Meditações sobre 27 de outubro de 2002
Por Pedrinho A. Guareschi *
Vários amigos(as) me perguntaram sobre o resultado das eleições. Dividido entre estar feliz e uma santa indignação, respondo a todos que acertei nos dois prognósticos: quem ganhou a eleição em nível nacional foi Lula, e a nível de RS foi a RBS. Essa afirmação pode ser chocante e precisa ser justificada, principalmente sua segunda parte. Claro que não estou afirmando aqui que a RBS tenha tanto poder assim! Seria exagerar seu poderio. Mas ao mesmo tempo estou convencido que não podemos ser ingênuos e ficar calados, como se tudo tivesse corrido bem. Não. Vejo uma obrigação moral de apresentar a reflexão que segue, pois estou convicto que algo nessa direção deve ser feito, caso queiramos uma sociedade e uma comunicação mais participativa e democrática.
Antes de começar, um ponto importante: como disse acima, se acho exagerado atribuir uma vitória à RBS, por isso mesmo acho também exagerado dizer que não houve razões que ajudassem a se criar um clima negativo contra a esquerda em geral, e o PT em particular. Mas vale aqui a lei do estereótipo: se é verdade que em todo o estereotipo há sinais, ou sementes, de verdade, o estereótipo como tal toma esse estereótipo e o amplia e o multiplica por milhares de vezes. E esse é exatamente o que quero discutir: a maneira como a mídia toma pequenos indicadores e os amplia, construindo a partir deles toda uma REPRESENTAÇÃO SOCIAL negativa e pejorativa.
Há pelo menos dois anos vinha alertando que, caso não acontecesse algo de especial, o PT perderia as eleições no RS, pois alguém (há sempre pessoas humanas por detrás das instituições) já vinha fazendo CAMPANHA SISTEMÁTICA há dois anos, isto é, desde 1999, contra o Governo Olívio. E essa campanha se prolongou pelos quatro anos, dia a dia, momento a momento, em doses homeopáticas, construindo uma representação social nítida, eficiente, que se tornou A REALIDADE política do RS.
Estou convencido de que não se prestou atenção suficiente a essa variável: a MÍDIA, sintetizada aqui, admiravelmente, pela RBS. Quem analisasse detalhadamente as informações, podia perceber nitidamente que estava sendo criada uma REPRESENTAÇÃO SOCIAL fortemente negativa, desacreditada e pejorativa de ao menos quatro instâncias da vida social e política gaúcha: o próprio Governo Olívio (a pergunta que se fazia, quase diariamente, era "quando Olívio começaria a governar, que ainda nem existia um Plano de Governo..."), do Partido dos Trabalhadores - pintado como o partido do "ódio" -, da questão da segurança pública (incluindo o próprio Secretário da Segurança, o incentivo à divisão e ao conflito entre os órgãos de segurança, as notícias diárias e chocantes sobre crimes e violência como se isso fosse marca exclusiva do RS, etc.), e o Movimento dos Sem Terra (MST), sobre o qual se descarregavam as notícias mais escabrosas e chocantes que aterrorizam qualquer proprietário de casa e terra, por pequeno e pobre que seja, e ferem a sensibilidade de qualquer cidadão comum, como o fato de alguém "ser acordado de madrugada, com uma arma no ouvido, vendo seu cachorro morto e sua vaca de estimação carneada..." (Mendeslki, Rádio Gaúcha, 20 de outubro).
Na verdade, essas são as quatro questões que, ao se perguntar por que determinada pessoa não votaria em Tarso, foram mais freqüentemente apresentadas. Repito que pode haver sementes, ou indícios, de algo real na conduta de tais organizações, mas a REPRESENTAÇÃO SOCIAL construída a partir daí tomou uma dimensão exageradamente disforme, que não correspondia mais à realidade dos fatos.
O episódio da CPI da segurança, que se transformou numa CPI político-partidária contra o governo e o PT, com o patrocínio de muitos políticos que não sabiam mais como impedir a implementação de um novo projeto político e social realmente novo, nos moldes do projeto político que Lula e o PT planejam desenvolver a nível nacional, serviu como carreador dessas idéias, que foram ampliadas e difundidas de todos os modos, por todos os recantos, em todos os momentos (inclusive durante a campanha), principalmente pela RBS. Os estudos mencionados ao final confirmam tal afirmação.
