sexta-feira, novembro 01, 2002

E como hoje
é sexta...


Dia internacional da matação de serviço em frente a um monitor de computador...

Clica alí ó...

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Cenas de violência na campanha gaúcha


Por FLAVIO KOUTZII, deputado estadual reeleito pelo Partido dos Trabalhadores.


Violência vem do latim, "violentia". Diz-se da qualidade
de violento, "qualidade do que atua com força ou grande
impulso; força, ímpeto, impetuosidade". Também
significa opressão, tirania, veemência, irrascibilidade,
"qualquer força empregada contra a vontade, liberdade ou
resistência". No Direito, violência é o
constrangimento, físico ou moral, exercido sobre alguma
pessoa para obrigá-la a submeter-se à vontade de outra,
a chamada coação. Nos grotões do Brasil, sobretudo no
Norte e Nordeste, a violência contra adversários
políticos manifesta-se na eliminação física do
corpo: líderes rurais são mortos a tiros, líderes
sindicais são presos sem julgamento. No Sul Maravilha, o
Rio Grande do Sul assistiu nesta campanha eleitoral aos
resultados de uma forma ultra-sofisticada de violência
política. Uma forma quase impalpável, mas não menos
assustadora do que a pedofilia na Internet ou a
contratação de jagunços para eliminar do caminho os
que pensam diferente.

O erro do Ibope nas pesquisas para governador, admitido pelo
seu diretor com uma frieza insuportável para os militantes
do PT que doaram o sangue nas últimas 72 horas de
campanha, esse erro estatístico, com método, fechou um
prolongado ciclo de violências verbais e virtuais
direcionadas ao governo de Olívio Dutra. A oposição
raivosa que abriu fogo desde janeiro de 1999 contra uma
inédita experiência de esquerda na administração
pública estadual foi diariamente estimulada por setores da
mídia gaúcha. Poderia ter sido diferente. Com noções
básicas de equilíbrio nos pontos de vista, radialistas,
comentaristas políticos e entrevistadores em geral
poderiam ter contido ou pelo menos questionado a
irrascibilidade de muitas manifestações contra o governo
petista.

Mas não. Quase sempre, da madrugada à noite, a mídia e
seus porta-vozes incentivaram o constrangimento moral, ao
vivo ou impresso, que obrigava ouvintes e leitores a tachar
as ações petistas de excessivamente partidárias,
sectárias, promotoras de um retrocesso na economia que
não houve. A analogia estapafúrdia, e absolutamente
primária, para a Ciência Política, do governo de
Olívio Dutra com o "totalitarismo" europeu da primeira
metade do século 20 ganhou espaços nobre na mídia
impressa. As omissões na hora de questionar as vozes
discordantes foram tantas que recentemente o ministro da
Agricultura, Pratini de Moraes, permitiu-se em cerimônia
pública dar a ofensiva declaração "é preciso
erradicar o PT", sabendo que os receptores da mensagem não
só não se escandalizaram como exultariam com a
violência do verbo. Erradicar é sinônimo de arrancar,
"fazer sair puxando, tirar, extirpar, extrair com força e
violência", e ainda "obrigar a romper, conseguir com muita
insistência e importunação, fazer agonizar". O
analfabetismo, a fome ou mesmo doenças podem ser
erradicados. Ninguém ousou classificar a fala do ministro
de autoritária ou preconceituosa, ainda que tenha sido de
uma raiva inédita comparar a uma praga a ser banida o
partido de Olívio Dutra, o governador dos gaúchos desde
1999.

O erro monumental do Ibope ajudou a eleger Rigotto
violentando, coagindo a vontade de milhares de eleitores que
eventualmente prefeririam reeleger o projeto da Frente
Popular (e um governador do mesmo partido do presidente
Lula), mas se descobriram perdedores com antecedência.
Faltando apenas oito dias para o pleito, a pesquisa que
apontou Rigotto com 23 pontos à frente de Tarso obteve
imediatamente uma divulgação de massa não só nos
veículos da RBS mas em praças públicas do Estado. Em
Gravataí, por exemplo, militantes do PMDB citavam a
pesquisa para proclamar com megafones que Rigotto já
estava eleito, numa maratona que se demorou por horas no
domingo, dia 20 de outubro. Essa pesquisa, essa vasta e
desanimadora distância entre os dois candidatos a
governador, que paralisou a militância petista por um
tempo irrecuperável, estava errada, como o Ibope admitiu
nos últimos instantes da apuração no Estado. Antes de
publicar a pesquisa, na edição dominical, Zero Hora
poderia ter estranhado os os números e questionado-os
junto ao instituto, porque na noite de sexta a Rádio
Guaíba já anunciava uma distância três vezes menor,
de apenas oito pontos (51% a 43%), segundo levantamento do
Correio do Povo.

Causa estupor até agora o cinismo da admissão dos erros,
em entrevista do diretor do Ibope à TVCOM, publicada por
Zero Hora na segunda, dia 28. "Acho que escapou da margem de
erro e tivemos um problema no final", disse Carlos
Montenegro. Nos mesmos dias da sondagem, um instituto
encontra oito pontos de diferença e outro catapulta a
dianteira do adversário do PT para quase o triplo, depois
a boca-de-urna erra pelo dobro dos pontos percentuais (12% a
5,5%), e o diretor "acha que escapou da margem de erro"? A
declaração mais preocupante ainda viria a seguir, quando
o Ibope é indagado sobre a responsabilidade da RBS no
episódio do erro monumental divulgado massivamente e
responde "zero". Talvez a transcrição correta da fala
seria "Zero (risos)." Ou melhor: "Zero (risos de
escárnio"). Em seu descaramento, o diretor ainda revela
que a emissora "não sabe qual é a forma do Ibope
trabalhar". Que horror. E não deveria saber, se
interessar, pelo menos? Imagine o New York Times ou o Le
Monde ou a Folha de S.Paulo fazendo essa admissão
pública de que seus editores não têm pista sobre como
funciona a metodologia das sondagens cujos resultados
oferecem aos seus leitores desde a capa.

