política de Zero Hora, Rosane de Oliveira, por sua vez, ao analisar a ação policial que culminou com a morte dos assaltantes, levanta duas possibilidades: pode ter sido um incidente de percurso, onde os policias responderam ao fogo bandido, ou também pode ser uma mudança de comportamento da Brigada, que "estaria liberada para matar". Neste caso, de acordo com a colunista, "os gaúchos estariam divididos em dois grupos: os que aplaudem este novo comportamento da BM e aqueles que ficam estarrecidos com a perspectiva de o extermínio se consagrar como método de combate à criminalidade". Rosane de Oliveira alerta para riscos que o atual governo pode correr, no caso de se consagrar o método do extermínio, como o "Caso do Homem Errado", ou também para a morte de cidadãos em áreas de grande movimento, que possam ser atingidos por balas perdidas, inclusive disparadas por policiais. Vale ressaltar um pequeno trecho do texto de Rosane: "Combater a criminalidade sem apelar para a barbárie é o desafio dos governadores que tomaram posse em 1º de janeiro e do presidente da República."
Apenas para informar: ainda sobre o episódio desta semana, no centro de Porto Alegre, quando um bandido morreu, há notícia de que duas outras pessoas, pedestres que se encontravam nas redondezas, ficaram feridas à bala, na troca de tiros. No entanto, nenhum veículo deu destaque à informação.
Radical e trotsquista?
O colunista do Jornal do Comércio, Fernando Albrecht, na nota "Curiosidade americana" comenta que um jornalista americano do New York Times está em Porto Alegre para saber como é que o PT gaúcho perdeu as eleições "em um estado que é – ou foi – mundialmente considerado como pólo da esquerda radical e trotsquista".
Radical e trotsquista? Jornalistas conservadores, e conservadores em geral, não cessam de querer colar ao PT este tipo de rótulo – mais de 20 anos depois do Partido dos Trabalhadores ter sido fundado e após ter governado dezenas de cidades, capitais e estados brasileiros, sempre dentro dos princípios da lei e da Constituição. Aliás – diga-se de passagem, caso alguém tenha esquecido – mais dentro da lei, na imensa maioria dos casos, do que grande parte dos partidos e organizações conservadoras...
Banco Central: um falso consenso
A imprensa toda destacou, com razão, a posse do novo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que substitui a Armínio Fraga. Dos jornais gaúchos, Zero Hora deu a notícia na capa e acertou em cheio na questão mais importante, ao destacar a proposta de autonomia do Banco Central, defendida pelo novo presidente e pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Faltou, no entanto, o contraponto questionando a idéia, já que não há consenso a este respeito nem mesmo dentro do PT. Desde quando se começou a falar nisso, logo após o anúncio do ministério de Lula, a proposta vem transitando na imprensa como se não houvesse divergências a respeito.
Sem dúvida, o mercado financeiro, os que até ontem eram governo, a elite empresarial e adjacências do conservadorismo, aplaudem a idéia. Ainda que a autonomia não signifique independência total, como tenta mostrar Zero Hora, o fato é que já no governo FHC o Banco Central assumiu, de fato, o comando da economia brasileira. Tendo Meirelles, um ex-banqueiro, à frente do BC, e ainda autônomo, como é que fica a política econômica do novo governo? O jornal O Sul, por exemplo, chegou a colocar como título, na página 11: "Banco Central tem presidente novo, mas o discurso é o mesmo".
Por estas e outras, seria bom a imprensa abrir o debate, já que a proposta de autonomia precisa ser aprovada pelo Congresso, ouvindo outras opiniões além do governo, banqueiros e economistas ligados a eles. É um tema importante demais para os próximos anos do País, sobre o qual não se pode deixar passar um falso consenso, quando está em jogo nada menos que a proposta desenvolvimentista e de mudança que o povo elegeu.
Imprensa acorda para o Fórum Social Mundial
Finalmente, nesta semana, a imprensa gaúcha parece ter acordado definitivamente para o que promete ser o maior acontecimento do ano no RS, o Fórum Social Mundial, de 23 a 28 deste mês. Às vezes dá a impressão que as redações ainda não entenderam a dimensão deste evento. Mas, volta e meia sem o destaque merecido, o assunto vem sendo notícia nos últimos dias. Zero Hora de hoje chega a dedicar um editorial ao tema, no qual conclama a população a dedicar aos visitantes a mesma hospitalidade dos anos anteriores. Mesmo ressalvando uma suposta "carência de pluralismo" por ser um evento de esquerda, o jornal reconhece: "A visibilidade que esse evento deu a Porto Alegre retrata a importância das questões postas em debate, conferindo à capital gaúcha a condição de contraponto político e ideológico para a maneira como os países hegemônicos utilizaram e utilizam a liberdade de comércio, a supremacia tecnológica e as vantagens da globalização".
Assinar: assinar-midialerta@grupos.com.br
Cancelar assinatura: cancelar-midialerta@grupos.com.br
Indique seus amigos para: Administradores do Grupo: administradores-midialerta@grupos.com.br