Minha santa indignação provém do fato de que não se pode continuar com uma mídia que, de maneira geral, não cumpre sua tarefa fundamental que é ser responsável por um "serviço público", como diz a Constituição de 1988, que ajude a promover o debate nacional a partir de todas as instâncias da sociedade organizada, isto é, da sociedade civil. Creio que é esse o problema fundamental que hoje sofremos com respeito a nossa mídia. Lembrando o querido Betinho (Herbert de Souza), gostaria de trazer sua afirmação, continuamente repetida nos últimos anos de sua vida: O termômetro que mede a democracia numa sociedade, é o mesmo que mede a participação dos cidadãos(ãs) na comunicação: sem que haja possibilidade de todos dizerem sua palavra, expressaram seu pensamento, manifestarem sua opinião, não é possível uma verdadeira democracia, e corremos o risco de viver uma sociedade fascista, onde apenas alguns têm voz e vez.
Gostaria de terminar com algumas perguntas aos colegas:
Estaria nossa mídia (e penso de modo especial na RBS) desempenhando essa tarefa primordial de porta-voz de toda uma sociedade, como todo serviço público deveria ser? Dentro dessa questão, por exemplo, questionaria um fato corriqueiro: será que alguém que trabalha numa empresa de comunicação (rádio e TV), sabe quando termina a concessão de funcionamento dessa rádio ou TV? E se não sabe, por que não sabe, se isso é crucial? E mais: por que a mídia não discute a mídia?
Segundo: até quando se pode aceitar, por exemplo, pensando em termos de uma sociedade democrática e pluralista, que um candidato (atualmente senador) "possua" um meio de comunicação (no caso, uma rádio), para sua projeção pessoal e conseqüente influência política? É isso concebível dentro do referencial de uma comunicação como serviço público que deve ser porta-voz de TODA a sociedade, de maneira democrática e plural? E que dizer da afirmação do próprio candidato de que pretende permanecer três dias em Brasília, para suas tarefas como senador, e quatro dias no Rio Grande do Sul, para falar em "sua" rádio?
Que dizer do último escândalo midiático de determinado Instituto de Pesquisa apresentar, cinco dias antes da eleição, que a diferença entre dois candidatos seria de 23 pontos; dois dias antes da eleição dizer que seria de 16 pontos; no dia da eleição, com pesqusa de boca de urna, dizer que seria de 12 pontos; e na confirmação das urnas, constatar-se que foi de 5,6 pontos? Que dizer de comentaristas que, ao sair a boca de urna, virem de imediato a público dizendo, sem que ninguém lhes tenha solicitado, que o Instituto estava correto, pois entre 16 e 12 pontos de diferença, com margem de erro de 2,2, o Instituto ainda estaria correto? Por que tanto interesse em defender o Instituto antes da contagem dos votos? E que dizer dos mesmos comentaristas que, após a apuração, ao se constatar que a diferença de boca de urna e dos resultados reais tinha sido de 6,7, com margem de erro de 2 pontos, não comentarem absolutamente nada, permanecendo calados? Mas, ao se constatar o escândalo, a primeira ?desculpa?, tentando justificar o que não tem justificação, ter sido esta: "a RBS não faz pesquisas, ela apenas contrata pesquisas de outros Institutos". É essa uma justificativa que explique, diante das defesas feitas ao Instituto anteriormente?
Mesmo nesse último caso, o de apenas contratar pesquisas, deveríamos fazer duas observações: primeiro, o que significa "contratar" pesquisas? Quais os direitos que o contratante tem sobre o produto? Além do direito de publicar ou não, é ele que decide também sobre as margens de erro? Tudo isso continua obscuro. Segundo: diante de aberrações indiscutíveis, tal empresa deveria questionar-se seriamente sobre a capacidade e a honestidade de tal Instituto. A conclusão a que se chega é que se uma empresa continua a contratar serviços de um Instituto assim, certamente não estaria trilhando por caminhos sérios e responsáveis
É por tudo isso que estou, nessa manhã de 28 de outubro, parte feliz e parte indignado com mais essa página de nossa história. Continuaremos assistindo a tais fenômenos, ou "outra comunicação é possível?"
* Professor do Depto. de Psicologia da PUC/RS
Se alguém quiser referências mais claras sobre o que foi discutido acima, pode encontrá-las num livro que organizei, "Os Construtores da Informação - Meios de Comunicação, Ideologia e Ética" (Petrópolis, Vozes, 2000), que aborda especificamente tais questões. Há nele diversos exemplos de como se faz a construção de uma Representação Social, como: "Essa Gentalha Infeliz: A Representação Social dos Sem Terra Segundo Mendelski", pp. 199-232 e "Patológico, Cinzento e Perdido: a Representação Social do PT segundo Mendelski", pp. 177-198 e ainda: "Como a Página 10 viu a propaganda eleitoral" , pp. 233-242, de Giba Assis Brasil). Outro livro também muito útil é o de Patrick Champagne, "Formar Opinião - o novo jogo político" (Petrópolis: Vozes, 1998), especificamente sobre como as pesquisas eleitorais formam opinião.