A violência simbólica da desfaçatez que resultou numa
eleição real e na retirada do PT do Palácio Piratini
prossegue nessa entrevista antológica: "Eu não tenho a
verdade absoluta, porque você não pode com 3 mil pessoas
acertar tudo", diz o diretor do instituto, referindo-se ao
universo da boca-de-urna. Em 7 de julho, primeiro domingo da
campanha nas ruas, o Ibope mostrava Britto seis pontos à
frente de Tarso tendo ouvido apenas mil eleitores. Dá para
concluir que aquela pesquisa que deu a largada nas
doações financeiras aos candidatos e na reprovação
com números ao governo do Estado (já que segundo a
pesquisa Tarso não estava à frente) tinha exatamente um
terço da credibilidade de uma boca de urna que errou em
100%. E a RBS ainda se exime de qualquer responsabilidade
nesse festival de manipulações e posa de ofendida quando
o PT reclama. Irresponsáveis, para a RBS, são sempre as
nossas críticas. Não parece ser irresponsável divulgar
uma pesquisa sem saber como o Ibope trabalha.

A história política do Rio Grande do Sul ainda está a
merecer, da parte de setores importantes da mídia, uma
análise mais acurada, menos equivocada, menos
contraditória, menos autoritária. A mesma rede que
estimulou o antipetismo ao longo de quatro anos, por meio da
fala irada, veemente, irrascível, de alguns de seus
radialistas e de seus entrevistados, agora prega a
"pacificação da sociedade traumatizada por embates
estéreis" em seu editorial de 28 de outubro. O editorial
desse dia está a merecer, aliás, um artigo inteiro. O
texto reproduz praticamente TODOS os chavões dos ataques
da oposição ao PT (a perda da Ford, a tensão no campo,
a politização da Brigada Militar, o caos na segurança
pública) e, também igualzinho ao discurso da
oposição, consegue não citar nada de positivo num
governo que obteve nas urnas 47% dos votos válidos. Talvez
seja cedo para pedir "luz própria" (qualidade que o jornal
atribui ao recém-eleito Rigotto, o candidato do slogan
"Segue teu coração") a editorialistas que aparentemente
reduzem suas leituras e sua compreensão do mundo à
linguagem simplória dos panfletos do PPS, mas já é
urgente pedir um pouco mais de honestidade intelectual.

Traduzindo, um pouco de senso do ridículo já seria
saudável. Leitores que preferem o PT para governar (e
desde domingo somos mais de 52 milhões no país e 2
milhões 829 mil no Estado) também merecem ver respeitada
a sua inteligência. Respeito é um belo antídoto à
peçonha da violência.

MIDI@LERTA

Os Jornais

31-10-2002









Corsan: "denúncias" levam

para as águas da privatização



A condenação ao presidente da Corsan, pelo Tribunal de Contas do Estado, que considerou ter havido favorecimento na contratação de escritórios de advogados pela estatal, mereceu ampla divulgação de Zero Hora de hoje (31).(Seguindo o comportamento da RBS TV e rádio Gaúcha, que deram a notícia em todos os espaços jornalísticos, do Mendelski ao Lasier, passando pelo Chamada Geral e Jornal do Almoço).

A matéria abre a pág. 17, com o título "TCE condena presidente da Corsan a devolver R$ 2,6 milhões" e linha de apoio: "Contas Públicas ? Dieter Wartchow contratou advogados sem fazer licitação". Embora tenha publicado ao lado, como "Contraponto", a íntegra da nota de esclarecimento da Corsan, o jornal não dá qualquer destaque a um ponto fundamental, base da argumentação da diretoria da empresa: a de que a empresa, por ser de economia mista, pode sim fazer contratos sem licitação.

Ou seja: não haveria ilegalidade. E mais: também não deu-se espaço compatível ao fato de que os escritórios de advogados ? agora envolvidos na "denúncia" em pleno governo do PT ? são os mesmíssimos que já eram contratados pela Corsan desde 1992, no governo Collares, passando pelo governo Britto.

E pior: a contratação seguiu os mesmos procedimentos legais adotados pela Corsan também antes de 1999.

Quer dizer, cresce a suspeita de fabricação política de desgaste ao atual governo estadual e ao PT. Não fosse assim, porque estes mesmos procedimentos nunca haviam sido "denunciados" durante governos anteriores?

O Sul deu página inteira ao assunto (pág. 7) com o título: "Corsan nega favorecimento a escritório de advocacia". A matéria está equilibrada e dá o devido destaque à versão da diretoria da Corsan.

Já o Jornal do Comércio noticiou o fato apenas em pequena nota no canto interno da pág. 21, com o título "TC divulga decisão contra a Corsan". Ou seja: deu o assunto a importância que de fato parece ter ? uma questão administrativa e de interpretação da lei, sem a utilização política escandalosa que recebeu de outros veículos.

Vale repetir: a pergunta que a imprensa portoalegrense não quer ou não se lembrou de fazer é a seguinte: por que só agora sai "denúncia" e condenação da presidência da Corsan se, historicamente, este procedimento sempre foi adotado pela estatal e ninguém viu qualquer ilegalidade nisso?

Não é demais lembrar que a água é um bem cada vez mais precioso num mundo crescentemente ameaçado pela poluição de seus cursos d?água. E que a hoje saneada e lucrativa Corsan há muito tempo merece um olhar ganancioso do grande capital.

A tática das denúncias amplificadas por uma mídia cooperativa levam água ? sem trocadilho ? para o grande lago mal parado e poluído da privatização.

Novo governador privilegia informação para a RBS

"Lula promete a Rigotto não discriminar o RS". A manchete de Zero Hora de hoje (31) foi exclusiva ? nenhum outro jornal gaúcho noticiou. O que sinaliza algumas coisinhas:

Zero Hora passa a ter tratamento diferenciado (na realidade, privilegiado) do governador eleito do Estado ? como acontecia no tempo de Britto e como não aconteceu no tempo de Olívio, que tratou, e trata, todas as empresas de comunicação do mesmo modo.
Pedro Simon, que teria mediado a ligação de Lula para Rigotto, parece querer se lançar como o grande interlocutor do próximo governo gaúcho com o governo federal de Luiz Inácio.

Ficam as questões: por que Rigotto teria avisado do telefonema presidencial apenas a RBS, ou mais precisamente José Barrionuevo? O que os demais veículos de comunicação do RS acham disso?





Jingle de Rigotto agora é

institucional da Rádio Gaúcha

Aliás, escute essa:

"Vem, pra fazer mais/ vem, traz a paixão..." Se alguém pensa que é o jingle de Germano Rigotto, acertou, mas se alguém falar que é uma propaganda institucional da rádio Gaúcha, acertará também. É incrível, mas é verdade. A autodenominada "fonte da informação" está usando o jingle de Germano Rigotto e também de Lula, os vencedores do pleito no Estado, para "dar credibilidade à programação". Uma forma e agradar gregos e troianos, republicanos e maragatos, além de gremistas e colorados.

A propósito, alguém lembra, no final da campanha de 98, de ter ouvido na mesma rádio Gaúcha o jingle de Olívio Dutra "pega a bandeira/ vem pra rua/ vem participar..."?



O Sul superfaturou show de Zezé di Camargo e Luciano

Quem apenas lê o título da página 19 do jornal O Sul de hoje (31) sai com a idéia de que o PT pagou um preço muito alto para ter a dupla no palco. Leia o título: "Campanha do PT para eleições pagou R$ 1.275.000,00 para ter Zezé Di Camargo e Luciano em showmício."

Ora, como informa o corpo da matéria, foram no total 17 ? dezessete - shows pelo Brasil, 11 no primeiro turno e seis no segundo. A dupla de artistas cobrou R$ 75 mil por apresentação, a metade do que normalmente cobra, que é R$ 150 mil. O valor cobrado foi, principalmente, para pagar despesas com equipamentos e transporte.

Como a própria matéria diz, outros candidatos ofereceram bem mais do que o PT pagou à dupla sertaneja. A cantora Elba Ramalho teria cobrado R$ 500 mil para aparecer na campanha de José Serra, segurando uma carteira de trabalho.

Mas o mais significativo de tudo está no final da matéria: Rogério Schlegel, da campanha de Serra, reconhece que seus artistas "ganhavam cachê", mas diz que "a campanha está proibida por contrato de divulgar valores". Ou seja: o PT "apanha" da imprensa porque divulga transparentemente o quanto gastou com os artistas na campanha; já quem sonegou a informação, não recebe nenhum comentário crítico da mesma mídia.

Real: a moeda é nova mas

para O Sul está bem acabada

O Sul não pára de surpreender seus leitores, por sua criatividade, clareza e exatidão de informações. O título da matéria que abre sua pág. 22 de hoje é exemplar: "Real tem a mais baixa cotação dos últimos 30 anos". Considerando que o chamado Plano Real surgiu no governo Itamar ? há cerca de dez anos ? só podemos concluir que, em lugar de "Real", o redator de O Sul quis dizer "moeda brasileira". O resto é licença poética.



ALCA e bundas


O protesto gráfico contra a Alca, veiculado pelo O Sul (p.24) de ontem (30) mostra duas bundas jovens, dividindo entre si, lado a lado, as quatro letras da suspeita Área de Livre Comércio das Américas. A bunda à esquerda, longilínea, leva um A na nádega esquerda e L na direita. A da direita, C e A. Pintadas em vermelho nas rosadas bundas, contornos azuis, as letras separam-se em blocos, sugestivamente. Como na economia. Lembram o quanto a mídia hegemônica tem dependido do visual básico para divulgar as questões de fundo.


A legenda é da AG. Agência Globo? A foto é de Martin Bernetti, AFP. Agence France Presse? Segundo O Sul, os "Protestos em Quito" têm a ver com um "acordo comercial que pretende ?implantar? os Estados Unidos" (sic). Uáu. O acordo quer implantar os EUA onde? No meio do Equador? Do mercado? Da Amazônia? Da mente de Bush?


Confusão temporal

Manchete no futuro, foto no passado, recorde inflacionário no presente. Assim é a capa de O Sul hoje (31). "Lula se reunirá com todos os partidos." Manchete definitiva, com ponto final, no futuro. Foto de Lula rodeado por deputados que o observam apertando a mão de outro deputado sem nome. O leitor que reconhecer o neto de Tancredo, que reconheça. A legenda longa só traz nomes de quem não está na foto, salvo Lula, que está em todas. "... José Dirceu informou ontem que Lula (na foto durante a visita de terça-feira à Câmara dos Deputados) ... " Hoje é quinta-feira. E a linha que nivela a página por baixo: "Inflação bate recorde em outubro: 3,87%." No presente, e novo ponto final. Então, tá.



Cadê a discussão do escândalo das pesquisas?


Muito se tem falado da RBS, grande eleitora e vitoriosa nessas eleições ao Governo do RS. O problema, com a tentacular concessionária de serviços públicos de informação, RBS, é confundir esses serviços com os seus interesses exclusivos. A propósito, que fim levou o escândalo sobre os assombrosos nas pesquisas eleitorais e de boca-de-urna encomendadas pela RBS?


Alca e Bush


Por falar em Alca, hoje (31) ZH abre manchete (p.4) para Lula e o livre comércio: "Alca entra na agenda de Lula ? Presidente eleito discutiu a Área Livre de Comércio com a embaixadora dos EUA no Brasil, Donna Hrinak". Jornal sério, ao invés de expor traseiros humanos (nota anterior) ZH exibe foto de cidadãos equatorianos queimando uma bandeira americana em frente a uma lanchonete McDonald´s.


Para a mídia hegemonista do mundo inteiro, atos simbólicos como este são o supra-sumo da violência. Medidas pela exposição nos meios de comunicação, a indignação neoliberal pela queima de um objeto sagrado do mercado é maior do que a indignação pela queima de um ser vivo. Basta lembrar a repercussão nos órgãos da RBS dos tristes episódios do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, ensopado com gasolina e incendiado na noite de 20 de abril de 1997 em Brasília, e dos relógios da Globo, depredados pelo Brasil, um deles aqui nos Pampas, em 22 de abril de 2000.


ZH subiu nas tamancas até quando, na Bahia, índios "descarregaram sua fúria sobre o relógio dos 500 anos .." (ZH, 24/04/2000, p.48). Quando será a vez da Alca? Como a civilizada mídia hegemônica desvinculará um sim eventual à Alca de um letal sim para a guerra de Bush?



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quinta-feira, outubro 31, 2002




Esquerda lançará jornal semanal de circulação nacional em 2003

Fonte: AssessoCom

Com previsão de lançamento para o final de janeiro de 2003, durante a terceira edição do "Fórum Social Mundial", o jornal "Brasil de Fato" baseará seu perfil editorial no "Projeto Popular para o Brasil", documento produzido pelos movimentos sociais e populares do país, entre eles o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

De acordo com o site "Comunique-se", a decisão partiu de um grupo de entidades e intelectuais que pretende trazer sua visão sobre a realidade do país em um veículo próprio. A publicação semanal terá 24 páginas e distribuição inicial de 100 mil exemplares por todo o país. As quatro editorias - Nacional, Internacional, Cultura e Esporte -, vão se reportar ao editor-chefe, José Arbex Jr., e a um Comitê Editorial integrado por 12 representantes dos movimentos que sustentarão o projeto.

O comitê, por sua vez, estará subordinado às decisões de aproximadamente 80 representantes dos mais diferentes segmentos do Conselho Político, que terá comitês apoiadores em todo o país que trabalhando na captação de recursos, na distribuição e no estímulo à participação de colaboradores. O novo jornal está aceitando doações. Informações podem ser obtidas através do e-mail: brasildefato@cidadania.org.br
A dica de site para hoje.

É o da ATTAC / RS .

Obviamente, este não precisa de descrição.
Agenda

Pra quem pediu, aí está:

31 de outubro – Dia Continental de Resistência Contra a Alca. 11h, Concentração no Largo Glênio Peres para passeata pelas ruas do Centro de Porto Alegre.

2 de novembro, 17h30min – Reprise da entrevista com o jornalista, coordenador do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e membro do Conselho de Comunicação Social Daniel Herz no Programa Livre Expressão do Canal Comunitário - 14 da NET Porto Alegre - no espaço da CUT e do Sindicato dos Jornalistas do RS.

2 e 3 de novembro – Plenária Nacional da Juventude do FSM para a Organização do III Acampamento Intercontinental da Juventude - FSM 2003, no Auditório do Hotel San Raphael, Lgo. do Arouche, 150 - Sâo Paulo (próximo da estação República do Metrô).

6 a 10 de novembro – Fórum Social Europeu, em Florença. Fórum preparatório ao III Fórum Social Mundial. Inscrições podem ser feitas pelo site www.fse-esf.org.

7 de novembro – 14h, Reunião da Comissão Estadual de Combate à Discriminação Racial da CUT, na sede da CUT/RS.

14 a 17 de novembro – 8º Curso de Atualização "Comunicação Sindical e Comunitária", com equipe do Núcleo Piratininga de Comunicação e convidados, no Rio de Janeiro. Últimas vagas. Contatos pelos fones (21) 2220-56-18 e 3686-1693. Confira a programação em http://www.piratininga.org.br

19 de novembro – 18h, Seminário Reparações, no Sindisprev/RS (Travessa Francisco Leonardo Truda, 40 15º andar).

25 a 28 de novembro – Encontro hemisférico de luta contra a ALCA, em Havana, Cuba. Inscrições abertas. Informações sobre a programação e sobre formas de hospedagem podem ser solicitadas através do site jubileubrasil@caritasbrasileria.org




quarta-feira, outubro 30, 2002

Ainda Lula...



Vamos comemorar o tempo em que o Estado deixa de ser o pai dos pobres e o amigo dos ricos para se tornar instrumento de poder da sociedade...


Muito obrigado, Brasil

Publicado hoje na Pagina/12 (Argentina)
Por J. M. Pasquini Durán

Desde este país, estragado por el escepticismo, la melancolía y la pobreza, hay que agradecer a los sesenta millones de brasileños que lograron vencer al miedo con la esperanza. Corrieron el riesgo de abrir un rumbo inédito y, con esa determinación pacífica pero firme, quebraron en las urnas la influencia hegemónica de las derechas agrupadas durante el último cuarto de siglo alrededor de las teorías neoliberales.

En su primer pronunciamiento formal como presidente electo, ayer Lula da Silva expuso las aspiraciones generales del gobierno que fundará el primer día del próximo año. Al repasar sus enunciados, es fácil reconocer un programa de demandas que podría ser bandera común de América latina. Habló en especial de los excluidos, los humillados y los ofendidos y aseguró que cumplirá el sueño de su vida si cada compatriota suyo toma café a la mañana, almuerza y cena cada día, sin excepción. También hay que agradecerle por recordar que la política es un instrumento apto para honrar la vida.
Ratificó en el mismo mensaje que el PT, su partido, es “un partido de izquierda”, definición que seguro sobresaltó a más de uno, después de tantos años de políticos vergonzantes disputando entre sí para ver cuál de ellos es más de centro. Quedó dicho, encima, a contrapelo de todos los que se corren a la derecha para ser invitados a los salones de Washington aunque tengan que renunciar a la dignidad de sus trayectorias partidarias. Aún más importante que lo diga Lula, el presidente, es que millones de brasileños latieron para el mismo lado a la hora de elegir y echaron a volar los sueños sobre un bosque de banderas rojas con la estrella de cinco puntas en el centro. Aunque a veces el mundo parezca decir lo contrario, todavía se puede llegar al gobierno sin renunciar a la izquierda.
Para aumentar sus chances de victoria, el PT hizo una política de alianzas que fue motivo de controversias entre sus partidarios y amigos. Para gobernar, debido a la composición del Congreso y de las gobernaciones, en adelante tendrá que negociar consensos con aliados y adversarios, ya que no tiene mayorías propias. Con esa facilidad para extrapolar experiencias incomparables, aquí en Buenos Aires algunos recordaron la frustración de la Alianza, como si pudieran equipararse, y otros hicieron sonar voces de escandalizada alarma por esas “impurezas”.
Resulta curioso que nadie, ni siquiera los más críticos, se atreva a negar que para cambiar el rumbo en América latina ninguna fuerza tiene la potencia suficiente y necesita el concurso de aliados, pero a la hora de elegirlos quieren encontrarlos mirándose en el espejo para que sean idénticos y, si son diferentes en algo, ya no serán socios sino subordinados. Ojalá el intento en Brasil, incluso en esto, pueda abrir otro sendero en los matorrales de tanta impotencia o frustración acumuladas.

La euforia de algunos personajes de la política local por el triunfo del PT suena, primero, a pura hipocresía, ya que no existe identificación de ningún tipo. Puede agregarse una dosis de oportunismo con el vencedor y, además, no faltan quienes creen que la Casa Blanca, ante un franco adversario ideológico, apreciará mejor a los que se esfuerzan tanto por ser amigos para lo que guste mandar. Más allá de estas mezquinas especulaciones, con seguridad habrá políticos que entenderán que este suceso en Brasil cambiará la calidad de la situación en el Mercosur, fundamental para Argentina, y en la región. Hasta podría ser un acicate para los que necesitan romper los moldes de la vieja política, con menos consignas simplistas y más creatividad democrática y transformadora.

¿Es mucho esperar? Es posible, pero es el efecto alentador que producen los actos de esperanza. Mientras en Washington y Moscú, los jerarcas del mundo piensan en “soluciones” de muerte, en este extremo de Occidente un gigante moreno resolvió optar por el optimismo de la vida. El futuro dirá si el presidente electo podrá montar al tigre, pero mientras tanto corresponde decirlo otra vez: por la generosa y valiente apuesta al porvenir compartido, muito obrigado, Brasil.

www.pagina12.com.ar/




Meditações sobre 27 de outubro de 2002


Por Pedrinho A. Guareschi *


Vários amigos(as) me perguntaram sobre o resultado das eleições. Dividido entre estar feliz e uma santa indignação, respondo a todos que acertei nos dois prognósticos: quem ganhou a eleição em nível nacional foi Lula, e a nível de RS foi a RBS. Essa afirmação pode ser chocante e precisa ser justificada, principalmente sua segunda parte. Claro que não estou afirmando aqui que a RBS tenha tanto poder assim! Seria exagerar seu poderio. Mas ao mesmo tempo estou convencido que não podemos ser ingênuos e ficar calados, como se tudo tivesse corrido bem. Não. Vejo uma obrigação moral de apresentar a reflexão que segue, pois estou convicto que algo nessa direção deve ser feito, caso queiramos uma sociedade e uma comunicação mais participativa e democrática.

Antes de começar, um ponto importante: como disse acima, se acho exagerado atribuir uma vitória à RBS, por isso mesmo acho também exagerado dizer que não houve razões que ajudassem a se criar um clima negativo contra a esquerda em geral, e o PT em particular. Mas vale aqui a lei do estereótipo: se é verdade que em todo o estereotipo há sinais, ou sementes, de verdade, o estereótipo como tal toma esse estereótipo e o amplia e o multiplica por milhares de vezes. E esse é exatamente o que quero discutir: a maneira como a mídia toma pequenos indicadores e os amplia, construindo a partir deles toda uma REPRESENTAÇÃO SOCIAL negativa e pejorativa.

Há pelo menos dois anos vinha alertando que, caso não acontecesse algo de especial, o PT perderia as eleições no RS, pois alguém (há sempre pessoas humanas por detrás das instituições) já vinha fazendo CAMPANHA SISTEMÁTICA há dois anos, isto é, desde 1999, contra o Governo Olívio. E essa campanha se prolongou pelos quatro anos, dia a dia, momento a momento, em doses homeopáticas, construindo uma representação social nítida, eficiente, que se tornou A REALIDADE política do RS.

Estou convencido de que não se prestou atenção suficiente a essa variável: a MÍDIA, sintetizada aqui, admiravelmente, pela RBS. Quem analisasse detalhadamente as informações, podia perceber nitidamente que estava sendo criada uma REPRESENTAÇÃO SOCIAL fortemente negativa, desacreditada e pejorativa de ao menos quatro instâncias da vida social e política gaúcha: o próprio Governo Olívio (a pergunta que se fazia, quase diariamente, era "quando Olívio começaria a governar, que ainda nem existia um Plano de Governo..."), do Partido dos Trabalhadores - pintado como o partido do "ódio" -, da questão da segurança pública (incluindo o próprio Secretário da Segurança, o incentivo à divisão e ao conflito entre os órgãos de segurança, as notícias diárias e chocantes sobre crimes e violência como se isso fosse marca exclusiva do RS, etc.), e o Movimento dos Sem Terra (MST), sobre o qual se descarregavam as notícias mais escabrosas e chocantes que aterrorizam qualquer proprietário de casa e terra, por pequeno e pobre que seja, e ferem a sensibilidade de qualquer cidadão comum, como o fato de alguém "ser acordado de madrugada, com uma arma no ouvido, vendo seu cachorro morto e sua vaca de estimação carneada..." (Mendeslki, Rádio Gaúcha, 20 de outubro).

Na verdade, essas são as quatro questões que, ao se perguntar por que determinada pessoa não votaria em Tarso, foram mais freqüentemente apresentadas. Repito que pode haver sementes, ou indícios, de algo real na conduta de tais organizações, mas a REPRESENTAÇÃO SOCIAL construída a partir daí tomou uma dimensão exageradamente disforme, que não correspondia mais à realidade dos fatos.

O episódio da CPI da segurança, que se transformou numa CPI político-partidária contra o governo e o PT, com o patrocínio de muitos políticos que não sabiam mais como impedir a implementação de um novo projeto político e social realmente novo, nos moldes do projeto político que Lula e o PT planejam desenvolver a nível nacional, serviu como carreador dessas idéias, que foram ampliadas e difundidas de todos os modos, por todos os recantos, em todos os momentos (inclusive durante a campanha), principalmente pela RBS. Os estudos mencionados ao final confirmam tal afirmação.

Minha santa indignação provém do fato de que não se pode continuar com uma mídia que, de maneira geral, não cumpre sua tarefa fundamental que é ser responsável por um "serviço público", como diz a Constituição de 1988, que ajude a promover o debate nacional a partir de todas as instâncias da sociedade organizada, isto é, da sociedade civil. Creio que é esse o problema fundamental que hoje sofremos com respeito a nossa mídia. Lembrando o querido Betinho (Herbert de Souza), gostaria de trazer sua afirmação, continuamente repetida nos últimos anos de sua vida: O termômetro que mede a democracia numa sociedade, é o mesmo que mede a participação dos cidadãos(ãs) na comunicação: sem que haja possibilidade de todos dizerem sua palavra, expressaram seu pensamento, manifestarem sua opinião, não é possível uma verdadeira democracia, e corremos o risco de viver uma sociedade fascista, onde apenas alguns têm voz e vez.

Gostaria de terminar com algumas perguntas aos colegas:

Estaria nossa mídia (e penso de modo especial na RBS) desempenhando essa tarefa primordial de porta-voz de toda uma sociedade, como todo serviço público deveria ser? Dentro dessa questão, por exemplo, questionaria um fato corriqueiro: será que alguém que trabalha numa empresa de comunicação (rádio e TV), sabe quando termina a concessão de funcionamento dessa rádio ou TV? E se não sabe, por que não sabe, se isso é crucial? E mais: por que a mídia não discute a mídia?

Segundo: até quando se pode aceitar, por exemplo, pensando em termos de uma sociedade democrática e pluralista, que um candidato (atualmente senador) "possua" um meio de comunicação (no caso, uma rádio), para sua projeção pessoal e conseqüente influência política? É isso concebível dentro do referencial de uma comunicação como serviço público que deve ser porta-voz de TODA a sociedade, de maneira democrática e plural? E que dizer da afirmação do próprio candidato de que pretende permanecer três dias em Brasília, para suas tarefas como senador, e quatro dias no Rio Grande do Sul, para falar em "sua" rádio?

Que dizer do último escândalo midiático de determinado Instituto de Pesquisa apresentar, cinco dias antes da eleição, que a diferença entre dois candidatos seria de 23 pontos; dois dias antes da eleição dizer que seria de 16 pontos; no dia da eleição, com pesqusa de boca de urna, dizer que seria de 12 pontos; e na confirmação das urnas, constatar-se que foi de 5,6 pontos? Que dizer de comentaristas que, ao sair a boca de urna, virem de imediato a público dizendo, sem que ninguém lhes tenha solicitado, que o Instituto estava correto, pois entre 16 e 12 pontos de diferença, com margem de erro de 2,2, o Instituto ainda estaria correto? Por que tanto interesse em defender o Instituto antes da contagem dos votos? E que dizer dos mesmos comentaristas que, após a apuração, ao se constatar que a diferença de boca de urna e dos resultados reais tinha sido de 6,7, com margem de erro de 2 pontos, não comentarem absolutamente nada, permanecendo calados? Mas, ao se constatar o escândalo, a primeira ?desculpa?, tentando justificar o que não tem justificação, ter sido esta: "a RBS não faz pesquisas, ela apenas contrata pesquisas de outros Institutos". É essa uma justificativa que explique, diante das defesas feitas ao Instituto anteriormente?

Mesmo nesse último caso, o de apenas contratar pesquisas, deveríamos fazer duas observações: primeiro, o que significa "contratar" pesquisas? Quais os direitos que o contratante tem sobre o produto? Além do direito de publicar ou não, é ele que decide também sobre as margens de erro? Tudo isso continua obscuro. Segundo: diante de aberrações indiscutíveis, tal empresa deveria questionar-se seriamente sobre a capacidade e a honestidade de tal Instituto. A conclusão a que se chega é que se uma empresa continua a contratar serviços de um Instituto assim, certamente não estaria trilhando por caminhos sérios e responsáveis

É por tudo isso que estou, nessa manhã de 28 de outubro, parte feliz e parte indignado com mais essa página de nossa história. Continuaremos assistindo a tais fenômenos, ou "outra comunicação é possível?"


* Professor do Depto. de Psicologia da PUC/RS


Se alguém quiser referências mais claras sobre o que foi discutido acima, pode encontrá-las num livro que organizei, "Os Construtores da Informação - Meios de Comunicação, Ideologia e Ética" (Petrópolis, Vozes, 2000), que aborda especificamente tais questões. Há nele diversos exemplos de como se faz a construção de uma Representação Social, como: "Essa Gentalha Infeliz: A Representação Social dos Sem Terra Segundo Mendelski", pp. 199-232 e "Patológico, Cinzento e Perdido: a Representação Social do PT segundo Mendelski", pp. 177-198 e ainda: "Como a Página 10 viu a propaganda eleitoral" , pp. 233-242, de Giba Assis Brasil). Outro livro também muito útil é o de Patrick Champagne, "Formar Opinião - o novo jogo político" (Petrópolis: Vozes, 1998), especificamente sobre como as pesquisas eleitorais formam opinião.


terça-feira, outubro 29, 2002

A dica Croquete de site para hoje é...


O boteco.

É o projeto final da gurizada do curso de Comunicação Social da Ufes.

Vão lá dar uma força pra eles.




Depois disso aí, tem gente que ainda vêm reclamar que os partidos de esquerda fazem patrulhamento ideológico, como no caso daquelas tias lá, a Odete Roitman e aquela outra que eu me recuso a dizer o nome...
Censura é isso aí de cima...
Uma pausa para os comerciais dos amigos...

Festa dos sete anos da Federação Anarquista Gaúcha.

segunda-feira, outubro 28, 2002

Esse discurso do Lula merecia esta citação como nota de abertura:


"No dia ditoso em que o Brasil, por um esforço heróico, se decidir a ser brasileiro, a ser do novo mundo, haverá no mundo uma grande nação.
Os homens tem inteligência, as mulheres tem beleza - e ambos a mais bela, a melhor das qualidades: a bondade.
Ora, uma nação que tem a bondade, a inteligência, a beleza - pode contar com um soberbo futuro histórico, desde que se convença que mais vale ser um lavrador original que um doutor mal traduzido do francês."


Eça de Queiroz, Última carta de Fradique Mendes. Paris, 1888.
Íntegra do pronunciamento de Lula após eleito

Compromisso com a mudança

Ontem, o Brasil votou para mudar. A esperança venceu o medo e o eleitorado decidiu por um novo caminho para o país. Foi um belo espetáculo democrático que demos ao mundo. Um dos maiores povos do planeta resolveu, de modo pacífico e tranqüilo, traçar um rumo diferente para si.

As eleições que acabamos de realizar foram, acima de tudo, uma vitória da sociedade brasileira e de suas instituições democráticas, uma vez que elas trouxeram a alternância no poder, sem a qual a democracia perde a sua essência.

Tivemos um processo eleitoral de excelente qualidade, no qual os cidadãos e as cidadãs exigiram e obtiveram um debate limpo, franco e qualificado sobre os desafios imediatos e históricos do nosso país. Contribuíram para isso a atitude da justiça eleitoral e do presidente da República, que cumpriram de maneira equilibrada o seu papel constitucional.

A grande virtude da democracia é que ela permite ao povo mudar de horizonte quando ele acha necessário. A nossa vitória significa a escolha de um projeto alternativo e o início de um novo ciclo histórico para o Brasil.

A nossa chegada à Presidência da República é fruto de um vasto esforço coletivo, realizado, ao longo de décadas, por inúmeros democratas e lutadores sociais. Muitos dos quais, infelizmente, não puderam ver a sociedade brasileira, e em especial as camadas oprimidas, colherem os frutos de seu árduo trabalho, de sua dedicação e sacrifício militante.

Estejam onde estiverem, os companheiros e as companheiras que a morte colheu antes desta hora, saibam que somos herdeiros e portadores do seu legado de dignidade humana, de integridade pessoal, de amor pelo Brasil, e de paixão pela justiça. Saibam que a obra de vocês segue conosco, como se vivos estivessem, e é fonte de inspiração para nós que seguimos travando o bom combate. O combate em favor dos excluídos e dos discriminados. O combate em favor dos desamparados, dos humilhados e dos ofendidos.

Quero homenagear aqui os militantes anônimos. Aqueles que deram seu trabalho e dedicação, ao longo de todos esses anos, para que chegássemos aonde chegamos. Nas mais longínquas regiões do país, eles jamais esmoreceram. Aprenderam, como eu, com as derrotas. Tornaram-se mais competentes e eficazes na defesa de um país soberano e justo.

Celebro hoje aqueles que, nos momentos difíceis do passado, quando a nossa causa de um país justo e solidário parecia inviável, não caíram na tentação da indiferença, não cederam ao egoísmo e ao individualismo exacerbado. Todos aqueles que conservaram intacta a sua capacidade de indignar-se perante o sofrimento alheio. Souberam resistir, mantendo acesa a chama da solidariedade social. Todos aqueles que não desertaram do nosso sonho, que às vezes sozinhos nas praças deste imenso Brasil ergueram bem alto a bandeira estrelada da esperança.

Mas esta vitória é, sobretudo, de milhares, quem sabe milhões, de pessoas sem filiação partidária que se engajaram nessa causa. É uma conquista das classes populares, das classes médias, de parcelas importantes do empresariado, dos movimentos sociais e das entidades sindicais que compreenderam a necessidade de combater a pobreza e defender o interesse nacional.

Para alcançar o resultado de ontem, foi fundamental que o PT, um partido de esquerda, tenha sabido construir uma ampla aliança com outras forças partidárias. O PL, o PC do B, o PMN e o PCB deram uma contribuição inestimável desde o primeiro turno. A eles, vieram somar-se, no segundo turno, o PSB, o PPS, o PDT, o PV, o PTB, o PHS e o PGT. Além disso, ao longo da campanha, contamos com o apoio de setores importantes de outros partidos identificados com o nosso programa de mudanças para o Brasil. Em especial, quero destacar o apoio dos ex-presidentes José Sarney e Itamar Franco e, no segundo turno, o precioso apoio que recebi de Anthony Garotinho e Ciro Gomes.

Não há dúvida de que a maioria da sociedade votou pela adoção de outro ideal de país, em que todos tenham os seus direitos básicos assegurados. A maioria da sociedade brasileira votou pela adoção de outro modelo econômico e social, capaz de assegurar a retomada do crescimento, do desenvolvimento econômico com geração de emprego e distribuição de renda.

O povo brasileiro sabe, entretanto, que aquilo que se desfez ou se deixou de fazer na última década não pode ser resolvido num passe de mágica. Assim como carências históricas da população trabalhadora não podem ser superadas da noite para o dia. Não há solução milagrosa para tamanha dívida social, agravada no último período. Mas é possível e necessário começar, desde o primeiro dia de governo.

Vamos enfrentar a atual vulnerabilidade externa da economia brasileira ¿ fator crucial na turbulência financeira dos últimos meses ¿ de forma segura. Como dissemos na campanha, nosso governo vai honrar os contratos estabelecidos pelo governo, não vai descuidar do controle da inflação e manterá ¿ como sempre ocorreu nos governos do PT ¿ uma postura de responsabilidade fiscal. Essa é a razão para dizer com clareza a todos os brasileiros: a dura travessia que o Brasil estará enfrentando exigirá austeridade no uso do dinheiro público e combate implacável à corrupção.

Mas mesmo com as restrições orçamentárias, impostas pela difícil situação financeira que vamos herdar, estamos convencidos que, desde o primeiro dia da nova gestão, é possível agir com criatividade e determinação na área social. Vamos aplacar a fome, gerar empregos, atacar o crime, combater a corrupção e criar melhores condições de estudo para a população de baixa renda desde o momento inicial de meu governo.

Meu primeiro ano de mandato terá o selo do combate à fome. Um apelo à solidariedade para com os brasileiros que não têm o que comer. Para tanto, anuncio a criação de uma Secretaria de Emergência Social, com verbas e poderes para iniciar, já em janeiro, o combate ao flagelo da fome. Estou seguro de que esse é, hoje, o clamor mais forte do conjunto da sociedade. Se ao final do meu mandato, cada brasileiro puder se alimentar três vezes ao dia, terei realizado a missão de minha vida.

Como disse ao lançar meu Programa de Governo, gerar empregos será minha obsessão. Para tanto, vamos mobilizar imediatamente os recursos públicos disponíveis nos bancos oficiais ¿ e nas parcerias com a iniciativa privada ¿ para a ativação do setor da construção civil e das obras de saneamento. Além de gerar empregos, tal medida ajudará à retomada gradual do crescimento sustentado.

O país tem acompanhado com preocupação a crise financeira internacional e suas implicações na situação brasileira. Em especial, a instabilidade na taxa de câmbio e a pressão inflacionária dela decorrente.

Porém, com toda a adversidade internacional, estamos com superávit comercial de mais de 10 bilhões de dólares neste ano. Resultado que pode ser ampliado já em 2003 com uma política ofensiva de exportações, incorporando mais valor agregado aos nossos produtos, aprofundando a competitividade da nossa economia, bem como promovendo uma criteriosa política de substituição competitiva de importações.

O Brasil fará a sua parte para superar a crise, mas é essencial que além do apoio de organismos multilaterais, como o FMI, o BID e o BIRD, se restabeleçam as linhas de financiamento para as empresas e para o comércio internacional. Igualmente relevante é avançar nas negociações comerciais internacionais, nas quais os países ricos efetivamente retirem as barreiras protecionistas e os subsídios que penalizam as nossas exportações, principalmente na agricultura.

Nos últimos três anos, com o fim da âncora cambial, aumentamos em mais de 20 milhões de toneladas a nossa safra agrícola. Temos imenso potencial nesse setor para desencadear um amplo programa de combate à fome e exportarmos alimentos que continuam encontrando no protecionismo injusto das grandes potências econômicas um obstáculo que não pouparemos esforços para remover.

O trabalho é o caminho de nosso desenvolvimento, da superação dessa herança histórica de desigualdade e exclusão social. Queremos constituir um amplo mercado de consumo de massas que dê segurança aos investimentos das empresas, atraia investimentos produtivos internacionais e represente um novo modelo de desenvolvimento e compatibilize distribuição de renda e crescimento econômico.

A construção dessa nova perspectiva de crescimento sustentado e de geração de emprego exigirá a ampliação e o barateamento do crédito, o fomento ao mercado de capitais e um cuidadoso investimento em ciência e tecnologia. Exigirá também uma inversão de prioridades no financiamento e no gasto público, valorizando a agricultura familiar, o cooperativismo, as micro e pequenas empresas e as diversas formas de economia solidária.

O Congresso Nacional tem uma imensa responsabilidade na construção dessas mudanças que irão promover a inclusão social e o crescimento sustentado. Por isso, estarei pessoalmente empenhado em encaminhar para o Congresso as grandes reformas que a sociedade reclama: a reforma da previdência social, a reforma tributária, a reforma da legislação trabalhista e da estrutura sindical, a reforma agrária e a reforma política.

O mundo está atento a esta demonstração espetacular de democracia e participação popular ocorrida na eleição de ontem. É uma boa hora para reafirmar um compromisso de defesa corajosa de nossa soberania regional. E o faremos buscando construir uma cultura de paz entre as nações, aprofundando a integração econômica e comercial entre os países, resgatando e ampliando o Mercosul como instrumento de integração nacional e implementando uma negociação soberana frente à proposta da ALCA. Vamos fomentar os acordos comerciais bilaterais e lutar para que uma nova ordem econômica internacional diminua as injustiças, a distância crescente entre países ricos e pobres, bem como a instabilidade financeira internacional que tantos prejuízos tem imposto aos países em desenvolvimento.

Nosso governo será um guardião da Amazônia e da sua biodiversidade. Nosso programa de desenvolvimento, em especial para essa região, será marcada pela responsabilidade ambiental.

Queremos impulsionar todas as formas de integração da América Latina que fortaleçam a nossa identidade histórica, social e cultural. Particularmente relevante é buscar parcerias que permitam um combate implacável ao narcotráfico que alicia uma parte da juventude e alimenta o crime organizado.

Nosso governo respeitará e procurará fortalecer os organismos internacionais, em particular a ONU e os acordos internacionais relevantes, como o protocolo de Kioto, e o Tribunal Penal Internacional, bem como os acordos de não proliferação de armas nucleares e químicas. Estimularemos a idéia de uma globalização solidária e humanista, na qual os povos dos países pobres possam reverter essa estrutura internacional injusta e excludente.

Não vou decepcionar o povo brasileiro. A manifestação que brotou ontem do fundo da alma dos meus compatriotas será a minha a inspiração e a minha bússola. Serei, a partir de 1º de janeiro, o presidente de todos os brasileiros e brasileiras, porque sei que é isso que esperam os eleitores que me confiaram o seu voto.

Vivemos um momento decisivo e único para as mudanças que todos desejamos. Elas virão sem surpresas e sobressaltos. Meu governo terá a marca do entendimento e da negociação. Da firmeza e da paciência. Temos plena consciência que a grandeza dessa tarefa supera os limites de um partido. Esse foi o sentido do esforço que fizemos desde a campanha para reunir sindicalistas, ONGs e empresários de todos os segmentos numa ação comum pelo país.

Continuaremos a ter atuação decidida no sentido de unir as diversas forças políticas e sociais para construir uma nação que beneficie o conjunto do povo. Vamos promover um Pacto Nacional pelo Brasil, formalizar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, e escolher os melhores quadros do Brasil para fazer parte de um governo amplo, que permita iniciar o resgate das dívidas sociais seculares. Isso não se fará sem a ativa participação de todas as forças vivas do Brasil, trabalhadores e empresários, homens e mulheres de bem.

Meu coração bate forte. Sei que estou sintonizado com a esperança de milhões e milhões de outros corações. Estou otimista. Sinto que um novo Brasil está nascendo.

São Paulo, 28 de outubro de 2002

Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente eleito da República Federativa do Brasil


E pra relaxar...

TERROR NO CIRCO


Dia de gala no Gran Cyrcus Mundiallis. Número clímax do espetáculo: o domador trabalhara os animais com maestria. Eles saltaram no arco de fogo, subiram no Tamborete, dançaram, era uma grande festa!
Subitamente, um grande Leão investiu contra a grade de proteção.
Terror! A grade, que tinha sido mal encaixada pelos auxiliares do circo, rompeu-se. O leão investiu contra o público aterrorizado.
Todos dispararam desesperadamente, correndo para salvar suas vidas!

Um pobre aleijado recém chegado da Europa, em seu primeiro passeio aqui no novo mundo, capengava desesperadamente. Isso atraiu a atenção de algumas pessoas que, penalizadas, começaram a gritar: ! ! ! ! ! ! !

- Olha o aleijado! Olha o aleijado!

E o aleijado grita desesperadamente:

- PORRA!! DEIXA O LEÃO ESCOLHER, CARALHO !!!!
E como a esperança venceu o medo...

Tenho a certeza de que dias melhores virão...

E para você, que é cheia de raiva, rancor e ódio, um pequeno parágrafo para reflexão:

"O amor é alimentado pela imaginação, através da qual nos tornamos mais sábios do que sabemos, melhores do que nos sentimos, mais nobres do que somos, capazes de ver a vida como um todo; através da qual, e só através dela, chegamos a entender os outros tanto em sua relação real quanto ideal. Só o que é superior e superiormente concebido pode alimentar o amor, mas qualquer coisa alimentará o ódio".


Oscar Wilde